por C.A. - Quinta-Feira, 2 de Abril de 2009, às 16:35
Brincar, em suma, sempre foi brincar sozinho. E falo de quando não contava mais que cinco, seis anos. Havia o incômodo – a agonia, admito; a inveja, reconheço – ante os que não só brincavam em grupo, mas ainda se divertiam. (E eu precisava evitá-los ao máximo, portanto). Porque eu até podia brincar com as outras crianças, com meus amigos mais queridos, não raro brincava, mas sob esforço quase paralisante, gosto impossível e urgência por me enquadrar – por caber [e sumir] ali.
Sozinho, contudo, eu criava exércitos, aliados e adversários, montava cenários monumentais, promovia acordos de paz, que logo rompia em traições e batalhas sangrentas, mas sem privilegiar lado algum, antes os comandando sob profundo equilíbrio, representando, com consistentes pormenores psicológicos, cérebros diferentes, inimigos mortais, entre os quais me alternava com orgulhosa desfaçatez autoral.
Nesses momentos – ilusórios em certo sentido [uma vez que existia o universo lá fora], mas plenamente reais para mim [já que existia também aquele meu espaço, governado por mim] – não havia com o que me preocupar e era natural que me considerasse resolvido. Aquele era o meu mundo, a minha guerra, onde eu era feliz – e militarmente viável.
Por esta época, eu já sabia ler; aprendera sozinho, antes dos cinco, estimulado por um meu exercício de associar sons e sílabas, e destas desfiar as letras, uma a uma, medindo e desembaraçando as combinações, até formar o alfabeto em recortes de jornal, como se preparasse os tipos impressos, coloridos e variados, para uma daquelas cartas anônimas [assustadoras] do melhor cinema americano de suspense.
Assim…
A um óbvio clichê para o jovem que fui – introvertido, segundo os mais otimistas; depressivo, não raro autista, aos menos compreensivos – eu me encaixei logo. Eu lia. Muito. Deixei progressivamente os exércitos – os soldados – para ingressar, sem reserva, nas fileiras de palavras escritas, às frases, e eis que me fiz em alguma artilharia.
Eu restava sozinho, em meu espaço mais caro, o do silêncio; havia uma certa cobrança – talvez minha – por que me ocupasse [era minha a cobrança, hoje sei], e então lia. De início, jornais e revistas ilustradas. Depois, livros, sobretudo fábulas. (Mamãe – e acho que, depois dela, ninguém mais – respeitava a leitura como uma ocupação produtiva, que em algo resultava ou resultaria, e assim me protegia, resguardava, sem chaves, aquela nação minha, que não extrapolava meu quarto, contra as pujantes exigências, atléticas e impulsivas, solares, do jovem mundo exterior; o meu quarto, no Rio de Janeiro, era a Finlândia).
Curioso é que, de minhas primeiras leituras, muito pouco me lembro. (Recordo-me, isto sim, da sensação, sensação de mundo, de inteireza, completude; do prazer abstrato que tirei, imediatamente, da experiência concreta, que ainda hoje perdura, do tato absoluto, do toque no livro, que se abre e desenvolve, o objeto livro, do toque, do manuseio gentil, logo compadre, ao papel, e de seu cheiro bom, de madeira afinal útil – porque o leitor honesto não pode ser ecologicamente correto).
De minhas primeiras leituras, quais fossem, mamãe foi a memória – e, se escrevo que delas muito pouco lembro, talvez simplifique excessivamente, talvez esquematize em demasia as possibilidades [os mistérios] da mente, incorrendo em negligência para com as reminiscências afetivas, que, por que não?, transmitem-se no carinho, no afago verbal; e talvez que este pouco de lembrança seminal minha seja ainda a memória de mamãe, que sua generosidade fez crer minha; e minha é. Como não? Como, se memória é patrimônio, dizer que não possa ser também herança?
Gostava [nunca me cansava] de ouvi-la contar sobre os livros que eu lera, sobre como me chegaram [então ao acaso], como despertavam [ou formavam] o meu interesse – mas nada jamais superou os momentos em que, em meio a essas sólidas lembranças de leitura e de livros, de títulos, de ilustrações etc., ela contava, ainda que brevemente, ainda que de passagem, ainda que pela milésima vez, sobre o meu fervor, sobre a paixão que lia em meus olhos enquanto me guiavam pelas páginas… E isto me foi – é – fundamental, decisivo, porque afinal montou [monta, sustenta] a ponte para o leitor [eu] de que tenho recordação plena, não mais herança, recordação de fato, fotográfica, nítida, e é assim que ora vou me lembrar da relação candente, orgânica, que tive com os livros do Nelson, os primeiros a que me remonto, quiçá porque escolhidos por mim, comprados por comando e desejo meu, que devorava de maneira febril – os livros de Nelson Rodrigues sobre futebol.
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Eu já teria dez, onze anos, talvez doze; tinha meus gostos [e desgostos, principalmente] definidos, o meu caráter singularmente estabelecido – leitor, sobretudo leitor – mas me teria perdido completa e eternamente, no que se refere ao mundo exterior [ao juízo público], não fosse um gol, lindo, de cabeça, o gol da vitória, que marquei. Sem querer.
Até então eu jogava futebol, obrigado pela educação física escolar, como tomava partido em qualquer atividade coletiva: invisível, ao melhor estilo zumbi, pretendendo apenas sobreviver. Era o último a ser escolhido, sempre, e meus companheiros de time me recebiam como fardo – o que verbalizavam em termos, “melhor seria se jogássemos com um a menos”, que me traumatizariam se pelo esporte então eu cultivasse alguma esperança, se pelo esporte eu tivesse alguma expectativa que não a do apito final.
Quando jogávamos no campo grande, menos dilacerante [porque a extensão da arena me mantinha mais distante da bola e por mais tempo], escalavam-me à ponta, bem aberto, e eu, comprometido com a idéia [de me ocultar], desaparecia como, em breve, desapareceriam todos os pontas – e eu então estava, sem saber, na vanguarda tática, pioneiro na evolução dinâmica do esporte, experimentando [quiçá contribuindo para], no isolamento, a inutilidade que resultaria no fim absoluto da posição outrora ocupada por Julio Cesar “Uri-Geller”.
Dramático – difícil mesmo – era quando o jogo se dava no salão. O time se formava em quatro mais o goleiro, e não havia meios de me esconder. A bola era onipresente, miúda ainda mais que a outra, velocíssima, e, sem poder me mascarar, ainda me expunha. Eu, perdido, rodando num terreno que era só desorientação, empenhava-me em dela me livrar, da bola, mas a paz não durava um punhado de segundos, e logo ela vinha, de novo e de novo, para o meu fracasso e do meu time, para o meu ridículo obsessivo – até aquele dia redentor em que, diante da platéia lotada de meninas, caminhando convicto para mais uma jornada de humilhação, um tiro disparado contra a trave se veio replicar em minha cabeça, e dali, fulminante, para o gol, para o gol!, no último instante, o gol da vitória, casual e gloriosamente meu, que comemorei, correndo sozinho e desprezando meus colegas, como um herói, como Zico, que ergue as mãos aos céus não por se aproximar de deus, mas para se elevar a si…
Hoje posso escrever com clareza: eu me encontrava, à falta da ponta, pouco entrado na área adversária, de onde vi, espectador privilegiado, o chute violento ganhar forma e direção para, sonoro, agredir a trave e vir em minha direção, não menos forte, e eu simplesmente fechei os olhos, baixei pouco a cabeça e contraí o pescoço, parado absolutamente, e então senti a bolada me acertar em cheio, bem à testa, repicando poderosamente contra as redes inimigas, caminho cujo final, o arqueiro vencido, o estufar das redes, de olhos bem abertos, pude ver – o meu primeiro gol, e rever, para sempre, como agora.
Ali, porquanto também já me aplaudissem as meninas na arquibancada, ali o futebol nasceu para mim; e ali, ao juízo do universo [talvez ao meu mesmo], eu me salvei. Para o mundo. (Para o mundo, sim, absolutamente dependurado, precário, mas salvo; mantendo aberta aquela fresta última, aquela em que identifiquei a chance, menos falsa afinal, de existir, digamos, socialmente; e pela qual se reduzia em mim, a quase omitir-se, o temor por que me desmascarassem)… E também me lembro com clareza: eu comemorava, aprofundava como um título aquele instante-gol meu, o da vitória, e ao mesmo tempo, consciente, decidia que não só aprenderia a jogar futebol, como o faria bem.
Não tardou e eu já era o Sócrates, o elegante, imprescindível, o que cadenciava o jogo, o que fazia a bola correr – o que tinha ampla compreensão do esporte, embora eu nada mais fizesse que sobreviver, que existir, que me encaixar, já-quase dignamente, adaptando as minhas limitações [inclusive as do aprendizado tardio], recriando-as em qualidades, em consistência, simplesmente preenchendo os espaços não ocupados pela juventude dos demais, que ainda invejava, e talvez mais ainda. Eu era quieto, eu era leitor, e era um craque.


Quinta-Feira, 2 de Abril de 2009, às 18:36
Ótimo!
Quinta-Feira, 2 de Abril de 2009, às 23:27
Excelente continuação.
E vc deve ter evoluido mesmo, pois o Marcão (que depois de mim, é o maior entendedor do esporte bretão) costuma dizer que no Jockey tu eras verdadeiramente infernal.
Quinta-Feira, 2 de Abril de 2009, às 10:00
Como sempre, me cabe lembrar que esta majestosa carreira de Andreazza foi alavancada e acompanhada de perto pelo incrível Paulo Barros - não o carnavalesco, mas o histórico técnico do escrete do Jockey Club da década de 1990.
Ele foi, de fato, o primeiro a ver que aquele menino - barbudo aos 10 anos - era bom de bola.
Quinta-Feira, 2 de Abril de 2009, às 17:37
João Paulo, alto como me pareceu na foto, devia ser o guarda-redes desse escrete.