por Felipe Moura Brasil (Pim) - Sexta-Feira, 20 de Fevereiro de 2009, às 10:11
Apesar dos pedidos, Juveninho não se candidatou à vaga de zelador das Ilhas Hamilton, anunciada como “o melhor emprego do mundo” pelo governo australiano. Nada contra os milhares de brasileiros inscritos, vivendo o sonho de ser zelador, mas essa não é a praia de Juveninho. Se a questão fosse apenas escolher entre conviver com brasileiros ou com peixes, baleias e tartarugas marinhas, Juveninho não titubeava. O problema é o salário: US$ 100 mil por seis meses. Muito alto para a idade de Juveninho.
Não pretende, Juveninho, ficar rico muito cedo. Leu por aí que os jovens ricos viram cornos, e ficou bastante preocupado. Mas tem jogado na mega-sena. Nos mesmos números. Alega que mega-sena é prática, e ganhar é uma questão de tempo. Quando isso acontecer, pretende já estar rico como escritor, e recusar publicamente o prêmio. Seu objetivo, na verdade, é distribuir o dinheiro para todos os brasileiros que sonharam em ser zelador de peixe. É uma política, segundo Juveninho, de premiar quem escolhe bem as companhias.
Na falta de um aquário, Juveninho escolheu as dele: os livros. Os livros e os aparelhos de ginástica. Às vezes, no caminho entre uns e outros, escuta menininhas – literalmente – desgostosas falando mal de academias, do ambiente, dos freqüentadores, do papo fútil. É o suficiente para que cheguem à conclusão de que cuidar do corpo é coisa de gente burra – e não façam exercício algum, em lugar nenhum. Nem um levantamento de anzol, diz Juveninho, que se considera muito inteligente. Ele, então, pergunta o que elas fazem em contrapartida para tornar seu espírito tão elevado, sua alma tão evoluída a ponto de dispensar os cuidados com o corpo. Lêem Platão? Aristóteles? Montaigne? Flaubert? Não. Ouvem Chico Buarque. Para Juveninho, deve estar cheio de titias o show do Chico Buarque…
“O que se instrui” – ele cita Montaigne - “não é uma alma, não é um corpo: é um homem; não se deve separá-lo em dois. E, como diz Platão, não se deve instruir um sem a outra, e sim conduzi-los por igual, como uma parelha de cavalos atrelados ao mesmo timão”. Neste carnaval, os cavalos de Juveninho são barbada. É o que andam dizendo, segundo ele, as morenas lá do Coqueirão. Enquanto os amigos fazem suas apostas, Juveninho - muito cuidadoso - atarraxa mais um pouquinho a carroça. Conjuga A república com o leg press horizontal; os Tópicos com o crucifixo inverso; Os Ensaios com o supino reto; A educação sentimental com a bicicleta. Três séries de livro; três parágrafos de aparelho.
Sabe, Juveninho, que um grande amor não é brincadeira. Quanto mais no ponto você estiver antes de encontrá-lo [o amor ou Juveninho, ele avisa], melhor. Mas, como no futebol, ninguém quer saber disso. Depois de uma pelada, os perdedores discutem, brigam, falam de marcação, esquemas táticos, garra e outras bobagens circunstanciais. Nunca de seus próprios preparos físicos, talentos individuais ou rotinas de treinamento. O maior aprendizado futebolístico de Juveninho foi este: o sincero desejo dos outros de não entender nada – a começar por si mesmos - para evitar novos esforços solitários. Por isso o governo australiano é burro, ele diz. Se abrisse vaga para tartaruga marinha, o sucesso seria muito maior.
É de opinião, Juveninho, que quem espera o amor para descobrir como mantê-lo, ou a desgraça para saber como evitá-la, na hora só consegue evitar o amor e manter a desgraça. Em outras palavras – as de Juveninho -, o melhor emprego do mundo é zelar pelos seus cavalos. Dia e noite, ele tem feito isso. As Ilhas Hamilton são questão de tempo. Agora, Juveninho está de corpo e alma no carnaval. Dizem que Aristóteles baixou no Coqueirão. Que as morenas não largam os Tópicos. Que as desgostosas estão correndo na areia. Que até as titias vêm ver sua carroça passar, cantando coisas de amor. A vaga está aberta, ele pensa. Quem não corre atrás fica pra trás. Na filosofia de Juveninho: quem ama faz spinning.


Sexta-Feira, 20 de Fevereiro de 2009, às 11:06
Tanta citação para quê?
A gente já sabe que o autor é culto.
Todo texto tem mais citação de livros e autores do que propriamente de pensamentos do próprio F.M.B.
Sexta-Feira, 20 de Fevereiro de 2009, às 18:17
Pim, meu querido, nada melhor que um Juveninho pra abrir o Carnaval. E continua interessado em livros, que alegria!
Mas, por favor, avisa pro Juveninho que nos shows do Chico tem muita gatinha gritando lindo! lindo!
Secchin, eu adoro as citações do Pim, não implica, não!
Sexta-Feira, 20 de Fevereiro de 2009, às 14:36
Conselho, que eu não me canso de dar intrometidamente: dependendo da intenção do autor, as citações são boas, mas quando muitas, perdem seu peso. Só demonstram a cultura do personagem mas não incitam, nos leitores, a vontade de lerem os mesmos ídolos de Juveninho. Se leitores do Pim não tiverem familiaridade com esses autores, acabam se perdendo em meio a tantos nomes. Se forem sendo citados poucos nomes, porém com mais frequência durante toda a história “juvenal”, vão, sem perceber, deixando no leitor uma vontade louca de ver porque o Juveninho gosta tanto daquele autor específico. Pense nisso!
Agora um elogio. Que frase linda a do personagem:
“Quem espera o amor para descobrir como mantê-lo, ou a desgraça para saber como evitá-la, na hora só consegue evitar o amor e manter a desgraça.” Perfeito!
Bjs,
Mari