por C.A. - Terca-Feira, 11 de Novembro de 2008, às 16:04
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O meu projeto, definição melhor não encontrarei… O meu projeto é amazônico. E não só no conteúdo, caro Daniel, mas na forma, nos meios, na intensidade… Na entrega. Eu me deixarei ir. Eu me lançarei – e me lançarei como escritor, também. Eu, Guilherme Caracala, escritor. Porque, sim, porque encontrei o objetivo, o assunto, o meu assunto, a descoberta de me legitimar a escrita – de me referendar o escritor que sou e digo que sou. Ah… Venderei tudo, tudo o que tenho, carro e tudo – e me irei. Largarei tudo – e então será. Serei. Compreende, Daniel? Uma grande viagem, meses, suponho quatro ou cinco ou seis, e mais, se preciso for, cortando a imensa transversal amazônica – a Transamazônica –, desde Picos, no Piauí, onde começa, até Cruzeiro do Sul, no Acre, onde termina, ou deveria terminar, até onde Transamazônica houver… Percorrer a imensa e maldita estrada dos militares – esta estrada de terra, de chão, de que muito se fala, de que todos falam, mas que poucos, raros, conhecem. Eu a conhecerei. Tão extensa… Tão fascinante! E eu a rasgarei, inteiro, inteira. Eu a escreverei, completa, completamente, até onde for, até onde houver… Eu a escreverei no chão. De chão. Por chão. A estrada a ser percorrida. A floresta a ser descoberta. Vivida. A literatura a ser… Uma literatura. Dos meus passos, as digitais eu marcharei num diário: “O diário da Transamazônica” – eis o meu título – e talvez por subtítulo eu me venha de resolver: “O diário da Transamazônica – a estrada de que todos falam e ninguém conhece”. Eu a conhecerei… E nela tudo cabe, caberá; tudo pode. A literatura toda, inclusive. Nela. Como não? A partir dela… A literatura virgem. Inexplorada. A literatura a ser escrita. Universal. Amazônica. Futura. Literalmente: amazônica… Que tudo abriga e testa e encuba. A literatura em movimento, diária, vivida; o autor dentro da floresta, dentro da literatura, escrevendo nas margens da imensa estrada… E eu a escreverei, reportagem e ficção ao mesmo tempo, trepadas e trepando-se. Eu o escreverei… Um diário que não só diário – mas tudo quanto possa ser escrito. Vou me embrenhar na floresta e a floresta eu quero ser, as coisas da floresta, nas coisas da floresta, na gente da floresta, e quererei foder as índias e lhes chupar os seios murchos… E me deixar picar-cheirar-fumar das mais poderosas drogas indígenas, e me permitir então sair da rota um pouco, apaixonado por uma cabocla de impossível beleza, fugir do rumo e lhe comer os suis todos, e assim desviar do norte ao qual, porém, sempre voltarei e que será, sempre, o corte vermelho da estrada em meio ao infinito verde, que desafia e penetra e invade e sangra… Farei cada metro de meu caminho sob os meios que a floresta me oferecer e dela, do que dela descobrir e puder ler, tudo darei conta – tudo escreverei. Tudo… Não quero um passo de favor, Daniel, um centímetro. Nada. E não quero coisa alguma omitir. É isso. A dignidade fundadora… Se quem lá vive se desloca a pé, a pé me irei. E se de carro, de ônibus, por onde ônibus houver e passar ônibus, ônibus serei – e depois um barco, uma balsa, como for, um jumento. Eu me quero ir como os de lá, como os amazônicos vão – como eles se locomovem, através dos transportes possíveis e usuais, por piores que sejam, por ausentes que sejam, por inexistentes. Sou um escritor. Eu crio… Eu quero ver o que deu certo – porque algo de certo, de produtivo, algo resultou, não é possível… Eu quero ver no que deu aquelas agrovilas e aqueles projetos monumentais de migração – e em que se fizeram aquelas pessoas? Quero confrontar o que se previra e o que, por fim, fixou-se. Quero saber das pessoas… O que delas hoje há? Esperança – haverá? Houve, um dia? Frutos? Famílias? Cidades? As cidades! Cidades muito significam… Eu me interesso pelas vilas, pelas cidades que nascem e crescem em função de uma estrada – e se assim é, se assim foi, algo de bom existe, resiste, insiste… Algo que se aprofunda e enraíza – e fica. Algo ficou e venceu… Suponho que sim, meu caro Daniel, e mesmo me motivo em crer que o futuro lá ainda não chegou porque… Porque o futuro lá será. Porque o futuro está por ser escrito, pavimentado… É assim que se constrói uma estrada continental – como se constrói um livro: de chão, de terra, estrada pioneira, de atração, de fixação, que se vai a pavimentar, revisar, aos poucos, na medida da ocupação, do desenvolvimento, da releitura. Quero comprovar, verificar, a força deste sonho reincidente em mim, este segundo o qual talvez se tenha errado o cálculo, errado muito, mas que a Transamazônica ainda será, ainda virá… E eu quero testemunhar – quero escrever a nova previsão: em trinta anos, senhores, em trinta anos a imensa transversal será o que dela sempre se esperou e, depois, imediatamente depois, desacreditou-se… Amaldiçoou-se. Esta é a minha premissa. De onde parto… Ah, a política! Os que a idealizaram já se foram, morreram, malditos ou amaldiçoados também – e os que os sucederam, os próprios militares, os gênios da caserna, os intelectuais, os magos, eles próprios, sem dar o devido tempo de maturação à estrada monumental, o tempo necessário, o tempo justo, o tempo de justificar e consolidar tamanho investimento e de lhe dar prosseguimento, os próprios militares sufocaram-na num sem-trégua de abandonos, de sucateamentos, de ressentimentos, na falta de manutenção, de continuidade, no deixá-la à sorte da floresta, que engole e chove e alaga e destrói… E não será sob continuidade, sob atenção, que se faz uma estrada de proporções continentais? Não será sob o perene que se irriga e frutifica? Não será assim que se constrói, que se faz uma estrada no Brasil? Ou qualquer coisa? Ou mesmo o Brasil – o país? Não foi assim com a Belém-Brasília?, outrora diminuída, ridicularizada como a “estrada das onças”, que ligava o nada a lugar nenhum, aberta por Juscelino, o megalômano, o louco, como estrada pioneira, assim como deve ser, de chão, de terra, para depois, à medida de sua ocupação, à medida que são ocupadas, habitadas as suas margens, à medida que se aprofunda a penetração e nascem as estradas vicinais, os afluentes, as vilas, as vidas, então passar a ser paulatinamente pavimentada, coberta de asfalto – assim como com a Belém-Brasília se deu, aberta por Juscelino, o democrata, e pavimentada pelos militares, os tiranos déspotas filhos-da-puta… Não foi assim? Não é assim que se governa, que se faz, patrioticamente, um país, com a mentalidade do estadista, de se reconhecer, a despeito da discordância política, ideológica, a premência do desenvolvimento e a importância das realizações e conquistas alheias – e a elas dar fluxo e tempo e consciência e crescimento? Não é assim? Não foi assim que se fez, aliás, Juscelino, o mito – o visionário empreendedor? Pelo trabalho dos malditos que lhe deram fé e seqüência e eternidade? E não será essa a noção essencial de progresso – não? O que se constrói dia após dia – não será? Não, Daniel. Eu respondo… Não! Não para a Transamazônica. E não para quase tudo no Brasil mesquinho… No Brasil que se interrompe. Embora pudesse ser, já então, a estrada decisiva para o desenvolvimento e a ocupação racional e produtiva da Amazônia, melhor serviria, abandonada, como instrumento político de estigmatizar os militares mais desgraçados, os elefantes brancos, os faraônicos – já faz quase quarenta anos… E ainda assim, quero dizer, ainda assim, acredito, mais cedo ou mais tarde: ela será. A Transamazônica – ela será tudo aquilo que seus criadores esperavam. E será mais! O instrumento de uma integração afinal muito maior do que aquela inicialmente suposta, meramente física e social, com contornos de segurança nacional. Muito maior… É-lhe o destino inescapável: ser o caminho e encontro dum país que ainda não se conhece e que, sem se conhecer, maldiz-se; ser o caminho para que um país, preferindo-se mítico, folclórico, afinal se veja como é e se veja inteiro. É-lhe o destino inescapável: crescer junto, marco de consciência, de se explorar e transformar, de se mover, de se tocar – de ser-se… E depois, bem, depois vieram os civis. Pronto… O estigma de obra militar a mais simbólica, auge da monumental farsa de um milagre sem santos, resultou em que se a enterrassem de vez, a estrada – e sem dó. Ou melhor: que se a varressem para baixo do tapete, que a escondessem, já que continuaria existindo, que continua existindo, que permanece, persiste, largada ao mundo e à sua fome… Eles eram todos, de qualquer lado, produtos daquele mesmo sistema, os políticos, os tancredos, os sarneys – e se refizeram, trocaram de pele, destruindo tudo que, não sendo humano, fosse, como eles, lembrança e memória do que não mais interessava, do que se pretendia descartar, da carcaça ressecada e finalmente desbotada num mato desses… Eles assim achavam, tolos, que se restariam vivos, todos. E morreram. Todos. Cada um a seu jeito. Mortos de não ver a vida dela, da estrada, do futuro, logo ali, logo ali…
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Leia Fragmento de um exercício literário - obra em progresso, aqui.
Fragmento de um exercício literário II - obra em recesso, aqui.
Fragmentos de um exercício literário III - obra em regresso, aqui.


Terca-Feira, 11 de Novembro de 2008, às 16:27
Boa viagem, C.A.!
Terca-Feira, 11 de Novembro de 2008, às 18:20
Pim, quem vai fazer a viagem é o Guilherme Caracala…
Bom que a viagem seja de chão, porque “quando um sujeito deseja imediatamente viajar, é melhor que a estrada seja de chão – por motivo de rastro.”, não é, Andreazza?
Você devia escrever mais sobre essa estrada estigmatizada. Gostaria sinceramente de compreendê-la melhor.
Terca-Feira, 11 de Novembro de 2008, às 10:02
Aos poucos, Olga, ela se vai fazer conhecer.