por Bruna Demaison - Terca-Feira, 10 de Marco de 2009, às 09:16
Não deu no New York Times, mas no Jornal do Vaticano: a máquina de lavar talvez tenha feito mais pela liberação feminina no século XX do que a pílula anticoncepcional. Mulheres de todo o planeta, essas histéricas, começaram a berrar. Umas clamavam por Simone de Beauvoir, outras ameaçavam incendiar Roma, um terceiro grupo defendia a escova progressiva como a grande invenção, tudo ao mesmo tempo porque mulher, qualquer homem sabe, fala junto com as outras, às vezes são até assuntos diferentes, no final elas jogam os cabelos para trás, morrem de rir e tudo faz sentido – menos para eles.
As que não estavam na TPM conseguiram se acalmar e ouvir (no caso, ler) os argumentos do artigo: senhoras submissas e lamurientas viviam colocando roupa para quarar e parindo até que duas invenções transformaram suas vidas. Ninguém mais vai esfregar roupa! Vamos usar esse tempo para… malhar o tríceps na academia. Sai o monstro do tanque, entra o da gordura do tchauzinho. A pílula trouxe avanços sociais que permitiram a elas ingressar no mercado de trabalho, ganhar seu próprio dinheiro e poder comprar a sua própria máquina de lavar já que com roupa suja ninguém pega ninguém depois de Woodstock. Isso sem falar na dor de cabeça que a revolução sexual causou: elas saem com quem querem, eles pulam de cama em cama e elas têm que fingir que tudo bem, quem se importa, eu sou moderna. Então por que tanto furdunço? No fim das contas tanta invenção cobriu o nariz e descobriu os pés, libertária mesmo é a depilação definitiva e santo será aquele que baratear o tratamento e ainda o fizer indolor.
Na minha pós-anos-60 vida de mulher independente a pílula foi responsável por besteiras muito mais catastróficas do que a Brastemp. O que é um vestido manchado comparado ao desgraçado que disse que eu era especial? (se bem que eu gostava muito daquele vestido…) A casa foi mais vezes inundada pela minha mania de chorar no chuveiro do que pela mangueira da lavadora que volta e meia soltava. A existência de um sabão em pó na mesinha de cabeceira, mesmo potencializado por milhares de caipirinhas, jamais me levaria a pensar que a vida é curta, é só essa noite, esse beijo vai salvar a sua semana! Já aquela cartelinha, quanta inconseqüência vendida como segurança.
A brilhante publicação de “A máquina de lavar e a liberação das mulheres – ponha detergente, feche a tampa e relaxe” revê a trajetória do eletrodoméstico desde um modelo de 1767 até um moderníssimo exemplar que faz capuccino para a proprietária tomar com as amigas enquanto a roupa é batida. Uma reuniãozinha de amigas merece até uma lavagem longa! Imagina, podemos dividir os assuntos pelo tipo de roupa que está sendo limpa: brancas, falamos mal de homens. Escuras, falamos sobre filhos. Coloridas, revelamos truques para emagrecer e o que fazemos com nossos amantes. Com o calor que ainda faz dá até para essa ser a moda do verão.
Eu, que nos últimos dias dei mais atenção ao novo catálogo da Shoe Stock do que ao Jornal do Vaticano, perdi o lançamento dessa Ferrari da limpeza e já tinha comprado aquela outra que lava lingerie sem estragar. Precisei abrir mão da minha máquina antiga velha de guerra pelo fim da calcinha pendurada no chuveiro, era ela ou o meu casamento e não tem feminista que discorde que marido não se encontra em qualquer Ricardo Eletro! Resultado: sou uma mulher com vinte e um comprimidinhos para tomar esse mês e duas lavadoras a caminho. Culpa da minha falta de planejamento. (Amor, não me mata, dividi em três vezes no cartão! Mas precisamos aumentar a área de serviço. Ou colocamos a segunda máquina na capela).


Terca-Feira, 10 de Marco de 2009, às 11:20
Sensacional Bruna!
Parabéns pelo excelente texto!
Terca-Feira, 10 de Marco de 2009, às 08:59
Não gostei da parte do amante. Sou conservador e vc caiu no meu conceito com esse lance.
Mas vc ainda está convidada pra lavar uma roupinha no tanque lá de casa, querida.
Terca-Feira, 10 de Marco de 2009, às 22:43
Muito bom Bruna! Adorei (inclusive a parte do amante…). Mas, convenhamos, conservadores que convidam para ‘lavar uma roupinha no tanque lá de casa’ não deviam nem tentar ‘conceituar’ uma mulher como vc… tadinho!
Terca-Feira, 10 de Marco de 2009, às 15:43
Paula, bom humor é fundamental…e vc, no meu seleto conceito, já perdeu importantes pontos…
Terca-Feira, 10 de Marco de 2009, às 21:53
O Vaticano nunca deixará de ser a Consul… é semre a [ultima escolha quando queremos algo realmente bom!
Adorei o texto Bruna!
Parabéns!