por C.A. - Quinta-Feira, 6 de Novembro de 2008, às 16:39
Eduardo Paes, prefeito eleito, promete uma licitação para escolher o organizador do carnaval das escolas de samba. É o mínimo que se pode esperar de um homem público sério.
Terá ele, porém, coragem de enfrentar os contraventores senhores absolutos do carnaval carioca?
Torço. Muito. Mas: duvido. Muito mais.
Trata-se de um emaranhado complexo, de tessitura perigosa, tramado progressivamente pela irresponsabilidade [omissão] de sucessivos prefeitos, o que resultou na inacreditável [inaceitável] sociedade – hoje, afinadíssima – entre os contraventores do jogo do bicho e a prefeitura do Rio de Janeiro. (Resultou, também, em que os bicheiros preenchessem – com alentado e competente populismo – alguns espaços comunitários que deveriam ser [que são] apanágio do poder público, o que assim tornou a coisa ainda mais delicada-entranhada, lamentavelmente permitindo, ademais, que muita gente [boa ou nem tanto, mas com voz] discurse-argumente contra o fim da contravenção no carnaval por medo duma tal “convulsão social”)…
A gestão municipal que ora [felizmente] se encerra, a do alcaide Czar Maia, como nenhuma outra, aprofundou essa parceria com a contravenção e, afinal, legitimou a Liesa como suprema e inquestionável administradora do carnaval, gestora modelo – a única capaz… Está aí, para exemplo máximo desta bárbara distorção das obrigações municipais, a Cidade do Samba, pessimamente concebida, erguida com dinheiro público à larga e entregue imediatamente, sob os auspícios da regra calada, à contravenção.
Não é de hoje que venho escrevendo a respeito. Há muito de medo na parada – e percebo nas pessoas, jornalistas inclusive [e sobretudo], um misto de temor [legítimo], porquanto de fato não se lide com gente mui aberta ao diálogo [eufemismo], e conivência [complacência, pegando mais leve], porque a cousa se estabeleceu de uma maneira muito vantajosa [muitos favores, camarotes, vagabundas etc.] para quem trabalha, acriticamente, com o carnaval. (Apenas com o aspecto festivo do carnaval, se me faço claro). Ocorre que me deparo com a capa do CD das escolas de samba para 2009 e a foto – em close – é da esposa de um bicheiro preso, a mais inadmissível prova iconográfica de que as agremiações perderam o posto [a importância] para a vaidade de quem arrematou [privatizou], sem nenhum pudor, o carnaval. (E eu queria muito que isso fosse apenas ridículo – constrangedor somente – mas não é).
Anti-cariocas da gema, as conseqüências momescas desta sociedade-privatização são terríveis. A brincadeira, faz tempo, ultrapassou a avenida, o deleite do folião – e ganhou novo sentido, nada lúdico, no carnaval. (Nas sombras do carnaval). Não sem razão, questiona-se a lisura dos resultados… E o desfile das escolas de samba, espetáculo fabuloso, vai longamente minado em sua credibilidade. O raciocínio-questão é simples: como cobrar transparência – qualquer uma – de quem sequer presta contas? (E pergunto: alguém já viu um contrato firmado pela Liesa)? (Haverá algum)?
E aviso – combrem-me depois: a Grande Rio será a campeã do próximo carnaval.
Um prefeito comprometido com os bens culturais do Rio de Janeiro e com os símbolos que lhe deram caráter – sabedor, para além, das altas somas que a cidade investe, a fundo perdido, no carnaval – deveria empenhar-se cariocamente no fim da Liga, na dissolução de sua estrutura obscura, de falso profissionalismo, e na retomada integral da festa pelo poder público, longe de perfeito, é verdade, mas baseado ao menos em instrumentos de fiscalização e controle legais e experimentados, de fundamentação democrática e espírito constitucional, como se deve sempre desejar.
Na Câmara Municipal existe um projeto que restabelece a organização total e irrestrita do carnaval pela municipalidade – e prevê, em seu texto original, que a prefeitura, diretamente ou por meio da Riotur, faça licitação para todos os serviços referentes ao desfile das escolas de samba, sem exceção, desde a cronometragem e a venda de ingressos, até o comércio de alimentos e o direito de imagem. Por que, então, esperar? A hora é essa.
O carnaval das escolas de samba pode parecer uma bobagem ante os desafios públicos do novo prefeito – mas só para quem desconhece o Rio de Janeiro.


Quinta-Feira, 6 de Novembro de 2008, às 17:03
Preciso, Andreazza. VOu colocar uma chamada lá no blog para o texto.
Quinta-Feira, 6 de Novembro de 2008, às 17:14
Marcelo, estamos juntos [sozinhos] - faz tempo - nesta posição. Acho que vou pedir escolta à secretaria de segurança…
Quinta-Feira, 6 de Novembro de 2008, às 09:15
Está muito bom mesmo.
Vou encaminhar pra ele.
Quinta-Feira, 6 de Novembro de 2008, às 09:58
Excelente, Andreazza. Nosso saudosismo talvez nos afaste da verdade: o desfile das escolas de samba é, há anos, instrumento que serve majoritariamente à contravenção. Milhões de reais circulando e sendo lavados sob a permissão dos governantes. A mudança desejada por nós não existe, seria necessário o recomeço.
Quinta-Feira, 6 de Novembro de 2008, às 12:58
Devidamente enviado!
Quinta-Feira, 6 de Novembro de 2008, às 15:20
Não entendo nada de carnaval, mas pergunto: sem a “proteção” da Liesa/bicheiros/traficantes, alguém topará ser jurado isento?
Aquela apuração, por si só um evento bizarro, vai acabar em tiroteio.
Quinta-Feira, 6 de Novembro de 2008, às 15:27
E quem disse que há proteção dos bicheiros, Alberto? Pelo contrário… Coação, decerto - o que sempre tende a resultar na falta de isenção. Afinal, nem todas as escolas têm um contraventor por trás.
Quinta-Feira, 6 de Novembro de 2008, às 15:29
Tens razão. Se correr o bicho pega…
Quinta-Feira, 6 de Novembro de 2008, às 11:38
CA,
excelente texto. Há ainda a questão da lavagem do dinheiro da contravenção que possibilita a continuidade desta parceria do poder público com a contravenção e acaba alimentando outros tipos de crime além do jogo do bicho.
Quinta-Feira, 6 de Novembro de 2008, às 13:24
Obrigado, Mitke.
O jogo do bicho - quase inocente, segundo o folclore carioca - é apenas a ponta mais popular de um profundo e obscuro emaranhado de crimes e criminosos.
Poucas coisas de ruim no Rio de Janeiro não lhe estão ligadas.
Abraço!