por C.A. - Domingo, 22 de Fevereiro de 2009, às 11:48
Este artigo, uma crítica à maneira como são julgadas as escolas de samba, foi publicado ontem [sábado, 21 de fevereiro], na página Opinião de O Globo.
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Gostaria de aprofundar o inegável e já tradicional preconceito contra a escola de samba que abre o carnaval botando também em questão, no que se refere aos vícios dos julgadores, o contundente desnível – a falta de critérios – na avaliação de quesitos “plásticos” (fantasias e alegorias, por exemplo) e “sambísticos” (bateria, samba-enredo etc.).
As últimas quartas-feiras de cinzas têm sido muito claras: os jurados são notavelmente mais exigentes – duros mesmo – com o aspecto visual dos desfiles, com os efeitos plásticos das agremiações, do que com os elementos essenciais, orgânicos, de uma escola de samba. O motivo parece-me evidente: medo (no que não me estendo); pavor (provavelmente justificado) de se comprometer… Muito mais fácil será penalizar um quesito concebido por um artista “de fora”, um acadêmico, um carnavalesco contratado, desenraizado, que quase nada tem a ver com a comunidade e com a história do pavilhão que ora defende, do que tirar pontos, doídos, de uma bateria, que é a marca – o coração – da escola, o orgulho, o berço, a vaidade, conjunto que envolve afeto, paixão (e ódio), e que é capaz de revolucionar uma escola de samba, deixando-lhe, sob fracasso, longas feridas.
As últimas quartas-feiras de cinzas têm sido claríssimas: a diferença, fabulosa, entre, por exemplo, as baterias de Império Serrano e Beija-Flor, nunca é realmente medida, jamais será representada, em pontos – jamais. Nunca se dará 10 somente para a melhor; nunca se lhe dará o destaque, a exclusividade, a distinção da superioridade – em pontos – que uma bateria faz desfilar e merecer na passarela. E ainda mais grave: nunca se dará um 9,0, um 9,5 para a bateria de uma grande escola de samba que se apresente visivelmente inferior. Nunca. Tudo restará no mais ou menos, nos décimos miúdos, na diluição de valores, nesta mentira que tanto e tão maldosamente se repete por aí: de que não há mais diferenças entre baterias de escola de samba.
Por outro lado, vê-se a glória (desproporcional) dos quesitos “plásticos”, em incontornável privilégio (triunfo) do poder econômico no carnaval: o desfile vertical (o cirque du soleil das passarelas), de trens-alegóricos a cada vez mais elaborados e mais distantes do chão, vai progressivamente valorizado e, curiosamente, talvez até seja julgado com justiça e equilíbrio: 10 pra quem mereça, 9,0 pra quem não alcance… Paciência. É do jogo. Sem favor, porém, devemos esperar que o mesmo nível de exigência apareça em todos os quesitos, sem covardia ou descompromisso, valorizando e reconhecendo o que cada escola tem de melhor e superior.
No dia em que o mesmo rigor de comparação aplicado aos quesitos “plásticos” pesar igualmente sobre os “sambísticos”, então teremos um julgamento ponderado. Quando isso acontecer, sem dúvida, teremos uma alternativa saudável para o carnaval – e uma maneira diferente de se compreender escola de samba será enfim reconhecida e valorizada também do ponto de vista competitivo. Nesse dia, no momento em que os julgadores lerem simplesmente com equilíbrio o conjunto de uma agremiação, as forças estarão realmente (e afinal) em contraste, puro e bem-vindo contraste, cada uma com suas garrafas melhores para vender, sem exagero, sem desproporção, tudo absolutamente como é – e será muito bonito.
Nesta quarta-feira de cinzas, teremos um novo campeão.


Domingo, 22 de Fevereiro de 2009, às 17:54
Que orgulho senti quando acabei de ler seu artigo, ontem, no O Globo. Assunto tão cascudo, mas que você, como sempre, conseguiu imprimir na medida certa emoção e lucidez.
Sei que sou suspeita, mas não tenha dúvidas que eu teria gostado mesmo se não fosse você. Fiquei aos pulos, pensando: é isso!! Gostei demais!
E que a corte engalanada transforme o mar em flor para ver o Império enamorado chegar à morada do amor… Boa sorte!
Domingo, 22 de Fevereiro de 2009, às 13:19
Sensacional, meu amigo!