por C.A. - Quinta-Feira, 5 de Fevereiro de 2009, às 10:05

Os leitores nos têm pedido e eu, urgente, logo me avio em saciá-los, daí porque - com gosto - recomende [sem maiores conjecturas literárias, que me fastiam] o romance Diário de escola, do francês Daniel Pennac, excelente, a despeito da edição descuidada da Rocco. (Com o catálogo que possui, a editora poderia ao menos se esmerar no papel em que imprime os livros).
Abaixo, um trecho:
“(…) Então, eu era um mau aluno. A cada final de tarde de minha infância, eu voltava para casa perseguido pela escola. Meus boletins contavam a reprovação dos meus mestres. Quando não era o último da turma, era o penúltimo. (Champanhe)! Fechado primeiro para a aritmética e logo em seguida para a matemática, profundamente disortográfico, resistente à memorização de datas e à localização dos lugares geográficos, inapto para a aprendizagem de línguas estrangeiras, com reputação de preguiçoso (lições não aprendidas, trabalho não feito), eu levava para casa resultados lamentáveis que não eram compensados com a música nem com o esporte. Aliás, com nenhuma atividade paraescolar.
- Você entende? Será ao menos que você entende o que eu estou explicando?
Eu não entendia. Esta inaptidão para entender remontava a tão longe, na minha infância, que a família tinha imaginado uma lenda para datar as origens: meu aprendizado do alfabeto. Sempre ouvi dizer que fora preciso um ano inteiro para eu reter a letra a. A letra a, em um ano. O deserto de minha ignorância começava a partir do instransponível b.
- Nada de pânico, dentro de vinte e seis anos ele vai dominar perfeitamente o seu alfabeto.
Assim ironizava meu pai, para distrair seus próprios temores. (…)”
Também de Pennac eu lera, faz tempo, um romance pequeno e delicioso, que, tenho quase certeza, a mesma Rocco publicou no Brasil sob o título Como um romance. A quem interessar, vale a busca.


Quinta-Feira, 5 de Fevereiro de 2009, às 15:34
Andreazza, li uma ótima entrevista, ano passado, no Prosa e Verso, do escritor. Já tava na minha listinha pra comprar.
Fiquei bastante impressionada com a entrevista, principalmente com a solidão e a angústia do escritor, na infância. Como os adultos erram, quando não conseguem lidar com as dificuldades e diferenças das crianças. Muito doído o trecho citado.
Quinta-Feira, 5 de Fevereiro de 2009, às 15:37
O livro é muito bom, Olga. Doído, sim, mas bem-humorado - e excepcionalmente bem escrito. Vale o quanto pesa.
Quinta-Feira, 5 de Fevereiro de 2009, às 21:25
Obrigada pela dica C.A! Disse que ia nos dar as dicas e deu mesmo. Acabou de entrar na minha lista de compras inteligentes.