por Felipe Moura Brasil (Pim) - Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2009, às 17:10
Estou com saudades da “juventude“. Não da minha, que tratei de chutar longe, mas da alheia. Nada como chutá-la mais um pouco.
Entra ano, sai ano, e a geração megaevento continua histérica. Agora tem “rádios”, i-pods e blackberries para fazer da vida um megaevento ambulante. Meus contemporâneos se desprezam tanto que não admitem um só minuto em companhia de si mesmos. Qualquer ambiente que os condene a isso é chato. Qualquer um que os retire – ou se retire - do amparo coletivo é inoportuno. Não fazem idéia do que fazer [ou falar] se não estiverem no meio da turminha. Namorar, naturalmente, deixa-os aterrorizados. O que fazer com um grande amor?
O lazer supremo dos histéricos são os centros de histeria coletiva: boates, micaretas, barzinhos, diretórios acadêmicos e afins. Mas sua (deles) atração pelas boates se deve, sobretudo, ao fator surpresa, ao acaso, à possibilidade de “se dar bem”, sem esforço prévio, sem conhecimento profundo sobre coisa alguma. Amputado este fator, as boates se tornam ridículas [e perigosas] até mesmo para os olhos mal treinados dos histéricos. E, amputadas as boates, seu lazer está morto. Restam apenas ele, o trabalho, o (auto)conhecimento, a experiência espiritual e criativa. Tudo que os histéricos mais detestam. Tudo de que fogem a todo custo, apertando o primeiro botão de eject mental.
Sua individualidade se reduz ao corpo. Eles negam o espírito de tal forma que só reagem a estímulos físicos [ou financeiros]. No ensaio Sobre a tagarelice, as primeiras frases de Plutarco são: “É delicado para a filosofia empreender a cura da tagarelice. Pois seu remédio, a palavra, é feito para aqueles que ouvem, e os tagarelas não ouvem ninguém, já que estão sempre falando. Eis o primeiro mal contido na incapacidade de se calar: a incapacidade de ouvir”. Mas seria elogio aos moços do meu tempo chamá-los de tagarelas. Sua tagarelice - difusa - percorre os cinco sentidos. Tato, paladar, olfato, visão e audição querem tagarelar juntos. Por isso precisam do aperto, da bebida, do fumo, da opulência e do barulho para se sentirem vivos.
É um Moulin Rouge diário que só pode resultar em alienação psicótica e criancices agudas. Eu já falei [aqui] do quanto a submissão à ciência e à tecnologia reduziu o campo da experiência humana às dimensões palpáveis, amputando da realidade o infinito, o abstrato, e das decisões práticas os valores perenes. Também escrevi [aqui] sobre a falta de responsabilidade moral dos que ignoram a relação entre prazer e sacrifício, direitos e deveres. Se um desses assumir um compromisso com você para daqui a algumas horas – que dirão meses ou anos -, melhor você se informar se ele foi ao banheiro neste meio-tempo, porque é lá que ele vai se desfazer da palavra dada, juntinho com o almoço do dia, numa deliciosa sopa de letrinhas sanitária.
Quem não abre outro canal interativo com a realidade senão o das sensações físicas imediatas está literalmente andando e cagando (para) o que fez ou deixou de fazer. Daí a atropelar a individualidade dos outros ou tentar extingui-la por puro recalque é só o passo rotineiro, notadamente de materialistas e “reis da night”. A incapacidade de abstração – de pensar além de objetos ou números diante do nariz – os impede de identificar os nexos de causa e efeito. Então eles amam quem lhes faz mal, detestam quem lhes faz bem, lutam contra quem lhes quer ajudar, recusam orientação, e vão sofrendo em segredo, limitando horizontes afetivos e profissionais [estes, não na imprensa brasileira, claro, onde tal perfil é requisito básico], sob a aparência da mais falsa normalidade, da mais fugaz euforia, sem ter a menor idéia do tamanho da perda [do tombo], tanto mais incontornável quanto mais tardia sua inevitável explosão.
[Isto nos casos menos graves, reitero, quando não se tornam militantes da própria estupidez. Vulgo: revolucionários.]
Como bons histéricos, deslumbraram-se com o auto-engano e o fingimento a ponto de tomá-los como verdade absoluta. Não concedem nem o benefício da dúvida a quem ameace suas convicções mais bocós [antes preferindo quem os conforte na mesmice anestésica]; jamais vão averiguar fatos [muito menos marcar consultas] que podem fazê-los mudar de comportamento; imunizam-se a qualquer aprendizado fora de sua atividade específica - e ainda dizem que o cabeça-dura [preconceituoso] é você. Se isto fosse privilégio brasileiro, talvez eu nem estivesse escrevendo a respeito. Mas aqui é apenas um dos lugares onde a histeria globalizada encontra terreno mais fértil, a propaganda totalitária [sujinha] presas mais fáceis, e onde basta produzir uma sensação de esperança, com discursos e ambientes hipnóticos [obâmicos], para controlar elites e massas, extirpando-lhes na raiz os caminhos para a independência pessoal - e suas liberdades de escolha.
Não dominando, ao contrário dos histéricos ativistas, o manejo de bordões como “direitista”, “fascista” e “reacionário”, os histéricos comuns, quando expostos em sua completa patetice, recorrem somente ao relativismo [criminoso] propagado pelos primeiros (aquela coisa do “Se eu sou feliz assim, me deixa!” - me deixa matar, roubar, eleger Lulas etc), com toda sua dose de desprezo pela realidade, pelo conhecimento e pela hierarquia de valores, e cujo latido tradicional é: “Ah, seu arrogante, então você se acha melhor do que a gente?”. Donde convém esclarecer que – não sei no seu caso, leitor, mas no meu - não se trata de crença nem opinião.
Eu sou melhor.
*******
* Leia também a crônica: Terapia já - aqui.
Errata: Em minha última crônica, Chamem a Luciana Gimenez, comentando a entrevista de Bill O’Reilly com B. Hussein Obama, eu tinha publicado esta frase: “O diabo é assim: despreza quem o cultua, e rende-se admirado ao amante da verdade.” E mais nada. Isto porque, ao colar o link para a entrevista, apaguei o seguinte trecho (que só coloquei lá noutro dia): “Obama, não. Não se rende nem ante a verdade.” Ou seja: parecia que eu estava chamando Obama de diabo, coisa que eu - em sã consciência - jamais faria. O diabo, afinal, tem senso de humor…


Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2009, às 18:03
Pim,
Vc vai ser um pai chato pra caralho…
Vc é o Içami Tiba queimado de praia.
Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2009, às 18:04
Mas o texto está legal.
Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2009, às 18:48
“Meus contemporâneos se desprezam tanto que não admitem um só minuto em companhia de si mesmos.” Essa frase é genial.
Curioso é que deve ser um problema de geração mesmo, porque meus contemporâneos (notadamente os que andam de metrô) “perdem” mais tempo em seus próprios pensamentos ou com livros.
Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2009, às 18:51
Só para situar, eu tenho 35 anos.
Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2009, às 21:02
Adorei Pim! Parabéns mais uma vez! E mais uma vez eu concordo com vc em gênero, nº e grau.
Assim como o Secchin também achei esta frase sensacional: “Meus contemporâneos se desprezam tanto que não admitem um só minuto em companhia de si mesmos.”
Não é que é verdade! Quando comento com algumas pessoas que passo horas sozinha em alguns lugares, tendo somente (e não sempre) a companhia dos meus grandissíssimos amigos “livros”, as pessoas ficam chocadas e me perguntam como eu consigo fazer tantas coisas sozinha, sem ter com quem conversar. Respondo que me ausentar do coletivo é necessário pra mim e todos ficam boquiabertos com tal necessidade.
É Secchin, se for mesmo um problema de geração, acho que eu pertenço a geração errada!
Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2009, às 23:55
Pim,
Adoro estar na sua companhia quando estou na companhia de mim mesma.
Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2009, às 11:13
Pim, com todo o respeito, embora concorde com muitos pontos, acho que você também anda um pouco histérico.
Sou de outra geração, e não chego a me desprezar, mas “quando encontro comigo mesma, finjo que não conheço”.
Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2009, às 17:27
A despeito de algumas críticas, acho que tem algo muito bacana nesse texto. O autor, desde que leio o site, sempre me pareceu racional demais, com raciocínios concretos sobre o mundo. Nesse texto, surgiu uma faceta filosófica, espiritualista, sei lá. Achei interessante.
Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2009, às 20:51
Quero muito a blusa, como comprá-la?
Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2009, às 04:17
Mais uma vez, brilhante, Pim. Concordo com tudo, mas tenho que deixar claro que você também está sendo um pouco histérico, no sentido do descontrole psiconeurótico ao qual a palavra “histeria” se refere. Generalizar assim é perigoso. Mas “ler o Pim” é perigoso, é um caminho sem volta, há de se dizer! O perigo mora no julgamento precipitado das aparências. Apesar de eu ser de uma geração anterior a sua, já fui aborrescente e mais jovem. Nunca fui de mega-eventos, mas sempre fui de festas, boates etc. O que nunca me impediu de ser também filosófica e contemplativa até demais, quando os amiguinhos de balada não estavam vendo. E é aí que está o X da questão. Quantos são realmente histéricos o tempo todo e quantos apenas compartilham sua histéria em público e guardam pra si momentos de lucidez? Te garanto que muita gente que me conhecia superficialmente naquela época, provavelmente me julgava como você julga esses jovens aí do texto. Tanto que hoje, com meus blogs e livros, muitos conhecidos de longa data se assustam com minhas palavras e chegam ao displante de dizer que se assustam com minha maturidade. Eu não mudei, ora bolas! Só não mostrava esse meu lado em público, digamos assim. Quer dizer, os colegas, porque amigos de verdade me conhecem a fundo desde os primórdios. Enfim, a sensação física de dançar pra mim é celestial, quase orgástica. (Não num mega-evento, mas em algum lugar escurinho com música boa. Nesses mega-eventos não tem música, tem bate-estaca. E hino de micareta pra mim também não é música e sim uma batucada e gritaria que não se dança, se pula. Eu não sou macaca pra ficar pulando!) Enfim, dançar é maravilhoso, mas o fato de eu amar uma boate não me faz amar menos as minhas madrugadas de leitura, escrita, ou apenas reflexão. Me esquecer da vida enquanto eu danço não me faz ter escolhas impensadas na vida nem ser incapaz de abstrair. Por isso, cuidado. Nem sempre esses jovens são tão idiotas quanto parecem… Alguns são, mas nem todos!
Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2009, às 11:01
Ô, Pim, lembre-se do texto das jabuticabas! “O outro existe”. Os histéricos são um grupo muito menor do que se pensa, não representam uma geração inteira (assim espero). E mesmo eles têm sua contribuição a dar.
Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2009, às 11:58
Ivan, bem lembrado, o grande texto “O outro existe”. Ô tempo bom…
Se pensarmos que para cada grupo de “histéricos” dessa geração, há um Pim, um Andreazza, um Foca, um João Paulo, mais o sucesso do site entre os jovens, não podemos ter esperanças nessa geração?
Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2009, às 12:08
Ops, inclui a Bruna aí na lista dos grandes da geração, por favor!
Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2009, às 19:22
Verdade pessoas!!! Essa geração tem um ou outro que vale sim e que não entra no grupo dos histéricos. Lógico, que é um entre 200 (e acho que não estou exagerando).
A convivência com os histéricos e complexa e as vezes, impraticável, mas vamos lá, pensar que para toda regra existe uma excessão é animador!!
Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2009, às 22:17
Gente,
Perdoem a ignorância, mas cadê o texto das jabuticabas, o tal o “o outro existe”? Fiquei curiosíssima pra ler! Onde??
Obrigada desde já a quem eu não sei, pela resposta!
Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2009, às 09:36
Mariana, já fiz essa pergunta há um tempo atrás e o estagiário dos Tribuneiros respondeu que esse texto foi tirado do ar e agora está disponível apenas no livro Contra a juventude. É uma pena e um motivo a mais para se comprar o livro.
Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2009, às 11:17
Prezado Ivan,
Assim você me tira o emprego…
Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2009, às 14:18
Prezado estagiário,
Já está na hora de você ser promovido a trainee.
Sexta-Feira, 30 de Janeiro de 2009, às 23:19
quem lê pensa que você tem 85 anos….