por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 10 de Dezembro de 2008, às 02:17
Juveninho passou o ano inteiro sumido. Sumiu como quem se recolhe para um grande projeto – lento e laborioso -, um passo fundamental em sua formação de escritor. Seu objetivo era investir em si mesmo para reaparecer maior, melhor, mais contundente, irresistível, de preferência no verão. Como Montaigne, Juveninho queria se refugiar no alto da torre e descer apenas quando tivesse à mão uma obra imorredoura e, aos pés, as mesmas havaianas. Cansou-se da afobação brasileira, da aversão à qualificação profissional, da ignorância (ou má fé) metodológica que sempre resulta em análises ideológicas, destrambelhadas ou inócuas. Pensava, Juveninho, que era preciso ir até o alto da torre para estudar as raízes dos problemas. E ele foi.
Durante meses, Juveninho só pensou em trabalho. Na praia (mas não no Coqueirão), no samba (mas não na Mangueira), na noite (mas não no Bailinho), na academia (mas não na Estação) não pensava noutra cousa senão numa obra-prima com a qual reapareceria triunfante. Sua torre era uma faixa descontínua de terra à margem de suas antigas paixões. Com o tempo, a faixa se prolongava, e Juveninho ia ficando cada vez mais distante de seu hábitat, a despeito (ou em virtude) de convites e tentações constantes. Estava convicto, Juveninho, de que não queria jamais viver num ponto permanente de tensão, preocupado em perder a mulher, a casa, o carro e o emprego por pura falta (pregressa) de paciência, orientação e planejamento de vida e carreira. Não queria se transformar num cargo. Não queria - mesmo que, para isso, tivesse que morar mais tempo na casa dos pais e gastar mais dinheiro em “suítes simples”.
O futuro preocupava Juveninho. Sua vida pregressa era agora. Agora era o momento de buscar ajuda, como fizeram e fazem sempre os melhores. Só mesmo um idiota não precisa de ajuda, dizia Juveninho, tentando se convencer. Não existem autodidatas, continuava ele, o único autodidata da história foi Adão e, ainda assim, com uma mãozinha de Eva. Até quem foge à educação formal se guia pelos rastros de seus antecessores, ou diretamente pelos próprios, de modo que a Juveninho só faltou encontrar os próprios. Sua ojeriza à educação formal, ele alega, vem de um fato cinematograficamente comprovado: mais vale um Sr. Miyagi do que mil academias Cobra Kai. Na falta de um Sr. Miyagi no Coqueirão, o autodidatismo de Juveninho se resumiu a seguir as pistas de seus autores favoritos, passando da citação à obra original, da referência à fonte primária, do rodapé à pesquisa científica, num delicioso trepa-trepa sem fim de leituras diversas. Foi um ano de muito aprendizado. Juveninho é mestre em trepa-trepa.
Ele já podia sentir a raiva dos invejosos [os blogueiros!] quando, de repente, descesse altaneiro, empunhando o resultado literário de um longo período de isolamento e de renúncia às mediocridades efêmeras de seu tempo. Há quem diga, porém, que sua reclusão foi de ordem financeira, e que Juveninho teria economizado o ano inteiro só para pagar uma das festas de Réveillon “mais nobres e exclusivas” da cidade. De um jeito ou de outro, sua fé inabalável era sempre a mesma (e a tudo se aplicava): melhor estar bonito numa festa do que feio em todas. Para Juveninho, o que seus contemporâneos jamais entenderam é que a onipresença é inimiga da volúpia. Por isso era preciso investir em ausências, aprimorar esperas, lapidar saudades. Uma arte que, na opinião de Juveninho, era pré-condição para a arte propriamente dita. Para escrever sua novela autobiográfica Enquanto a babá trepava, Juveninho precisava resistir à faxineira. Para escrever o ensaio Os sarados também lêem, Juveninho precisava resistir à personal. Carnes do ofício, ele dizia. Não diz mais.
Todo sacrifício valeria a pena no momento da reaparição, o marco inicial da posteridade juveniniana. E ele reapareceu. Há quem diga que foi primeiro no Coqueirão, há quem diga Bailinho, há quem Mangueira, há Estação. Há quem diga que ele está mais bonito, há quem diga inteligente, há quem “fortinho”, há mesma bosta. Mas nem sinal de sua obra-prima. Havia apostas de que Juveninho não resistiria ao verão no alto da torre, e sua recaída era uma questão de tempo. Muitos estão exigindo o pagamento dos devedores, que alegam ser ainda cedo para saber se é recaída ou volta triunfal. Juveninho ignora essa gente. Sabe que existe sempre um rebanho torcendo para não ser tão humilhado com o que se viveu ou se produziu à sua revelia. Por isso ele prefere o mistério. A melhor obra de um escritor é a próxima – e Juveninho descobriu como deixar o público a par disso. Todos suspeitam que ele está prestes a lançar um best-seller. Todos querem estar por perto quando o mundo descobrir o grande artista. Se for amanhã ou daqui a 60 anos, não importa. O verão de Juveninho está ganho. A saudade, lapidada. Até o carnaval, não há mais “suítes standard” disponíveis na cidade.


Quarta-Feira, 10 de Dezembro de 2008, às 13:33
Eis, aí, um de meus ídolos (depois de Bruce Leroy, é claro): Juveninho!
Saudades, cara.
Quarta-Feira, 10 de Dezembro de 2008, às 13:36
É verdade, moleque Bezerra: Juveninho é personagem de formar gerações!
Quarta-Feira, 10 de Dezembro de 2008, às 14:00
Desculpem a ignorância, mas quem seria Bruce Leroy?
Quarta-Feira, 10 de Dezembro de 2008, às 14:01
Não faço idéia, Jota… Alô, Bezerra! Esclareça-nos.
Quarta-Feira, 10 de Dezembro de 2008, às 14:15
Uma mistura de Bruce Lee e Leroy - Quem é o Mestre, Leroy, ou melhor, Bezerra?
Quarta-Feira, 10 de Dezembro de 2008, às 14:50
JP, meu bom amigo: Bruce Leroy - interpretado por Taimak -, que acalentava um suspeitíssimo fanatismo por Bruce Lee, é o protagonista afro-descendente-asiático do antológico ‘The Last Dragon’, um clássico norte-americano dos filmes de luta (um trash, por excelência), produzido nos anos oitenta (em 85, se não me falha) pela Motown.
E me vem à mente, enquanto relembro trechos do filme, a cena em que o Leroy, após levar um tiro de seu algoz, e cai ao chão, fingindo-se de morto, o surpreende, o algoz, com a bala entre seus dentes.
Quarta-Feira, 10 de Dezembro de 2008, às 15:27
Está resolvida a parada. E grande cena, Bezerra, grande cena!
Quarta-Feira, 10 de Dezembro de 2008, às 15:38
Muito obrigado, moleque-capoeira-tribuneiro. Lembrei-me desta magnífica cena.
Quarta-Feira, 10 de Dezembro de 2008, às 15:42
Não A-CRE-DI-TO que não vi o Juveninho no Bailinho. Será que ele almoça no Líquido?
Quarta-Feira, 10 de Dezembro de 2008, às 13:43
Sabe-se lá, Bruna… Lá no Bailinho. Fica esperta da próxima vez que a arte do Juveninho - dizem - é a discrição.
Quarta-Feira, 10 de Dezembro de 2008, às 13:51
Ele não deve conhecer o Líquido ainda Bruna, mas em breve estará lá nos almoços, nos sambinhas da Melt, nos chopps do Jobi… ninguém resiste o Verão no alto da montanha !
AHHHHH o Verão !
Quarta-Feira, 10 de Dezembro de 2008, às 15:44
Mas agora gamei de vez. Depois de um longo e tenebroso inverno, Juveninho com pretensões literárias… me pegou totalmente de surpresa.
“a onipresença é inimiga da volúpia. Por isso era preciso investir em ausências, aprimorar esperas, lapidar saudades”, Que beleza! Que beleza”
Quarta-Feira, 10 de Dezembro de 2008, às 18:42
ouvi dizer que juveninho anda circulando bastante em Sta Teresa, com os fenestrados oculos de LeRoy …