por C.A. - Terca-Feira, 30 de Setembro de 2008, às 11:24
Devo me remeter aos 8/9 anos de idade, quiçá menos, para lembrar de quando, pela primeira vez, ouvi que o trema deixaria de existir. Havia mesmo quem dissesse - professores, inclusive - que ele já não mais existia… (E eu, que sempre amei o trema inocentemente, desde então, orgulhoso de minha missão, uso-o como se para reproduzir a espécie, como se o encubando no cativeiro pessoal de minha prosa, lá onde o preservaria da extinção anunciada).
Levou-se, porém, mais de vinte anos [mais!], tempo ao longo do qual bravamente resistiu o velho trema, e eis que a língua portuguesa, sob hedionda revisão ortográfica patrocinada [não à toa] pelo presidente Lula, estabelece como norma a grafia consagrada por orkuts e messengers do apressado e vasto-vasto mundo: cinquenta, tranquilo, sequestro, linguiça, aguentar, arguir, linguista…
(Procurar-se-á, assim, por meio do empobrecimento, facilitar o intercâmbio cultural entre os países de língua portuguesa, desconsiderando gravemente que intercâmbio orgânico - verdadeiro - é ler a prosa de um angolano, reconhecê-la como tão próxima da minha e, no entanto, felizmente, ainda um mar a-travessar). (Mas, e agora: nadar pra quê)?
Não gostaria de discutir [mais] a estupidez desta reforma - que será inútil. E tampouco ressalvar, pontualmente, que o novo tratamento para o hífen me parece coerente. (A Casa tribuneira, registro, para o bem ou para o mal, não aderirá). Mas de refletir sobre o fardo da transformação para quem se alfabetizou e formou escrevendo “vêem” e “lêem”, com acento, e distinguindo “pára” de “para”, “pêlo” de “pelo” - e considerando que uma idéia, boa ou não, jamais seria “ideia” ou “Coreia” ou “plateia”. É o que importa. A humanidade da língua. As relações afetivas que se estabelecem com a palavra escrita, pois que viva e pungente. E pergunte, leitor tribuneiro, a quem teve de se encaixar na revisão ortográfica de 1971 - pergunte se exagero [mais que o habitual]. É insuperável!
Somos já velhos. Escreveremos errado em breve, nós que sempre o fizemos tão certo. (Nós que lançamos um livro, tão novo, velho). E seremos motivo de galhofa, vítimas de uma mudança que raramente lograremos incorporar. Quereremos?
Lembro de meu saudoso avô, desembargador Renato Lomba, dizendo-me que o seu primeiro contato com a velhice se dera ainda em 1943, quando da primeira reforma ortográfica da língua portuguesa no Brasil. “Eu envelheci ali” - ele falou, ele repetiu.
O velho Lomba nunca mais conseguiu acompanhar o idioma, embora escrevesse de maneira escorreita e tivesse saboroso gosto pelo literário. O texto dele, qualquer um, já se deitava datado. E bastava o ler… Eu gostava. Lia-o muito, mesmo os pareceres, e, embora reconhecesse nele a impressão contumaz do passado, a forma, a grafia das palavras, o enclave rococó das consoantes, o conjunto daquele português anterior trazia a cultura de um engenho mais esmerado, de um idioma cuidado, vivo em sua trama, em sua tessitura, medido, íntimo, para o qual se expressar só não bastava, para o qual se expressar era antes elevar o caminho.
Ele desistira do idioma, era a minha impressão. Pelo menos em sua modalidade moderna - ele desistira. Ou talvez, eu pensava, tivesse simplesmente guardado para si o português de suas memórias, assim como fazemos com as nossas mais caras lembranças. Não sei. Não saberei.
Pensando rapidamente, acho feio ter de escrever, um dia, “aspeto” em vez de aspecto. Feio. É um valor absoluto. Feio. “Corruto” e não corrupto; “receção” e não recepção. Feio. Pobre. Mesquinho. Apoucado. E me sempre faltará alguma coisa. Será assim o novo português, o que falta, o faltante? E mancará infinitamente, tanto melhor? Ou logo lhe darão nova poda de igualar as pernas, roubando-lhe outra intimidade?
Desconfio de onde a singularidade de um idioma se faz estorvo. Desconfio de onde se desmancham as consoantes… E se acabarão todas, um dia?
Não sei. Sinto algum medo, admito.
Cada supressão do caráter [barroco] da língua portuguesa me parece simplificação de desqualificar a escrita e as suas amplas possibilidades [o futuro], assim como se nos preparássemos para que o texto servisse exclusivamente a esta imensa troca de e-mails em que se transformou a vida.


Terca-Feira, 30 de Setembro de 2008, às 11:35
C.A.
Adorei tudo o que você disse, sobretudo “assim como se nos preparássemos para que o texto servisse exclusivamente a esta imensa troca de e-mails em que se transformou a vida.” E digo mais: pior ainda seria o dia em que nos preparássemos para que o texto servisse exclusivamente a esta imensa troca de e-mails, scraps e - horror dos horrores - msn’s em que se transformou a vida. Será que um dia o antigo “vosmecê”, que virou “você”, vai virar o odiado “vc”?? Só gostei, além da coerência do uso dos hífens, da retirada das tremas. Odeio tremas!
Bjs,
Mari
Terca-Feira, 30 de Setembro de 2008, às 12:28
Grande texto, velho, grande texto.
Terca-Feira, 30 de Setembro de 2008, às 12:28
Lamentável a decisão do acordo ortográfico. Ação completamente contrária à interação entre os povos. Por mais incoerente que isso possa parecer, como bem disse o Andreazza, a proximidade que a tecnologia permite aos povos causa necessariamente a valorização das especificidades.
Escrever igual não aproxima os povos e a língua é o maior patrimônio de uma nação, onde vivem as características e as origens de cada povo.
Sacanagem maior foi fazer tamanho absurdo no centenário de morte de Machado de Assis, e na ABL.
Pelo menos, alguns imortais, como Carlos Heitor Cony, se posicionaram claramente contra o acordo.
É um desrespeito a todo povo de língua portuguesa.
Em tempo: não me preocupo com a linguagem internética. Esta sobrevive paralelamente e só valoriza a norma culta.
Terca-Feira, 30 de Setembro de 2008, às 13:44
Perfeito, Andreazza. Grande texto.
Terca-Feira, 30 de Setembro de 2008, às 16:29
“Não chóro por nada que a vida traga ou leve. Há porém paginas de prosa me teem feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noute em que, ainda creança, li pela primeira vez numa selecta, o passo celebre de Vieira sobre o Rei Salomão, “Fabricou Salomão um palacio…” E fui lendo, até ao fim, tremulo, confuso; depois rompi em lagrimas felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquelle movimento hieratico da nossa clara lingua majestosa, aquelle exprimir das idéas nas palavras inevitaveis, correr de agua porque ha declive, aquelle assombro vocalico em que os sons são cores ideaes - tudo isso me toldou de instincto como uma grande emoção politica. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda chóro. Não é - não - a saudade da infancia, de que não tenho saudades: é a saudade da emoção d’aquelle momento, a magua de não poder já ler pela primeira vez aquella grande certeza symphonica.
Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m’a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.”
(Fernando Pessoa)
Andreazza, depois dos seus escritos, no melhor estilo da língua portuguesa, não me contive. Desculpa preencher o espaço com tão longo texto, mas as intenções foram boas.
PS: O acordo facilita a escrita de atrapalhados com a língua portuguesa, assim, como eu, mas não consigo gostar desse acordo.
Terca-Feira, 30 de Setembro de 2008, às 17:06
Que maravilha, Olga! Que maravilha!
Terca-Feira, 30 de Setembro de 2008, às 20:10
Genial, meu amigo, o texto.
Terca-Feira, 30 de Setembro de 2008, às 16:24
Sou solidária aos lamentos e preocupações. E, de birra, continuarei acentuando “idéia”, “geléia”, etc. Olga, belo texto!…
Terca-Feira, 30 de Setembro de 2008, às 20:43
Sensacional o texto Andreazza!!! Estou me apaixonando por esse site a cada dia! Um absurdo a decisão do acordo ortográfico. Definitivamente não será isso que aproximará os povos.. Belo texto Olga!