por João Paulo Duarte - Sexta-Feira, 3 de Outubro de 2008, às 10:12
Ana se vê quando ainda tinha três anos. Foto velha, em preto e branco, do fim dos anos 50. Óculos escuros de haste branca, bem grandes se comparados àquela cabecinha, e os olhinhos castanhos, bem claros, que estavam por trás. Uma princesinha naquele vestidinho branco com rendas na gola, bem simples. E com um laçarote amarrado na cintura. O sorriso que precedia a vida toda.
A partir daquela época, Ana lembrava-se de tudo.
Aos três anos – talvez antes – ela já tinha percebido o que seus pais demoraram muito tempo: era diferente do irmão. Menina arguta desde sempre, curiosa, muito comportada. Venerava e amava a mãe, e a ajudava nos cuidados com o irmão, um ano mais velho. O irmãozinho não sabia de quase nada, falava mal, tinha problemas com a coordenação motora e dificuldade em aprender. Ficava só observando os aviões. A pequena Ana percebeu que entendia tudo o que o irmão não sabia.
Dois anos depois, os pais foram para o exterior com o irmãozinho. Ana ficou sozinha. (Entendeu que a solidão não tinha nada a ver com abandono. A menina tinha os cuidados da avó e da governanta da casa, e toda a sorte de mimos, mas ficou sozinha. Era impossível entender por que a mãe se foi e levou o pai e o irmãozinho.) E assim passou quase um ano. Quando acordava, corria da cama pro berço do irmão mais novo – que contava menos de um ano. Tinha medo de que ele fosse também, e só ela restasse. Ana não se sentia mal por não ter viajado, ela apenas não entendia porque precisava ficar sozinha.
Quando os pais e o irmãozinho voltaram pra casa, Ana saltou de susto. O coraçãozinho tilintou novamente. (Pouco antes, ela fizera questão de vestir o vestido que mais amava, com meiazinhas brancas e o sapatinho branco daqueles que tem uma fivelinha, bem pequena. Arrumara a bonequinha – “o bebê” – também.] O ar lhe faltou e quase caiu enquanto tentava correr o mais rápido possível pela grama do quintal. Depois do abraço com toda força nas pernas da mãe, e dos beijos que dava no rosto dela – após ser levantada –, ainda no colo, procurou o irmão. Ele estava lá. De camisa de botão, short cinza, suspensório, e uns sapatinhos pretos brilhantes. Quando desceu do colo, beijou o pai, pegou o irmão pela mão e o levou no quintal pra mostrar que estava tudo limpinho, bem bonito pra eles. O menino sorriu e perguntou se o caminhão da Kibon já tinha passado.
Ana não se importava em brincar com o irmão diferente e sempre sentiu que precisava cuidar do menino que não conseguia ler – tinha os olhos tortinhos – e era até bonitinho na feiúra do rosto de gnomo. Quando passeavam na vila – tinham entorno de seis anos –, Ana ia à frente e o irmãozinho vinha a passos curtos e na ponta dos pés, bem engraçado. Quando passava um avião ele parava – fazendo um balanço característico de uma perna pra outra, exprimindo felicidade – e o ficava procurando no céu. Ela voltava, ficava do lado dele, e fingia que procurava também. A menina era uma graça olhando pra cima, os cabelos bem lourinhos, lisinhos, caindo pelos olhos. Após a euforia do irmãozinho, ela lhe perguntava se podia continuar o passeio. Ele sempre aceitava. Chegavam à banca de jornal e Aninha comprava gibi e ficava lendo pro irmãozinho. Aninha adorava ler pro irmão. Voltavam pra casa, de mãos dadas, a tempo pro almoço.
De tardinha, o irmãozinho ficava no portão esperando o vendedor de cachorro-quente, ou o vendedor de sorvetes. Aninha ficava também na varanda, arrumando as bonecas. Depois do sorvete, era a vez de esperar o pai chegar do trabalho.
Aninha conversava com o irmão um monte de coisas. Ele gostava de falar de bateria, batedeira, máquina de polir, avião, trator e de ficar imaginando quanto tempo demoraria pra chegar as horas do almoço, de dormir, do dia amanhecer e de acordar. Ela gostava de falar de outras coisas. Mas tinha paciência pra falar das coisas dele. Ele gostava muito de falar sozinho também. Ela também não se importava.
Enquanto guarda a foto, com o sorriso no rosto, Ana [que, nos anos que a separam da foto, cresceu, chorou, sorriu, estudou, namorou, casou, teve filhos, trabalhou, estudou, chorou, sorriu, criou os filhos…] fica emocionada de verdade, e se sente meio sozinha de tudo que foi embora e de tudo que poderia ter sido. Logo mais, à noite, o irmãozinho vai ligar e falar de bateria, batedeira, máquina de polir, avião, trator e perguntar quanto tempo vai demorar pra o dia amanhecer e que horas vai acordar.


Sexta-Feira, 3 de Outubro de 2008, às 11:26
Muito lindo.
beijos
Ieda “mamana aninha”
Sexta-Feira, 3 de Outubro de 2008, às 12:20
João Paulo, que beleza! Que coisa mais querida essa Aninha. Esse seu conto veio ao encontro dessa sexta de, finalmente, sol.
Sexta-Feira, 3 de Outubro de 2008, às 12:44
Olga, querida, muito obrigado.
Fico muito feliz quando você gosta do que escrevo.
Sexta-Feira, 3 de Outubro de 2008, às 17:10
Que lindo, João Paulo!
Esse seu texto é um presente a todos nós. E uma alegria ainda maior a quem tem um “gnomo” na família.
Bjs,
Mariana
Sexta-Feira, 3 de Outubro de 2008, às 18:57
Lindo, Jota!
Uma bela homenagem para personagens tão especiais.
Como disse Drummond, “há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons”.
Beijo,
Natália.
Sexta-Feira, 3 de Outubro de 2008, às 09:05
Mariana, as famílias dos gnomos - apesar de todas as dificuldades - costumam dizer que eles são como bençãos.
Muito obrigado pelos elogios.
Sexta-Feira, 3 de Outubro de 2008, às 09:06
Nat, muito obrigado por ser minha leitora - e amiga - por todos esses anos.
Sexta-Feira, 3 de Outubro de 2008, às 18:41
É, JP. É exatamente por isso que gostei do texto. Não só porque está bem escrito, mas porque retrata, com uma beleza ímpar, a verdade de quem vive histórias parecidas com essa. E, exatamente por eles serem um benção aos seus irmãos, pais, primos e amigos que o nome gnomo foi uma escolha perfeita.
Acho que nem precisava dizer, mas eu digo: só falo isso porque tenho um gnomo na família. :)
Bjs,
Mariana
Sexta-Feira, 3 de Outubro de 2008, às 09:08
Que coisa mais linda! Eu tenho um peueno gnomo em casa e não havia como não me emocionar ao ler esse texto. Que bela pessoa a Aninha! Você deve ter herdado a sensibilidade dela…
Beijos na alma!
Lilia
Sexta-Feira, 3 de Outubro de 2008, às 11:52
Mariana e Lilia, tenho certeza que vocês vivem histórias como esta diariamente.
Este pequeno conto é apenas uma homenagem aos familiares dos gnomos. Que sofrem, crescem, aprendem e melhoram todos os dias convivendo com pessoas especiais. Os familiares são tão especiais quanto os gnomos.
Muito obrigado, boa sorte a vocês duas.
Beijos, JP
Sexta-Feira, 3 de Outubro de 2008, às 14:12
João Paulo, tomei a liberdade de enviar seu conto pra uma prima que trabalha com crianças muito especiais, na rede pública municipal. Ela gostou tanto que gostaria de utilizá-lo numa dinâmica com professores e pais de alunos. Você se incomodaria? Ela daria os devidos créditos, claro.
Sexta-Feira, 3 de Outubro de 2008, às 14:16
Olga, querida, no que diz respeito ao site, os direitos estão todos liberados para a rede pública de ensino.
Aguardemos, no entanto, pelo sinal verde do autor.
Sexta-Feira, 3 de Outubro de 2008, às 14:35
Olga, será uma honra.
Muito obrigado pela indicação.
Sexta-Feira, 3 de Outubro de 2008, às 15:07
João Paulo e Andreazza, queridos, obrigada.
Sexta-Feira, 3 de Outubro de 2008, às 10:14
Muito emocionante, meu bom e velho! Grande abraço!
Sexta-Feira, 3 de Outubro de 2008, às 10:58
Moleque-capoeira-tribuneiro, muito obrigado.
Vê se aparece mais!
Sexta-Feira, 3 de Outubro de 2008, às 12:47
As soluções para grandes “confusões” na vida das irmãs de gnominhos estão longe de ser solucionadas mas com o texto “A irmã do gnomo” e a resposta dos leitores do Tribuneiros, posso com orgulho e emoção dizer :Viva ! Mil vezes viva aos amados gnominhos.
Sexta-Feira, 3 de Outubro de 2008, às 19:17
Que coisa mais linda, João Paulo.
Parabéns!
Sexta-Feira, 3 de Outubro de 2008, às 11:36
Joana, muito obrigado.
Sexta-Feira, 3 de Outubro de 2008, às 17:04
E gnomos abençoados, são sempres manhados, por anas, por gente bacana.