por C.A. - Segunda-Feira, 30 de Marco de 2009, às 14:03

Nunca gostei de Brizola, vivo ou mitificado - e sempre acreditei [como ainda hoje] que muito do que o Rio de Janeiro possui de pior tenha origem [ou profundidade] em suas administrações.
(Não escrevo à toa - e, neste caso, jamais sob tom pessoal-passional: não faz muito estudei, longa e detidamente, o desenvolvimento da cidade na virada dos anos 1970-80; e estou seguro de que a quase inviabilidade do Rio atual, antes apenas esboçada, teve fundação [concreto, afinal] nas práticas frouxas, ditas populistas, de Brizola [a partir de 1983], sobretudo àquelas que consistiram na farta [e sem critérios] distribuição de títulos de propriedade, inclusive [e não raro] em áreas de risco, o que, impedindo de vez o planejamento urbano, resultou na impossibilidade produtiva [no aterro de vocações econômicas várias] de dezenas de regiões, do que a favelização incontornável é conseqüência).
Minha opinião, porém, em nada admite a barbárie [a ofensa ao jornalismo; o desrespeito à memória de um homem morto] que O Globo comete desde domingo [29 de março], em série nomeada “Arquivos da abertura”, por meio da qual, sem prova alguma e, portanto, baseando-se em investigações - ademais empreendidas por suspeitos órgãos de espionagem militar - que jamais tiveram seguimento, associa deliberadamente [ou deixa associar, covardemente] o ex-governador ao crime organizado e ao medieval movimento de propinas, o que é inaceitável e, sob mínima reflexão, muito perigoso.
Que se desconsidere, vá-lá, o mau [o péssimo] jornalismo, que me envergonha… Pensemos apenas nos riscos de se tratar por verdadeiro, onde quer que seja, o que é mera especulação, de resto francamente mergulhada na ideologia duma época em que o fanatismo conspiratório Direita x Esquerda, visto felizmente à distância, convida muito mais à desconfiança que à descoberta.
Por esta leitura difamadora e policialesca, a que nos oferece O Globo [jornal, é mister que se lembre, historicamente anti-brizolista], ninguém estará livre de ser enredado - em manchete - numa denúncia grave cuspida sem apuração; ninguém, cedo ou tarde, vivo ou morto, escapará desta forma hedionda de acusação, de disseminação da calúnia, que se vale do caráter até então secreto dos documentos para lhes dar, pela confidencialidade [assaz questionável, registre-se], legitimidade incontornável, ao que vem concorrer o tempo, a desmemória do tempo, os mais de vinte anos - e é este portanto outro perigo, imenso, da estupidez histórica corrente: conferir peso, verdade, sabedoria, a um papel simplesmente pela idade que o amarelado das suas bordas sugere.
Se a necessária e urgente a abertura dos arquivos da ditadura brasileira de fato receber, da imprensa, esta leitura velhaca, acrítica e torpemente propagadora [publicitária] - pobre reprodutora da opinião oficial viciada da época -, então não teremos [ainda] aprendido coisa alguma com a liberdade e com a solidez de nossas instituições democráticas, e muito teremos a nos preocupar.
Sem ingenuidade, a considerar a impureza de uma fauna, a dos homens públicos, infestada de desonestos em quase todos os matos, ainda assim só a prova, nos termos da lei - sob o que versa o Estado de Direito -, fará de alguém, quem quer que seja, corrupto. Daí porque, de concreto, de real, de fato, de evidente, eis que por ora temos apenas - e em suite! - a confirmação do jornalismo terrível de que é capaz o mais importante jornal carioca.
E fica aqui, afinal, o meu desagravo à memória de Leonel de Moura Brizola, de quem, conceitualmente, sempre discordei - mas cuja probidade, até que se mostre o contrário, merece defesa incansável, senão exclusivamente por ele, pelos outros tantos que, empreendendo também com coragem, expondo-se com galhardia, a partir de sólidas convicções [certas ou erradas], trabalharam e construíram e legaram, convivendo assim [inevitável, imediata e eternamente] com a maledicência e a inveja daqueles que temem, que fogem do peso da responsabilidade pública, e que insistem em botar todo o homem público no mesmo barco sem-bandeira dos piratas os mais canalhas.
Brizola podia estar politicamente equivocado, suas gestões decerto que não estiveram livres da corrupção do sistema [que há, pontual, independentemente do governante] - mas ele, Leonel de Moura Brizola, sempre foi um político coerente, valente, realizador e honrado, que tinha idéias próprias e as respeitava sobretudo, norteando-se por elas. Jornalismo anão nenhum jogará isso à lama.


Segunda-Feira, 30 de Marco de 2009, às 14:29
Não esperava outra coisa de você.
Seu desagravo lavou-me a alma.
Segunda-Feira, 30 de Marco de 2009, às 14:34
C.A, eu não ponho a mão no fogo por político nenhum e não poria, portanto, por Leonel Brizola. Vivo ou morto.
Mas o que está em jogo não é a reputação do Brizola, simplesmente, mas sim o, na pior das hipóteses, péssimo jornalismo de O Globo.
Tomar como verdade relatórios que nem do SNI eram, e sim do Cenimar?
Escrever pequenininho na matéria que nada foi provado ou seriamente investigado e marcar na primeira página, com letras garrafais, a síntese do relatório, como se verdade irrefutável fosse?
Deus me livre defender qualquer forma de censura, cassações Chavistas de concessões ou o que seja, mas quem dá à imprensa liberdade de destruir reputações de vivos e mortos, assim, impunemente, sem provas?
Segunda-Feira, 30 de Marco de 2009, às 15:24
Olga, eu também gostei muito do texto. E o melhor da história é a ressalva logo no início de que o autor tem profundas discordâncias ideológicas com o político em questão.
Foi um texto brilhante, porque trata exclusivamente de honestidade intelectual e do trabalho da imprensa.
Se fosse uma defesa do Lula, do Mário Covas ou do Tasso Jereissati, nesses mesmos termos, eu acharia ótimo o texto do mesmo jeito, exatamente porque ele não trata de pessoas, e sim do bom jornalismo.
Muito bom! Esse site já era um dos meus preferidos. Agora, ganhou mais pontos.
Segunda-Feira, 30 de Marco de 2009, às 15:37
Nunca tive simpatia por ele, mas tbm fiquei indignado com o crime que O Globo cometeu ontem. Suposições sem nenhuma prova viraram manchete da edição de domingo. Uma vergonha.
Segunda-Feira, 30 de Marco de 2009, às 16:14
Secchin, esse é o Andreazza. Aliás, por aqui, eles insistem em ser decentes.
Segunda-Feira, 30 de Marco de 2009, às 17:19
Perfeito.
Segunda-Feira, 30 de Marco de 2009, às 17:51
Vocês são a minha esperança quando o assunto é jornalismo.
Segunda-Feira, 30 de Marco de 2009, às 11:23
Grande texto.