por Pim - Quinta-Feira, 19 de Marco de 2009, às 17:14
Ouça a gravação lá embaixo, no fim do texto.

Eu digo a todo mundo, inclusive ao próprio Marcelo Adnet, a (quase) verdade maior: que fui eu que o descobri, que ele estava perdido num sinal de trânsito, fazendo teatro de rua, e eu – sempre muito atento ao teatro de rua - lhe ofereci uma oportunidade de mostrar seu talento em troca dum prato de comida.
A oportunidade era gravar o audiobook dos Tribuneiros, lendo nossas crônicas com as nuances vocais esperadas de um grande ator e humorista, como eu – e somente eu – já sabia que ele era, muito antes de sua [dele] consagração como um fenômeno de audiência da MTV, do YouTube, dos palcos e de tudo mais; decerto o melhor imitador de José Wilker, Cid Moreira, Casagrande, Dinho Ouro Preto e outros.
Marcelo Adnet foi meu colega de faculdade. Fizemos algumas matérias juntos, como Comunicação e Teatro (às 7 da manhã), que seria naturalmente insuportável não fosse a leitura de peças clássicas em voz alta. Toda aula começava com uma cena, lida por tantos alunos quantos personagens houvesse. Se só havia um, era Marcelo Adnet. Se havia 4, eram Marcelo Adnet e mais 3. Brecht nunca foi tão divertido.
Fizemos também Cultura brasileira [sic], uma aula ao término da qual o professor sempre pedia um texto, valendo meio ponto extra para o melhor da turma. Eu ganhava todos, claro. A não ser quando, solidariamente, fazia o trabalho em dupla com algum gringo em intercâmbio. Numa dessas, quem ganhou o meio ponto em meu lugar? Marcelo Adnet, o canalha.
(Só me lembro de um desses trabalhos, que era escrever uma crítica sobre um certo livro chamado Cultura brasileira [sic], estudado em sala. Um livro terrível, que, evidentemente, tratei de demolir. Para minha surpresa, o professor me deu o meio ponto, empatado com mais alguém, e passou a me chamar de Felipe, o Demolidor. Era um sujeito de rara sensatez).
Mas minha melhor lembrança de Adnet é de sua aparição numa aula que não fizemos juntos: Técnicas de comunicação oral, em que havia exercícios vocais coletivos (em roda) como gritar “Uáááá! Uéééé! Uíííí!” etc, em preparação para o telejornalismo. Eu explico: desde a escola, quando faltava um apagador na minha sala, eu sempre me oferecia à professora para ir pedir o da turma vizinha - só pelo prazer de sair da sala. (Não raro, para tanto, escondia o apagador).
Muito tímido, porém, eu interrompia a aula alheia com todo cuidado para pedir o apagador emprestado, com aquela sensação estranha de ter 42 cabeças olhando para mim, à porta. Adnet, ao contrário, justo no momento de silêncio geral, empurrava a nossa porta num rompante, abria os braços e gritava: “Uáááááá!”. Depois é que pedia o apagador.
Bastante preocupado com a sanidade mental daquele menino, chamei-o (anos depois, em 2005) para gravar - entre outros textos - Um sóbrio em Salvador, minha famigerada crônica do carnaval de 2004, publicada no livro tribuneiro Contra a juventude [saiba como comprar - aqui]. Ele leu quase de primeira, sem ensaio, com a edição quase em tempo real do mestre Lulu Farah, nos Estúdios Mega. Tudo no improviso, na pressa e na camaradagem de todos, entre um trabalho e outro.
Íamos retocar umas partes depois, mas nosso audiobook – entre tantos projetos megalômanos dos Tribuneiros – acabou engavetado, o que pretendemos rever assim que possível, apesar dos milhões de dólares exigidos agora pela celebridade… Mas, se você pensava que o maior leitor de teleprompter do mundo era Barack Obama (depois da Fátima Bernardes, claro), é porque nunca ouviu Marcelo Adnet. Ei-lo, pois.
Um sóbrio em Salvador
Texto: Felipe Moura Brasil (Pim)
Intérprete: Marcelo Adnet
PS: Outro dia, aliás, o teleprompter de Obama se enganou, e ele acabou lendo o discurso do primeiro ministro irlandês, o que o fez agradecer a si mesmo (Obama agradecendo ao Presidente Obama) pela organização de uma festa, com o nariz empinado, aquele olhar para o horizonte e tudo. Eu não preciso de teleprompter, e quero agradecer aqui, de coração, a Felipe Moura Brasil (o Pim) por trazer Marcelo Adnet aos Tribuneiros.
Pós-escrito de 10 de abril de 2009: Veja abaixo a versão [em 2 partes] para o YouTube!

Quinta-Feira, 19 de Marco de 2009, às 19:05
Só consegui escutar 7m42s, pois travou a geringonça aqui, mas já deu pra rir um bocado…
A primeira vez que ouvi falar do Marcelo Adnet foi lá no Primo Cruzado, do Foca. Desde então, sempre que lembro dou uma passadinha pela MTV. Esse Marcelo Adnet é engraçado por si só. As imitações são sensacionais mesmo.
Agradecida, viu, Pim.
Quinta-Feira, 19 de Marco de 2009, às 19:13
Pim,
Nessa época, as aulas da PUC ainda tinham início nos horários pares, então, Comunicação e Teatro (eu fiz com a Vera) devia começar às 8h. O que quase não suaviza nada, haja vista que só os galos estão realmente acordados a essa hora…
Abraço
Quinta-Feira, 19 de Marco de 2009, às 00:44
Grande Pimzinho!
Adorei a novidade!
Sempre adorei esse texto.
Abração
Quinta-Feira, 19 de Marco de 2009, às 13:57
Um grande alvinegro.
Quinta-Feira, 19 de Marco de 2009, às 15:49
O texto é genial - não à toa eu recebi outro dia por e-mail - e a interpretação do Adnet está à altura.
Justiça seja feita, em 2005, o Adnet já tinha sido descoberto há 2 anos por outros três malucos - Fernando Caruso, Gregório Duvivier e Rafael Queiroga -, que criaram o Zenas Emprovisadas.
Duvivier, inclusive, está lançando um livro de poemas.
Quinta-Feira, 19 de Marco de 2009, às 16:08
Bons poemas, aliás.
Quinta-Feira, 19 de Marco de 2009, às 12:16
Eu confesso que estanhei um pouco a “modernidade” dos versos, C.A. Mas o Gregório é um cara talentoso, assim como o Adnet.
Confesso número 2: não sou fã de audiobooks.
Gosto de imaginar minha própria entonação para o texto, as pausas, respirações, etc. Esse é o legal da leitura.
Mas o trabalho tribuneiro está muito bem feito.
Quinta-Feira, 19 de Marco de 2009, às 16:09
Riqueza de detalhes,
Genialidade do Autor,
Interpretação excelente do Marcelo Adnet,
Texto maravilhoso, Felipe!