por Felipe Moura Brasil (Pim) - Sabado, 14 de Fevereiro de 2009, às 01:39
Qual é a relação entre jogadores de futebol [ou artistas] deslumbrados com a fama e jovens engenheiros [ou médicos] deslumbrados com a riqueza precoce? Não sabe? O Pim-sicólogo explica. Ambos sofrem delírios de onipotência, mas com uma diferença sutil. Os jogadores de futebol acham que podem ter [ou fazer] tudo que quiserem. Os jovens engenheiros acham que sabem tudo que importa. Os primeiros acabam presos. Os segundos acabam cornos.
Eu já recomendei terapia a uma porção de jovens deslumbrados [ou acomodados]. Uns seguiram meu conselho. Nos outros, o chifre começa a nascer. É simples assim. A completa aversão a qualquer esforço que não resulte em dinheiro vivo vai se traduzir, mais cedo ou mais tarde, na cama. Na cama alheia. O chifre é o efeito mais óbvio e emblemático da ignorância voluntária. Quem não quer expandir sua consciência e ignora solenemente o que se passa ao seu redor, melhor ir furando o boné.
Mas se já é difícil para o cabeça-dura comum acreditar nisso, imagine para o jovem que enriqueceu sozinho e arrumou até namorada. Entender os fatores determinantes de sua biografia, identificar as causas (familiares, culturais, históricas, políticas etc) que o afetam independentemente do seu desejo e da aparência geral de normalidade, analisar as conseqüências de seus atos e omissões, tornar-se enfim um indivíduo responsável, é tudo muito chato. O autoconhecimento é mau. Ele mostra que existe um vasto mundo para lá do seu umbigo de bolinha. Natural que a maioria prefira permanecer no conto de fadas. Neste caso, mais no conto que nas fadas.
Para o vaidoso supremo, ávido de poder (afinal, ninguém estaria à sua altura individualmente), não há presas mais fáceis. Nunca conheci um só grupo de tais personagens (de início, meros cabeças-duras; depois, idiotas ou criminosos) que não tivesse, por trás, um líder mais esperto e carismático. Da patota escolar ao MST, da comissão de trote ao PT, da galera da praia à ONU, sempre há um parasita ou psicopata pronto para trucidar a comidinha – ou a guarnição - trazida pelos súditos alienados. O grau de sua intervenção só dependerá da qualidade das oferendas.
Na esfera política, a submissão ao líder se nota pelo silêncio dos bodes expiatórios levados à execração pública para manter sua [dele] imunidade. Num grupinho de jovens bocós, a submissão ao líder se nota pela liberdade que este desfruta de gracejar no pé do ouvido de suas [deles] namoradinhas – por tanto tempo quanto mais interessantes elas lhe forem -, sem o menor constrangimento de ninguém. Alguns consideram mesmo um favor. Torcem para que ele dê conta do recado, aliviando-os da árdua obrigação carnal em meio a tamanhas ambições financeiras: “Fico te devendo essa, parceiro!”.
Em nossa cultura invertida [sujinha], onde o voto é um “dever” e a educação é um “direito” - do qual quem quer abre mão -, amar quem lhe faz servo e odiar quem lhe aponta o caminho para a independência são apenas o padrão oficial de comportamento. A quem se educa e se analisa o suficiente para assistir a si e à gentama de fora, a opção [alheia] de não entender nada tem, ao menos, este efeito cômico: produz uma imensa legião de cornos voluntários.


Sabado, 14 de Fevereiro de 2009, às 10:54
Perfeito, Pim. Dessa vez concordo em gênero, número e grau. É por isso que tento controlar minha irritação com pessoas que acham que eu, só por ser analisada, ter orgulho disso e não ter vergonha/medo de assumir e escarafunchar (existe essa palavra?) meus defeitos e traumas psicológicos acham que eu sou triste e coitada por causa disso. Como são ignorantes! Por isso que escrevi o meu “Coitadinha é a mãe”, “O poeta não é triste” dentre outros textos elucidativos e irritados, publicados no jornalDuGaio e no meu blog.
Quem vive na superfície um dia pode sofrer gravemente ao ver uma gotinha d’água cair e fazer transbordar todo o seu mar de mistérios afundados na lama e escondidos no fundo do oceano.
Entra lá na comunidade do meu livro: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?rl=cpp&cmm=82610701
Não é para quem mora e gosta da Barra. Minha história é de alguém que não gosta e critica relatando com humor ácido coisas que efetivamente aconteceram… E muitas dessas histórias acontecem justamente por causa dos tantos emergentes barrenses que acham que tem que discriminar pessoas (na maioria pessoas muito melhores que eles, diga-se de passagem) para não manchar sua imagem. Sim, porque é só isso que eles têm: imagem. Por dentro tá cheio de coisa podre, que merecia uma terapia urgente para se transformar em coisa fresca, palatável…
Bjs,
Mariana
Sabado, 14 de Fevereiro de 2009, às 12:38
Eu já fiz mais de dez anos de terapia e acho que posso falar com certo conhecimento de causa: acho algo extremamente válido, mas não acho que seja uma necessidade premente de todo ser humano. Até porque a ciência psicanalítica tem um quê de empirismo.