por C.A. - Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009, às 15:42
Desde bem cedo, criança ainda, eu invejei a juventude. Não o jovem; a juventude. E talvez que minha primeira consciência tenha sido a de que em mim, menos que um senhor precoce, adolescia uma sólida calmaria, um desfuror concreto – a quietude de uma poça esquecida pela maré que baixou. (E não interessa que haja um ciclo poderoso, que as águas subam, que as águas se refaçam, que rebanhem a rocha, que se lhe rebatam contra, porque será sempre a mesma poça, o mesmo acúmulo, ao mesmo nível – milagrosamente, superficialmente como se me deleita de fato observar).
Então: fui jovem [criança, adolescente etc.], no que concerne à idade e às aparências do corpo, mas jamais vivi, real ou idealmente, a juventude – um mistério pra mim, seja como for. E no entanto havia os meus amigos, não muitos, mas amigos, cujo conjunto, aos meus olhos, representava a juventude toda, a inveja toda, eles que corriam, vigorosos, energéticos, gastadores de excessos infinitos, enquanto eu fazia correr a bola; e eles me diziam elegante, econômico, como o Sócrates, o que cadencia, diziam, o que dita o ritmo do jogo, o que compreende o esporte, e eu simulava aceitar a fama [o rótulo] de jogador cerebral [de resto justo] para assim afastar-esconder-camuflar, mover-remover para longe em mim, cerrar no calabouço meu, no inatingível do que só eu sabia-sentia, a certeza [inquestionável] de que, sem haver opção, outro eu não poderia ser – e era esta a minha compreensão do jogo, do esporte: eles eram a juventude, eram o que eu gostaria de ser, eu os invejava, e a mim bastava, era-me urgente, desenvolver [e renovar] meios d`entre eles restar [ser confundido, quiçá aceito]; e eu sempre desconfiei que, cedo ou tarde, a despeito de tanto parecermos, crianças afinal, apesar de termos a mesma forma de jovens obtusos e desconjuntados, cedo ou tarde, eu desconfiava, desmascarar-me-iam. (Acho que este temor, mais ou menos iminente, nunca me deixou).
E isto escrevo hoje, decerto que fantasiando-dramatizando, decerto que buscando refletir, em termos da experiência. À época, porém, feto ainda, a minha noção, nem um pouco literária, era dura e sofrida, seca, árida, verbalmente impossível, e eu apenas entendia-experimentava, mudo, a oposição absoluta; o envelhecimento, em nada físico [e seria tão melhor], de, não me sentindo particularmente cansado ou preguiçoso, julgar ao mesmo tempo estúpida e fascinante a curiosidade selvagem de meus amigos, a disposição bruta, visceral, por arriscar, por correr riscos, por descobrir, por morrer um milhão de vidas e renascer cicatriz… E então havia as meninas, que entre nós selecionavam os heróis ou, menos exigentes, os vivos. E nunca eu, portanto. Eu que nada tinha a pôr em jogo, que nada tinha a escutar ou dar, que nada tinha senão a preferência [depressiva, segundo os adultos] pelo silêncio e pela solidão, os meus espaços; eu que nunca roubara abacates; eu que nunca brigara a socos com alguém; eu que nunca deslocara a clavícula; eu que preferia ejacular à noite, na cama, dormindo, talvez sonhando, a me punhetar. Eu que era quieto.
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Uma vez, a primeira, fui corajoso. (E não direi que foi também a última porque, depois, com o tempo, o conceito de coragem esvaziou-se de sentido em mim; e eu preferi conceber-me, com extrema antecedência e um sem-número de restrições, de maneira a que um milhão de alternativas se me oferecessem seguras antes de precisar d`algo como coragem).
Mas, enfim, fui corajoso.
Havia uma senhora, velhíssima, moradora à casa vizinha, que repousava, quase-dormia, horas a fio, de tarde, sob a mangueira do quintal; e o desafio, que me impus, decerto que tolo aos meus amigos [se soubessem] consistia em lhe invadir o terreno, qual um ninja, e, sem barulho, roubar ao menos uma fruta, uma manga, e partir sem rastro.
Durante meses, quase ano, fui traído-engessado, de maneira febril, pelo medo, pelo pavor, e terei abortado a invasão cem vezes, senão mais. (E acho que só me mantive acordado - vivo - porque me norteei pela convicção de que todas aquelas falhas seriam esquecidas no instante, único, em que, vencendo os limites do terreno alheio, eu teria-construiria o meu).
Um dia, com efeito, aconteceu, perfeito, impecável - e fui completamente feliz, porquanto experimentasse, aos nove anos, o sucesso, o triunfo, a superação afinal, aquilo que me parecia [que deveria] ser a sensação, senão diária, habitual de meus amigos, que sem dúvida já se lançavam a perigos mortais, muito mais sofisticados [e secretos, pelo menos a mim] que meu furto, eu sabia, mas o caso é que estava iniciado, que algo de amarrado se rompera, que logo daria novos passos, e quiçá um dia se lhes pudesse alcançar ou mesmo, com sorte, ameaçar, e eu teria então encontrado utilidade, tensão produtiva, para a minha inveja, e cheguei mesmo a desfrutar, antecipando o sabor, dum dia, futuro, em que a juventude invejada seria a minha - e me deslumbrou a idéia de que havia algo de juventude genuína, mais que na aventura, nos meus pensamentos. (Afinal, residia em mim, ali, intimamente que fosse, alguma juventude - e, diante daquela novidade, eu me sentia plenamente capaz).
Era uma quarta-feira, não me esqueço, e não passaria das 21h quando minha mãe contou-me que a senhora vizinha falecera mais cedo naquele dia, sentada à cadeira de balanço, enquanto repousava, como sempre, sob a mangueira do jardim.
Ainda hoje, tantos anos depois, mas com a mesma intensidade de então, pergunto-me - e acho que minha honra vaga nesta dúvida [neste limbo] - se teria a senhora morrido antes ou depois de minha missão. (Ainda hoje, tantos anos depois, mas com a mesma intensidade de então, pergunto-me - e acho que a chama tísica de minha juventude se consumiu neste sopro de morte - se teria a senhora morrido antes ou depois de minha missão).
Hoje me ocorre que, fosse eu menos dado à insegurança, fosse eu menos sério, poderia imaginar que, tendo afinal fracassado, ao menos matara a velha de susto. Mas não. Ela morrera antes, minha existência se conformou assim - e assim também se conformariam a [minha] imaginação e o [meu] humor não houvesse já em mim, em curso incipiente, a trama, a tessitura, a concepcão de um discurso para uso exterior, a criação de uma estratégia de permanência no mundo; a mesma que, fornecendo-me cotas apoucadas, mas perenes, de simpatia [de graça, de sorte], pavimentou-me um caminho, este que ora deságua nessas memórias.
E eis-me ainda: quieto, mas em movimento.


Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009, às 16:30
Hoje eu tive o mesmo sentimento de quando pela primeira vez li um texto teu!
Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009, às 16:47
Que maravilha!
Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009, às 17:19
Porra, que texto bom, puta que pariu.
Primeiro porque eu me identifiquei completamente com o autor, nessa história da inveja da juventude.
Segundo porque o caso todo é muito bem contado.
Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009, às 17:21
Ah, agora sim! Um desses vale por dezenas de postagens no blogue. Que venham as próximas.
Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009, às 17:35
Que coisa fantástica esse texto. Traz para o leitor um série de sentimentos fortes. Lindo, Lindo!
Obs: voce sempre será um (meu) herói.
Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009, às 17:54
Essa coisa de parênteses pega?
Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009, às 17:56
Enfim, literatura no site! E da boa! E do meu escritor preferido, o 3º da minha lista dos 10 mais.
Tive a mesma sensação que a Leticia.
Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009, às 19:50
Andreazza, teu talento para a escrita é algo de fascinante.
Estas foram, com certeza e sem nenhum exagero, algumas das melhores linhas que li nos últimos tempos.
Ter sido, um dia, objeto da tua pena e tinta, é algo que me faz ter orgulho de mim mesmo.
Simplesmente muito bom, imperiano. Muito bom mesmo.
Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009, às 20:01
Pian, eu li a entrevista de um dos responsáveis pelo Choque de Ordem e a explicação dele para o caso das bicicletas me pareceu bem plausível. Se era uma bicicleta de uso comercial e as reclamações eram constantes, achei a atitude correta.
Eu não sou exatamente um grande fã do Zuenir Ventura, mas achei interessante o texto dele hoje, falando que o carioca sempre clamou por ordem, mas começando pelos outros, não por ele.
O João Ximenes Braga, aliás, tem um texto genial sobre o Rio, falando que o carioca não precisa aumentar sua auto-estima, e sim diminuir. Afinal, o carioca sempre acha que está acima do bem e do mal, porque tudo é perdoado pela ginga, malemolência…
Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009, às 20:02
Em tempo: desculpe ao autor por usar esse espaço para um assunto que nada tem a ver com o (ótimo) texto publicado por ele.
Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009, às 20:05
Olga, é verdade. Gosto dos textos factuais dos Tribuneiros, mas também sinto falta da verve literária deles (que, claro, está presente nos textos sobre atualidades, mas com uma pegada um pouco mais comedida).
O C.A é um talento. Mais do que um talento, me parece ser um cara que se preparou para isso, dada a quantidade de boas referências e de informação que ele passa em seus textos.
Eu gosto disso. Acho que talento é bom, mas não gosto de quem se acomoda com ele e não explora o dom. E os Tribuneiros têm essa boa qualidade de se mostrarem, mais do que talentosos, escritores preparados.
Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009, às 21:56
Secchin, não vou me alongar muito sobre as bicicletas e o texto de hoje do Zuenir Ventura, pois como você bem disse, este é um espaço mais do que merecido para os leitores tribuneiros agradecerem a mais essa pérola do C.A.
Mas essa coisa do carioca (e do brasileiro de uma maneira geral) só gostar da lei quando aplicada a terceiros, é a minha rotina diária de trabalho, meu amigo.
Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009, às 10:17
Carlos, você é o cara!
Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009, às 14:01
Carlos, de verdade, se eu trabalhasse em uma revista/jornal dedicava uma coluna só para os seus textos, fantástico! :)
Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009, às 15:40
Fantástico! Sensacional! Muito bom mesmo!
Parodiando o próprio autor:
Carlos não é goleiro mas sabe que é disso… é disso que o povo gosta!
Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009, às 16:29
Olga, se me permite a curiosidade, quem são os dois primeiros? Aliás, quem são os dez mais? bjs
Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009, às 17:30
Fernanda, desculpe, mas só agora vi seu comentário.
Os dois primeiros são os já tão citados por mim, Machado de Assis e Fernando Pessoa. Os outros são: Dostoievski, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector, Camus, Saramago, Somerset Maugham (sobretudo por Servidão Humana)e Gabriel Garcia Márquez(eu não passei impunemente por Cem anos de solidão e Amor nos tempos do cólera).
Quarta-Feira, 1 de Abril de 2009, às 19:18
Texto sensacional, parabéns.
Você compartilha da idéia que todo escritor já o é na infância, juventude, mesmo sem o saber e talvez até mesmo sem se entregar diretamente às escritas, e, devido à sua sensibilidade aguçada, um pouco triste?