por Felipe Moura Brasil (Pim) - Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 01:20
É estranho perder um ídolo, chorar a falta de quem não conheci senão pelo trabalho. Mais estranho ainda é receber as condolências de uma porção de amigos que o remete a mim. Luiz Carlos da Vila e eu trocamos no máximo umas três frases – coisas de fã – ao longo dos 20 anos em que o idolatrei e dos 15 em que o segui como um fiel por onde ele foi. Ele, o artista.
O primeiro samba que decorei do início ao fim foi o seu Kizomba – festa da raça, antes d’eu completar 7 anos. Foi uma lavagem cerebral. Os negros viraram meus heróis – e passei a acreditar em todos. Adolescente desorientado [brasileiro…], fui aprender sobre o amor nas letras de Luiz Carlos da Vila, o que me trouxe conseqüências terríveis. O amor nunca foi tão bonito quanto um samba dele – e era lá que eu queria viver: num samba do Luiz Carlos da Vila.
Precisei de anos e anos de terapia para me desintoxicar. Anos e anos de vida intelectual para entender que subordinar a inteligência (minhas escolhas, portanto) a apenas um de seus aspectos – o sentimento – era um crime contra mim e contra o outro. Eu precisava, por livre e espontânea vontade, investir na razão, no raciocínio lógico, no senso crítico, no interesse prático, e em tudo aquilo que, ensinado sem a cadência de Luiz Carlos da Vila, a gente deixa de aprender na escola. Não foi fácil contrabalançar a fera. Na verdade, eu perdi.
Continuei chorando feito um bebê a cada show daquele negrinho desengonçado, que dançava balançando os cotovelos e, copo de uísque sempre à mão, gritava ao fim de cada música: “Feliz Nataaal!”. Era fevereiro, abril, julho, setembro, mas, no mundo “além da razão” de Luiz Carlos da Vila, era sempre Natal. Aquilo renovava minha fé no samba. Se era “o Cacique pra uns a cachaça/pra outros a religião”, eu fazia parte de “outros”. Assumi Luiz Carlos da Vila – junto com Arlindo Cruz – como minha verdadeira fé. Pouco me interessavam sua vida íntima e seus excessos. Minha fé era cega e, para torná-la ainda mais autêntica, eu a pregava aos demais.
Dois dias antes de sua morte, perguntaram-me qual a melhor ocasião para ir ao Candongueiro – o templo da roda de samba - e eu respondi como sempre: quando o convidado é Luiz Carlos da Vila. Porque ele não era o palco, ele era a roda: o humor, o improviso, a proximidade, a emoção, o samba em sua essência – em seu sentido mais completo. Tanto melhor que seu talento ganhasse o mundo na voz dum Zeca Pagodinho, duma Beth Carvalho, se sua figura permanecia ali entre a gente, de pé no chão, olhar e ouvidos atentos, captando matéria-prima, até dizer, citando Camunguelo: “I’m going to my house now, because I’m very cansado”.
Pequeno, tímido, careca, de fala mansa, voz fanhosa, tudo em Luiz Carlos da Vila contribuía para o arrebatamento de seu canto, pelo qual ele – à flor da pele - vencia o corpo, a origem, a classe, o tempo e o espaço, para alcançar a grandiosidade de sua própria criação, fadada ao infinito. Foi através de suas letras e melodias que o samba encontrou sua melhor via de acesso ao sublime, mesmo na linguagem prosaica e bem-humorada de um cotidiano popular. Minha definição de arte e de amor é dele [é ele]: “Quando ela falou em trocar de janela/pra outra que tinha paisagem tão bela/eu disse não troque/que eu trago a paisagem um pouco mais pra cá”… Amar e escrever, pra mim, é trazer a paisagem um pouco mais pra cá.
Nos últimos anos [depois de perder João Nogueira], venho me preparando para a morte de uma porção de sambistas moribundos, mas – hoje me dei conta - me esqueci do Luiz Carlos da Vila. Eu não contava com isso. Eu não queria isso. Devo ter escondido essa possibilidade nada remota lá no fundo do inconsciente. “O show tem que continuar”, eu sei, “a chama não se apagou/nem se apagará”, mas o gosto é o que a gente tem de mais individual e representativo, e é duro aceitar que não vou poder apontar para ele no meio dum batuque enfezado, cantando Fogueira de uma paixão, e dizer: “Olha lá, meu filho, olha lá uma parte essencial da formação do papai, olha lá uma parte de mim” – uma parte que eu ia até Niterói sozinho para ver.
Um dos maiores prazeres da minha vida – cada vez mais raro no Brasil - sempre foi ver alguém fazer alguma coisa melhor do que todas as outras pessoas do mundo. Luiz Carlos da Vila fazia – e aqui vai toda a minha saudade: só ele, afinal, pintava “um azul do céu se admirar”.
Muito obrigado, Da Vila.
Feliz Natal.
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[Leia também a entrevista que Carlos Andreazza fez com Luiz Carlos da Vila, num bar da Vila da Penha, em março de 2002 - aqui.]


Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 08:09
À altura!
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 09:25
Nossa, Pim! Que bonito! Luiz Carlos da Vila, ele sim, sabia transformar o mundo!
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 11:23
Belo, belíssimo texto.
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 11:44
Desde ontem, Pim, tão-logo nos despedimos ao telefone, eu aguardava, sem que você me o tivesse “prometido”, por este texto. Uma beleza!
E vamos sempre - para sempre - cantar e falar de Luiz Carlos da Vila, o gênio.
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 12:20
O Luiz Carlos da Vila também é meu ídolo. Foi com muita tristeza que recebi a notícia, por um amigo, da sua morte. Foi uma perda tremenda. Da Vila da Penha para a Vila Isabel, o grande Luiz Carlos, como já disseram era na verdade das Vilas. Minha Escola perde um grande componente, um garnde compositor e também um grande homem. A Vila está oficialmente de luto por 7 dias. Mas faremos desse luto uma garra comum de quem é do Samba. Já tive o prazer de conversar, tirar foto e até pedir autógrafo ao grande Da Vila. Sim, isso é coisa de tiete, mas não me envergonho de reverenciar um ídolo. Fique com Deus Luiz Carlos, pode ter certeza que “o tempo que o samba viver, o sonho não vai acabar, e ninguém irá esquecer DA VILA”.
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 12:54
Pim, que beleza! O sambista-poeta teve o fã que mereceu!
Após o seu texto, lamento mais ainda.
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 14:21
Muito bonito, Pim.
Sentirei-me da mesma maneira qdo Celso Blues Boy partir desta pra uma melhor.
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 14:27
Sexta eu estava na quadra da Vila, torcendo para o Samba do Luiz Carlos, que na minha opinião era o único a fazer frente ao Samba do André Diniz, que foi o vencedor. Jamais imaginaria que sairia de um momento de alegria a um momento de tristeza em três dias, sendo que o responsável foi a mesma pessoa. Antes da final o Samba Kizomba foi tocado e a quadra toda cantou com o maior orgulho, em virtude de nosso primeiro campeonato em 1988. Agora, quendo completamos vinte anos desse título histórico, perdemos um dos maiores responsáveis por esse feito. Sempre que eu ouvir e cantar esse samba lindo de 88 me lembrarei com muita alegria desse homem que foi Luiz Carlos da Vila. Não só esse samba, mas todos os outros que ele compôs, mas sem sombra de dúvidas, Kizomba é o que mais me marca. E olha que quando a Vila foi campeã eu tinha apenas 4 anos…
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 14:28
Sobre Luiz Carlos da Vila posso escrever inúmeras histórias que me marcou. Ainda não acredito que perdemos essa pessoa tão especial!
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 14:55
Acredito que o momento para dividir pelo menos boa parte dessas inúmeras histórias seja esse, xará.
Gosto de samba desde muito pequeno também, mas confesso que apenas aprendi a gostar do Da Vila quando eu tinha uns 15 ou 16 anos.
Ganhei de presente um CD promocional, se não me engano do Boticário, com enredos clássicos.
Lembro-me exatamente que a faixa que mais me chamava atenção (com exceção da Lendas e Mistérios da Amazônia da minha Portela) era exatamente o Kizomba, de autoria desse que agora nos deixou.
Mas a vida é assim.
Feliz casa Tribuneira, que agrega tantas pessoas de gosto único e particularmente sábio.
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 14:59
Lindo texto.
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 15:12
Me lembro de uma história que aconteceu no Festival Fábrica do Samba, em 2003, no Maracanãzinho, festival esse que só teve um, infelizmente.
Estava eu, calmamente esperando a apresentação de mais um concorrente, quando ao meu lado desponta Luiz Carlos da Vila. Sem nem pensar duas vezes resolvi pedir um autógrafo. Ele meio assutado me perguntou: “Tem certeza que você quer um autógrafo meu?” Fazendo uma cara de “você deve estar enganado”! E eu: Claro Luiz Carlos, sou um enorme fã seu. Nesse momento ele abriu um sorriso, me deu um autógrafo e ficou conversando um pouco comigo. Tive o enorme prazer da presença desse grande mestre, que me deu inúmeras alegrias.
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 15:27
Damasceno, Luiz Carlos me deu o maior porre - de cerveja preta - da minha vida. Eu tenho o maior orgulho disso.
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 15:29
Pian, você é mesmo fã do Celso Blues Boy?
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 15:33
C.A.,
também teria orgulho se isso tivesse acontecido comigo!
Não tive o grande prazer de beber com ele…
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 15:39
Eu não bebi nem com o Luiz Carlos da Vila - e tenho o maior orgulho disso.
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 15:51
Olga,
Sou sim um grande fã do Celso.
Tenho também algumas histórias de tietagem no Circo Voador, mas deixarei-as para momento mais oportuno.
Por enquanto, estou deveras satisfeito com os causos etílicos (ou sóbrios) dos fãs do Da Vila que frequentam esta casa.
(C.A, meu expediente está bem mais alegre com as músicas por vc postadas).
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 15:55
Pian, na discoteca sambística tribuneira - tanto na minha quanto na do Pim - raro é não encontrar um samba.
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 16:12
A presença do Luiz Carlos da Vila sempre foi bastante requisitada aqui em BH, lugar onde deixou bastantes amizades.
Numa dessas tive o inesquecível prazer de o acompanhar e de trocar idéias e goles de uisque com ele no camarim. Mais do que embriagado com os copos, minha alma ficou embriagada com a presença desse ser iluminado, que nos deixou pra ser estrela e nos iluminar lá de cima do firmamento.
Belíssimo texto/homenagem do Pim. (dei-me a liberdade de reproduzi-lo - com as devidas menções a este site - no Espaço Aberto da Galeria do Samba). Parabéns.
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 16:21
Pian, perguntei porque gosto do Celso Blues Boys e tenho também algumas histórias sobre ele.
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 16:27
Que texto forte e bonito, Pim… Acho que ele ficaria muito emocionado se pudesse ler isso aí. E eu senti uma pontinha de inveja de nunca ter visto Luiz Carlos da Vila no Candongueiro!
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 16:28
Além de desejar sempre “feliz natal” qualquer que fosse a época do ano, tinha uma outra tirada do da Vila que eu adorava. Ele escutava uma música ou um verso bonito e dizia: Só de escutar eu fico todo “arrependido” (querendo dizer que ficava arrepiado). Ou então dizia: Eu fico “impressionante” com isso. Grande figura, grande poeta, grande mestre.
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 16:55
Olga,
Tenho certeza que, em um futuro próximo, dividiremos histórias sobre esse ícone em um papo bem embalado.
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 16:59
Pim, seu texto está belíssimo.
Expressa o que muitos, inclusive eu, gostariam de dizer
Tive a honra, o privilégio e acima de tudo o prazer de conviver bastante com o Da Vila nesse ano.
Viajamos juntos para Holanda em Maio, e para Cuba em Junho onde fizemos shows lindos.
Porém, melhor que os shows, foi a possibilidade de estar ao lado dele nessas temporadas.
Me diverti muito com seu jeito alegre e brincalhão para tudo.
Passei boa parte da tarde/noite de ontem no velório dele, que foi uma festa com samba, muita cerveja e muitos amigos queridos, as 3 coisas, além da sua Jane, que certamente ele mais valorizou na vida
Vai fazer muita falta
Abraços
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 17:01
E pensar que em julho eu tive o prazer de vê-lo cantar no Candongueiro. Estava comemorando seu aniversário, desejando Feliz Natal, claro.
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 17:01
Ja ia esquecendo:
Vejam esse video e prestem atenção na fala do Da Vila logo no inicio.
(não aparece, mas ele tinha acabado de cantar alguma música)
http://br.youtube.com/watch?v=_o93UmsBQtU
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 17:47
Tomei a liberdade de linkar o texto lá no Pentimento.
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 11:05
Definitivo!
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 12:55
Grande Pim, não gosto de samba, nunca tinha ouvido falar do L.C. da Vila (da Vila só conhecia o Martinho, que sempre achei um chato de galocha metido a besta, com sua voz pastosa de bêbado, à coté aquela sua filha horrenda). Mas seu texto está lindíssimo, e como tributo (ao texto) vou tentar ouvir uma ou duas músicas do cara.
PS: podem me esculhambar, a meu favor eu também detesto o João Gilberto.
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 13:07
Alberto, acho desperdício de tempo você tentar ouvir uma ou duas músicas do sambista Luiz Carlos Da Vila. O seu comentário me dá a certeza que não compreenderás, ou melhor, não sentirás. São pérolas, e pérolas…
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 21:32
É Felipe, você realmente botou tudo o que estava sentindo pra fora da melhor forma possível!! Parabéns por mais uma crônica!
Eu como a Fernanda também senti uma pontinha de inveja de nunca ter visto Luiz Carlos da Vila no Candongueiro. Ele com certeza ficaria (como eu) emocionadíssimo de ler o que foi escrito aqui sobre ele.
Para os seus filhos, assim como para os meus, restará a música e a história de um dos maiores sambistas já existentes.
Tenho orgulho em agora (e somente agora) pertencer a esse grupo de pessoas fãs de coração do samba. Fãs das músicas, das letras, da história. Obrigada!
E concordo com a Olga em relação ao comentário do Alberto.
Meu querido Alberto não perca o seu tempo ouvindo as músicas não. Nem do Luiz Carlos da Vila e nem de nenhum dos grandes sambistas. Para compreender necessita-se de alma leve para sentir, somente para sentir…
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 21:17
Compactuo com seu sentimento de perda incrível.A letra mais comprometida com os excluídos da nossa terra se juntou com a melodia mais doce e sofisticada do samba de raíz.O poeta do samba, como é chamado, deixa sambas que serão,certamente, reconhecidos mais à frente como verdadeiras obras primas da arte humana.
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 10:46
Pim,
o texto está belíssimo. Não acho entretanto que o poeta quis dizer que era “o cacique pra uns”. Sempre entendi que o verso queria dizer que o Cacique para uns era a cachaça e para outros era a religião. Aliás a maneira que os versos foram concebidos leva a esta conclusão, do contrário “a religião”, depois da vírgula, ficaria sem sentido. Acho que a formação correta é
“É o cacique pra uns a cachaça
Pra outros a religião”
Abraço.
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 12:37
Grande Arthur,
Muito me honra sua leitura atenta - obrigado.
A cousa é ambígua mesmo, cada um interpreta a seu jeito, mas suponho que tens razão quanto ao objetivo do Da Vila - e já alterei o texto (repare lá), mantendo exatamente a minha idéia (como sempre a encarei): a de que o Cacique era (e é) minha religião - e que eu nada tenho a ver com cachaças.
Mas noto: da outra forma, “a religião” faz sentido sim, no fim do verso, servindo tanto ao Cacique como à cachaça, ou seja: “o Cacique pra uns, a cachaça pra outros, a religião” significa que era “o Cacique pra uns (a religião) e a cachaça pra outros (a religião)”.
Grande abraço!
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 14:01
Pim,
tenha a certeza que me honra mais ainda a oportunidade de ler textos como esse. Abraço.
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 17:07
Cara, nunca vi uma definição tão boa de quão importante é o samba na vida de um sambista. É uma escola, uma formação. Luis Carlos da Vila se foi, foi para um “Doce Refúgio”, ao lado de Deus. E que Deus ilumine a alma desse sambista maravilhoso, e que ele saiba que aqui, seu samba vai fazer muita falta, apesar de já ter sido eternizado.
Terca-Feira, 21 de Outubro de 2008, às 13:11
Lindo, emocionante, de uma fina sensibilidade!!!! Só poderia vir de um fã de um grande poeta como Luiz Carlos da Vila!!!!
Saudades eternas.