por João Paulo Duarte - Quinta-Feira, 19 de Fevereiro de 2009, às 16:17
Ao meu querido amigo Luiz Hime, na certeza que sentirei para sempre saudade.
“Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse. (…)
(…) A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.”
(Pneumotórax – Manuel Bandeira)
O motivo do meu choro foi ter me sentido amado. Não achei que ela tivesse me esquecido. É claro que não. Mas ela se preocupar e dizer que me ama, mesmo que pelo telefone, num recado dado à minha mãe, me emocionou no leito. Ela está pensando em mim – disse que sim – e eu me retomo mesmo que entre tubos e o dreno no meu peito. Voltei a ser o mesmo de antes.
[“The one you fell for
Makes it seem juvenile
And you’ll laugh at yourself
Again and again
And we’ll drink to the thought
She’ll remember you,
Maybe tomorrow”]
(”Standing next to me” – Last Shadow Puppets)
Não me sinto bom pra ninguém, nem para mim mesmo. Mais uma vez hospitalizado, percebo-me auto-destrutivo, ignorante dos meus erros, mas amo. E ela sabe disso, eu a amo.
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[É, pra mim, muito difícil escrever. Sempre.]
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Agora, sozinho, não choro mais. Meus únicos companheiros são este caderno, meu livro russo que espero reler e toda a parafernália que me cerca, incluindo a televisão que prefiro manter desligada. Não me incomodam os bipes das máquinas de monitoração, nem a quantidade infindável de enfermeiros, médicos, nutricionistas que me visitam. Pedi que ninguém que goste de mim venha me visitar aqui. Ninguém virá. Espero sair o quanto antes para me desfazer do incômodo, do constrangimento que agora passo e que já começo a me acostumar.
Daqui do meu cubículo não vejo meus companheiros de UTI. E vi alguns enquanto chegava. Todos quase mortos. Há pouco, o que está no leito ao lado se debatia, gritava. Ouvi daqui. Ainda não tomei meu remédio para dormir.
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Eu estou bem, desde que cheguei ao hospital estou bem, apesar do tubo cravado no meu peito para drenar o ar do meu tórax. E apesar da paciência que tenho que ter com todos que me explicam porque não posso voltar a fumar. Eu queria fumar agora. E pretendo fumar assim que sair daqui. (…) Claro que quem é contra a fumaça do meu cigarro é um idiota influenciado pela propaganda anti-tabagista, mas, mesmo assim – sabendo da ignorância de quem não sabe que é comandado –, me irrito. Desprezo qualquer campanha que se respalda no medo que as pessoas têm de morrer. Estou aqui – recuperando meu pulmão direito – não por causa do cigarro, mas por ser alto. E nunca vi ninguém no mundo que preferisse ser baixo. Deveria fazer campanha contra os altos – a altura aumenta a probabilidade do pneumotórax espontâneo.
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Tenho, neste momento, um grande amigo doente, morrendo. Eu estou bem, mas penso muito nele aqui. Queria poder sair, encontrá-lo, e vê-lo recuperar-se. Conversar novamente sem o peso da doença, quero a conversa solta, despretensiosa. Amigo de conversas inesquecíveis.
Quero voltar à mulher que me ama, aos meus amigos, ao bar – ao uísque e ao charuto –, ao trabalho, ao Leblon o quanto antes. Vou convencer qualquer médico da minha alta.
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Raramente visito alguém num hospital. Sou péssimo visitante e quero ficar sozinho aqui.
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A colocação do dreno tem algo de interessante. Estive acordado o tempo todo e conversei com o médico (tentei manter o mínimo de bom-humor). Minha moléstia é a compressão do pulmão, o dreno retira o ar da caixa torácica e o pulmão voltou ao tamanho normal. É o único momento de dor. O médico diz que é a dor do nascimento, quando os pulmões começam a funcionar.
Não me orgulho, mas nada como a sensação da primeira vez, novamente.
Pós-escrito às Anatoções de UTI:
Fumei e bebi muito com a companhia de meu querido amigo Luiz Hime. Não vi ninguém ser tão elegante, poucas vezes aprendi tanto com um amigo. Ele sempre se vestiu de blazer (caso fosse um dia sem trabalho escolhia algum xadrez), camisa e calça elegantes. Às vezes, um sapato mocassim sem meia. Mas a elegância dele era nas palavras, no indefectível tom de voz comedido e seguro, na postura – física e corporal – sempre perfeita, mesmo depois de litros de uísque. Era um apaixonado pelas mulheres e as tratava com veneração – todas e sempre. Todas que sentaram-se à nossa mesa nesses anos de amizade foram rainhas, cortejadas pelo meu amigo. Aprendi, mas nunca me igualarei, não sou capaz. Na despedida, ouvi uma das frases mais tristes da minha vida: “João, nunca mais veremos o nosso amigo, inacreditável”. Nunca mais sentarei naquela mesa (a mesma, no bar de sempre) e deixarei de pensar nele. Amigo inesquecível.


Quinta-Feira, 19 de Fevereiro de 2009, às 17:25
Ai, João Paulo, nossa!, fiquei com uma sensação de quarta-feira de cinzas.
Espero que já esteja tudo bem. Lindo e triste, tudo.
Quinta-Feira, 19 de Fevereiro de 2009, às 18:49
Caro João
Não sei quem você é e tampouco você me conhece.
Mas trabalhei 12 anos na Cotia Trading, em SP, empresa de comércio exterior, com Luiz Hime.
Ele se hospedava em um flat em SP e voltava à sua querida cidade nos finais de semana.
Foi um professor, batalhador, guerreiro no trabalho e na vida, e como você eu o achava extremamente culto e delicado, qualidade tão rara em um homem.
Sensível às mulheres, garra inesgotável para o trabalho, amante do Rio, se encantava com minha paixão pela cidade e sinergia total com os cariocas.
Falei com ele ao telefone alguns meses atrás, já estava debilitado pela doença e muito nostálgico, mas ainda com força para trabalhar em casa.
Reanimei-o como pude e fiquei muito triste com a notícia de seu falecimento.
Agradeço informar detalhes da missa, pois muitas, muitas pessoas estão me indagando em SP os detalhes, visto que fui uma das pessoas mais próximas dele no trabalho. Muitos gostariam de homenageá-lo enviando flores, telegrama, mas não temos informações precisas.
Se puder ajudar….
E como gosta de literatura:
“Não procure entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”
Clarice Lispector
Maria Cecilia Pereira
Quinta-Feira, 19 de Fevereiro de 2009, às 20:54
Vc deveria parar de fumar.
Quinta-Feira, 19 de Fevereiro de 2009, às 21:03
Bem, tenho que dizer que estou encantada pelo site.
Que pesquisei sobre você, que é jornalista, filho da PUC (como eu, mas de SP) e que escreve muito bem.
Você mencionou um texto lindo sobre Luiz Hime e gostaria de falar a respeito sobre ele, pois há 2 dias tenho pensado em sua partida.
Com ele, tive o prazer de conhecer Tom Jobim em um dos seus últimos shows em SP e na vida.
Mostrei um pouco de SP a este carioca e aprendi muito no trabalho.
Fica a sensação que quem tinha que partir ficou, e quem poderia ter permanecido mais se foi.
Quinta-Feira, 19 de Fevereiro de 2009, às 01:32
Maria Cecilia,
Meu e-mail é duartedecastro.jp@gmail.com
Por favor, entre em contato e darei as informações que você precisa.
Muito obrigado pelos elogios e pelas mensagens de carinho.
Quinta-Feira, 19 de Fevereiro de 2009, às 10:39
Olga, querida, muito obrigado pelo comentário.
Estou muito bem, pronto para o Carnaval.
Beijos!
Quinta-Feira, 19 de Fevereiro de 2009, às 13:04
Sou leitor desse site há muito tempo e “comentarista” há muito pouco. Li uma vez o autor em questão dizer que a dificuldade de ter amigos mais velhos é vê-los indo embora. Acho que o texto trata disso.
Quinta-Feira, 19 de Fevereiro de 2009, às 18:00
João Paulo, querido, fico muito feliz em saber que estás bem.
Vou torcer para que, junto com o Império, a tua Portela (escola pela qual também tenho muito carinho) faça um desfile tipo 1995, saca?, pra compensar um pouco os maus dias, tá?
Quinta-Feira, 19 de Fevereiro de 2009, às 10:56
Olga, tomara que a Portela melhore mesmo.
Mas em 2005 sofri pacas. Estava já saindo de casa, rumo a Ramos quando perdemos por aquele 0,5.
Bem, este ano estarei novamente sob a Coroa Imperial, com muito orgulho.
Excelente carnaval pra você!!!
Quinta-Feira, 19 de Fevereiro de 2009, às 16:43
J.P. que triste… Está tudo bem com você agora né? domingo achei que sim :)
Tenho que concordar com o Pian nisto, pare de fumar, use isto tudo para parar, eu tomei esta decisão, é muito difícil, mas todo mundo se quiser consegue..
Quinta-Feira, 19 de Fevereiro de 2009, às 16:01
Nossa que texto difícil de se pensar… A primeira impressão que me veio é “preciso parar de fumar”… depois vieram as divagações… não sobre mim… mas sobre o texto e tantas pessoas que vivem como querem… Se estas tivessem se preocupado mais com a própria sáude talvez poderiamos ter mais um tempo de convivência com elas… Mas será que seriam as mesmas que foram sem seus vícios e hábitos? Melhores, piores… diferentes. Não há como prever, difícil julgar. O nosso “querer mais elas” pode ser um egoismo para quem tão intensamente se entregou a vida e a si mesmo como escolheu viver.
Que fiquem as boas recordações!