por João Paulo Duarte - Quarta-Feira, 7 de Janeiro de 2009, às 13:17
Sem berros, as cores variam dentro do quarto, em sombras e nuances próprias. Ela, nua, penteia-se na beirada da cama do hotel; de costas pra mim, virada para janela que dá vista dos fundos de outros dois prédios em Goya, na Calle O’Donnel. O sol da manhã em Madri consegue esgueirar-se até atingir o rosto dela, e modificar os detalhes de cor, no rastro quente, da colcha laranja emaranhada até o travesseiro branco – e um pouco da cabeceira de madeira [o marrom ficou mais claro, brilha em reflexo da luz]. A sombra dela também modifica a cor na cama toda desfeita, com lençóis brancos que tocam o chão e do pequeno monte do edredom. As paredes do quarto são coloridas de amarelo bem claro. O abajur, que está sobre uma pequena escrivaninha vazia, mesmo de dia, está ligado e ilumina o braço da poltrona vermelha. Uma das paredes, a da entrada do quarto, faz-me moldura enquanto, imóvel, eu vejo a minha mulher. Perto de mim, as nossas malas abertas e a sapatilha vermelha dela. Na mesinha, ao lado da cabeceira, no canto oposto a mim, vejo meu caderno de anotações, meu isqueiro prata sobre meu maço de cigarros vermelho e branco, algumas moedas e, mais ao fundo, meu copo ainda com um pouco de uísque encostado num cinzeiro coalhado. Este lado do quarto tem menos luz, é o meu lado.
A imagem dela resulta na minha fleuma. Não quero nem suspirar, nem me mover para pegar mais um cigarro. Amanheceu em Madri; amanheci mais um dia para 16 horas de sol ao lado dela.
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Rodávamos o museu há mais de duas horas e preparávamos-nos para sair e continuar nosso passeio pela cidade. Achávamos que não havia mais nada para ver lá dentro, mas insisti que não havíamos passado por uma ala no térreo. Ela confiou e fizemos a curva. Enquanto olhava o quadro imediatamente à minha esquerda, acho que era algo russo do início do século passado, juro que não me lembro, logo em seguida ela suspirou, colocando a mão no colo, e me chamou para ver.
Sentei-me no banco em frente e vi. Que coisa mais linda é esta mulher eufórica pela beleza do quadro. Ela olhava para o quadro, depois para mim, para mostrar felicidade e talvez reparar na minha reação. Eu estava perplexo, apaixonado, idiota de admiração, feliz por ter sugerido a curva e de ter o privilégio de viver esse momento. Ela alternou o olhar entre mim e o quadro mais algumas vezes. Eu sorri infantilmente, não consigo também parar de reparar em todos os detalhes da beleza, do sorriso, do corpo quase trêmulo de satisfação e de eu ser o único homem que tenha parado, reparado e vivido isso. Posso me gabar; por mais que ela tenha outros tantos homens na vida – queria ser eu o derradeiro – eu é que a vi contemplando algo tão importante. Foi comigo que ela procurou compactuar deslumbre. Não pensei em contar as dezenas de minutos – muitos! – que fiquei naquele banco. Nunca fiquei tão enlevado frente a um quadro, nunca tinha amado tanto uma mulher.


Quarta-Feira, 7 de Janeiro de 2009, às 13:18
Bonito, Jota.
Quarta-Feira, 7 de Janeiro de 2009, às 03:16
Opa! 2009 está começando bem por aqui. Altas doses de romantismo…
Parabéns, autores.
Quarta-Feira, 7 de Janeiro de 2009, às 12:23
Obrigado, Mariana!