por Felipe Moura Brasil (Pim) - Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 14:50
Eu já fui um bocó. Desprezei toda sorte de vida acadêmica. Na minha adolescência literária, escrevi uma porção de crônicas a respeito. Eu achava a escola e a faculdade no Brasil o fim da picada. Depois eu cresci. Entendi que o Brasil inteiro era o fim da picada. Então pensei: será que o universo acadêmico era mesmo pior do que todo o resto?
Uma das maiores dificuldades de viver no Brasil é distinguir aquilo que é ruim na essência daquilo que é ruim só porque está cheio de brasileiros. Sugiro o método-Pim: você substitui a variável problemática, e vê como a equação se comporta. Outro dia entrei por uns minutos (duro, em média, 14) na boate Boox, em Ipanema. Imediatamente, imaginei como ela seria se, em vez de brasileiros, houvesse ali um monte de gênios. Resposta: igualmente escura, apertada, enfumaçada, ensurdecedora, estupidificante. Boates como a Boox são ruins na essência. Mas e a universidade?
Ora, substituindo os brasileiros de uma universidade por um monte de gênios, você tem algo próximo de uma… universidade! Não é fantástico? Pode-se dizer o mesmo da escola. Tirando a máfia de manipuladores comunistas (e seus contaminados) responsáveis pela imbecilização de nossas crianças, uma aula poderá ser tão consistente e divertida - por que não? - quanto um bom livro. A atividade de professor, como a de escritor, só tem dois requisitos: ter o que dizer, e ser cativante. Os dois mais raros do Brasil. Ainda mais, juntos.
Um dos milhares de consensos falsos que circulam por aqui (a maioria, de esquerda) consagra o brasileiro como um povo cativante. É uma deturpação atroz. Brasileiro é doutrinário. É doutrinado. Apela à ideologia, ao sentimentalismo, ao vitimismo, à força e demais fórmulas rasteiras de controle mental para chamar a atenção, despertando a curiosidade, no máximo, para idéias inconsistentes, criminosas ou imediatistas, que não transmitem conhecimento maciço a ninguém. Só trazem, ao contrário, dependência. Repare na platéia de um show musical: toda emocionada, cantando e aplaudindo canções que, levadas à vida pessoal ao pé da letra, só a farão chorar mais.
Brasileiro gosta… Se Cuba impõe o orgulho da pobreza, nossas escolas disseminam – com talento - o orgulho da ignorância. Cativar nada tem a ver com isso. Cativar é tornar química orgânica e história contemporânea matérias interessantes. Tornar economia um assunto palatável. Fazer uma criança gritar num domingo: “Pai, olha lá uma voçoroca!”. Cativar é escoar o conhecimento, é ensinar de fato sem se fazer sentir - sem o peso que isso pressupõe. E esse é o problema. Tirar o peso dá muito trabalho. Exige, antes, reconhecer a existência do outro - para então perceber seus sintomas, utilizar suas referências, penetrar em seu universo cognitivo, e ampliá-lo de dentro para fora.
Nisso, o brasileiro é terrível. Ele dissocia suas qualidades humanas de seu desempenho profissional; divide o conhecimento em categorias absolutamente independentes; liquida problemas complexos com soluções (diria Mencken) simples, claras e erradas (antiamericanismo, anticonsumismo, comunismo, esses sinônimos… - pretextos fáceis para se livrar do estudo: vide Lula, vide Jabor). Ele ignora toda forma de diálogo - o pressuposto do magistério e da arte. E vira carneirinho, servo, bocó - ou canalha. Se atribuir identidade às coisas, classificá-las, distingui-las, é condição básica para se criarem alternativas, aqui o pouco que se distingue certo – ou o muito que se distingue errado - guarda-se em arquivos isolados da mente (e da gaveta) até mofar. É um arquivista o brasileiro. Um arquivista ruim.
Neste círculo vicioso de burocratização mental, o papel do meio acadêmico tem sido extraordinário. O melhor exemplo recente é o debate universitário sobre a apresentação de textos ficcionais – romances, basicamente – como teses e dissertações nos cursos de pós-graduação em Letras – ao invés, digamos, da enésima “desconstrução” de Machado de Assis. Um debate tipicamente brasileiro. A maioria dos professores, quando não é contra, fica em cima do muro, como quem espera a orientação geral do rebanho para escolher qual caminho seguir. É a turma dos prós e contras, do relativismo… Estão apavorados diante da idéia de estudantes quererem ser lidos [úteis], e devem se perguntar em segredo: “Mas se querem ser lidos, por que vieram à universidade?”.
Eu não sou a favor de romances como teses em cursos de Letras. Eu sou a favor de romances, quadros, filmes, maquetes, máquinas, robôs, pontes, prédios, foguetes, estações espaciais e tudo mais quanto possa estimular a criatividade e a dedicação do estudante, em qualquer curso. Tudo quanto possa, depois, despertar a atenção de outros públicos, para além de uma banca. Isto não impede a explicação teórica, a distinção das ferramentas utilizadas, a justificativa e os objetivos (tão queridos no meio…) - a prova, enfim, de que o autor não psicografou a obra. De que pode ensinar à parte – com as contextualizações faltantes – sobre aquilo que pesquisou dois, quatro anos para fazer. O ditado “quem sabe faz, quem não sabe ensina” só contribui, de um lado, para o ardor recalcado com que os professores exclusivos defendem – e monopolizam – sua área contra a “invasão” de criadores; do outro, para o despreparo intelectual (e orgulhoso) de nossos artistas, cientistas e empreendedores.
Eu entendo. No almoxarifado brasileiro, “teoria” pertence ao Arquivo 257. “Prática” pertence ao Arquivo 568. As caixas estão em lados opostos do corredor - no prédio ao lado do lixão de teses –, e ai de quem quiser juntá-las. Nos Estados Unidos, faz-se de tudo para atrelar toda produção artística, tecnológica, intelectual, cultural, esportiva e de tudo mais à universidade. A Liga Universitária de Basquete é a verdadeira divisão de base da NBA. O templo das descobertas científicas são os laboratórios acadêmicos. Os grandes cérebros inovadores do mundo inteiro são disputados à tapa pelas reitorias. Há múltiplas parcerias nacionais e internacionais para abarcar teses e experimentos “multidisciplinares” ou grandiosos. Mas a gente não gosta dessas coisas.
Aqui, são raros os departamentos que descobriram o telefone. Se você quiser trabalhar numa tese sobre o acelerador de partículas que vai reproduzir o big bang, periga de ter que fazer uma dissertação para cada mestrado: física, química, matemática, antropologia, sociologia, filosofia, comunicação, e outros, fora uma pós na Igreja Universal para contra-argumentar o criacionismo. Cada um com seu cada um. Nos Estados Unidos, a universidade se vira para atender o potencial de alunos promissores – e vai achar especialistas em Marte se precisar de alguém mais qualificado para compor a banca. No Brasil, há quem se declare incapaz de julgar o trabalho – de enxergar, por exemplo, critérios de avaliação para obras criativas -, e passe a vez: “Vá fazer isso em casa, meu filho, para isso existe internet”.
E, como se a questão fosse menos de mentalidade que de nomenclatura, logo surgem os apólogos da segmentação, propondo a criação de cursos para escritores, cursos para fogueteiros, cursos para baloeiros… Já não basta o curso de jornalismo - a maior filial da Xerox? Uma infinidade de jovens dedicando-se a leituras de capítulos doutrinários, dispersos e auto-referentes, como se fosse útil – e possível - aprender “como” falar, sem aprender “sobre o que”? Qualquer dia aparece uma lei exigindo diploma para a publicação de livros e sistema de cotas editoriais para autores negros. Tudo que a máfia de sujinhos incrustada na universidade, na política, na cultura, nas delegacias, nos tribunais e até nos campos de futebol puder fazer para reprimir a sua (leitor) individualidade, seu desafio, a realização do seu desejo – e até a própria descoberta dele -, ela fará. Para condenar você ao status quo, escondendo todo o conhecimento – e as possibilidades - que a humanidade acumulou em alguns milhões de anos, também. O dunguismo é apenas a extensão futebolística da miséria moral da esquerda, que, secretamente ciente de sua incapacidade, apavora-se ao menor sinal de talento. Eles dizem: “Cuidado! Você está quase virando você! Por aqui!”.
O resultado de tanto parasitismo, e das ciências humanas entregues às baratas - da escola à pós, e ad infinitum -, é um país chinfrim, de pessoas desinteressadas, frouxas, trabalhando sem prazer, buscando-o inteiramente na vida social, entendendo a ambição como a grande inimiga, e o mais grave: incapazes de usar o método-Pim por pura falta de parâmetros. Elas buscam respostas para suas insatisfações nas mais diversas futilidades, como “se é loucura, então, melhor não ter razão”, “aja duas vezes antes de pensar” e demais bobagens - tidas por geniais - inoculadas em nosso ambiente público, do qual, aliás, poucos conseguem ou se interessam em se descontaminar, tamanho o sacrifício necessário para varrer da frente a imbecilidade reinante. Mas esses poucos existem, eu sei. Vale a pena encontrá-los. Estão por aí, brigando sozinhos contra ou dentro de instituições corrompidas, levando desaforos diários dos idiotas e tentando, através de seus trabalhos, estimular individualidades como a que tanto demoraram para encontrar e que lutam para manter.
Se eu me acho um deles? Claro! Carlos Andreazza escreveu certa vez um texto sobre a forma que eu – a partir dos 14 anos – gravava fitas (K7) de samba para cativar (catequizar, não) amigos e parentes. Eu a revelo aqui (e atenção, professores): entre pérolas (para eles desconhecidas) de Nei Lopes, Monarco, Mauro Diniz, Fundo de Quintal e sua turma, eu inseria – maquiavelicamente – músicas de Chico Buarque, Djavan, Gilberto Gil (Caetano, jamais) e toda essa gente sujinha abalizada pela mídia sujinha, e a cuja existência, enfim, dei alguma utilidade. Uma forma evidente de aproximar o samba do universo do ouvinte até alcançar as seguintes etapas osmóticas: 1) ele não perceber qualquer diferença de qualidade entre uns e outros; 2) ele perceber a imensa diferença de qualidade entre uns e outros, a favor dos sambistas; e 3) ele fazer suas próprias gravações para amigos e parentes. Resultado: o mercado cresceu, Zeca Pagodinho e Jorge Aragão ficaram milionários, o samba virou moda, as escolas de percussão se multiplicaram, as casas de show se renderam, e a Lapa (o único porém) se reconstruiu e se entupiu de sujinhos. Tudo – esclareço - por causa das minhas fitas. Eu sou o responsável.
[Depois eu vi que os sambistas eram todos sujinhos – mas isso não vem ao caso].
Importa que vieram os CDs, nossas produções caseiras continuaram circulando e se multiplicando por aí, espalhando pela posteridade o conhecimento sambístico, sem precisar da imprensa. Os outros conhecimentos, não. A universidade brasileira continua sendo um grande arquivo confidencial. Talvez a gente devesse chamar o Faustão.


Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 18:26
Boa estratégia, Pim, essa de apresentar o melhor do samba misturado às músicas dos “sujinhos”. Assim, como quem não quer nada, sutilmente, sem imposição. Quando a coisa é imposta, corre-se o risco do tiro sair pela culatra. Golpe de mestre!
PS: As letras do Chico, meu querido, não perdem em nada para as pérolas do samba. E tenho dito!
Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 19:09
Quero vc no lugar do Haddad!!!
Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 10:49
Apesar de algumas generalizações desnecessárias, o texto é ótimo! Fazia tempo que não gostava dos escritos do Pim. Este aqui é sublime. No mesmo nível da dissertação sobre as jabuticabas.
Acho que a essência da função do educador está bem descrita. E ela não é ruim, ao contrário. Substituindo a variável problemática (professores ruins) por pessoas que entendam e exerçam essa essência, tem-se aí o caminho para dias melhores.
Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 11:54
Interessante, Pim, muito interessante.
Não só as universidades sofrem desse mal. O problema começa nas escolas. Sempre achei que o corpo docente deveria fazer, com a literatura, o que você fez com suas fitas de samba. Os semi-analfabetos infantis não estão preparados para a genialidade de um Machado de Assis assim de primeira. Eles deveriam começarem por algum autor mais atual, e até menos eloquente, que tratasse de temas com os quais os aborrescentes e pirralhos se identificassem, para que eles fossem seduzidos pelo hábito de ler e aí sim, já fisgados, evoluíssem lendo Machados da vida. Quem sabe aí não seria hora de ler Tribuneiros? :)
Bjs,
Mari
Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 11:55
putz! cometi um erro terrível: “eles deveriam começar” e não “começarem” !!!!
Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 12:13
Mariana,
“O gênio do crime”, de João Carlos Marinho, deveria ser um dos primeiros livros na vida de qualquer criança.
Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 15:12
Mariana, com todo o devido respeito a esta Casa, continuo achando melhor as crianças lerem Machado de Assim.
Afinal, foi Machado que tornou possível os Tribuneiros.
Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 15:13
Machado de Assis, por favor, não “Assim”.
Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 16:37
Artigo fraquinhooooo…
Você deve ter trauma de professor ou foi seduzido por algum esquerdista.
Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 17:00
João Paulo, o indefectível “cousa” do Andreazza é machadiano puro, não?
Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 17:16
JP,
Não sei se sou a favor de nossas crianças terem contato com Machado tão cedo.
Obras que tenham mais aderência aos interesses infanto-juvenis podem ser mais úteis para solidificar o hábito da leitura.
A lembrança do Ivan do livro Gênio do Crime foi sensacional.
Estou com a figurinha do Rivelino repetida.
Alguem quer trocar?
Abs
Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 17:56
Leia para os pequenos “Conto de escola” - Machado de Assis - Eles deliram! Quem disse que não se deve começar tão cedo com o Machado de Assis é porque não tem noção da capacidade de uma criança!
Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 18:24
Teodoro,
Não é que eu tenha subestimado a capacidade de uma criança.
Mas o que costuma acontecer é uma desmotivação frente aos clássicos Machadianos.
Não sou contra a leitura de Machado de Assis na infância.
Apenas acredito que existem publicações que despertem com mais facilidade o gosto pela leitura.
Um pequeno que foi consumidor de Ruth Rocha aos 6, de João Carlos Marinho aos 10, com certeza absorverá com muito mais vontade e facilidade um livro de Machado aos 12, por exemplo.
Mas vc tem razão no seu ponto.
Acredito apenas que seja uma questão de encontrar um ponto ótimo acerca da entrada de Machado na vida literária de um indivíduo.
Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 21:41
Rodrigo,
Eu não acredito que a criança tenha uma tempo certo. Com 6 anos ela lê isto e, com 12 aquilo.
Desmotivação? Cabe ao professor o que o Pim escreveu:”ter o que dizer, e ser cativante…”
Falo que não acredito no “tempo certo” porque por alguns anos acreditou-se que a criança não aprenderia a ler se mostrasse à ela tudo de uma vez, por isso, o Caminho Suave, lembra?
Primeiro aprende a letrinha A, depois algumas palavras que começam com A, para só depois formar algumas frases!
Depois letra B e, assim, sucessivamente…
Vamos ler para nossos alunos: Machado de Assis, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Ruth Rocha e, tudo que a nossa literatura nos permite!
Assim, ele não chegará aos 12 anos e pensará: “Nossa, nunca me falaram na escola deste tal de Machado de Assis!”
abraços
Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 07:36
Teodoro,
Acho que você não entendeu o que eu quis dizer. As crianças têm que ler Machado de Assis na escola sim! Longe de mim dizer que elas não devem ler esse gênio. Confesso que não li o “Contos da Escola” então não posso opinar especificamente sobre ele, mas, o que digo é que, apesar de genial, Machado tem não só linguagem e expressões de outra época como relata costumes de uma época muito diferente da atual o que pode, num primeiro momento, não fisgar o interesse dos leitores-estreantes. É importante que as crianças conheçam na escola e, assim como nós, se apaixonem e se deixem influenciar por Machado, mas acredito que o despertar para o hábito da leitura deve começar por uma leitura de uma realidade muito parecida com a vida do pirralho em questão, pra ele se interessar. Escrevendo isso aqui agora até tive uma idéia. Ao invés de começar com o mesmo livro pra todos os alunos, acho que os professores poderiam identificar o perfil de cada aluno (se preciso fosse junto com os pais) e recomendar um ou dois livros de estréia para cada um deles. Por exemplo: como sempre fui muito curiosa, o primeiro livro que li, com 6, 7 anos, foi “Curiosidade Premiada”, de Fernanda Lopes de Almeida, escolha fundamental dos meus pais que me fez me apaixonar pela leitura. Mas além da iniciativa e incentivo, eles também davam o exemplo sempre com um livro a tiracolo, o que pesa muito na decisão de uma criança de começar a ler. Talvez o caminho esteja por aí. Além de selecionar criteriosamente a estréia de cada criança, é preciso envolver os pais nisso, talvez os fazendo lerem junto com a criança, sei lá… Já falei demais, Teodoro, até á próxima polêmica!
Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 07:37
ate a próxima polêmica, sem acento no á!!!!
Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 12:30
A escola nos persegue a vida inteira. A tia chata do ensino fundamental. O professor carrasco do ensino médio. O gênio perseguido e não-entendido da academia. São todos personagens de uma grande arena do saber. Arena porque a escola é, fundamentalmente, um lugar de disputa, de inclusão e exclusão de pessoas. A única forma de jogar o jogo e entender as regras. O artigo sobre “os arquivistas” ilumina um espaço obscuro da academia, resquício da década de 1970 talvez, onde muitos “perseguidos” ainda se escondem das garras do regime. Porém, escurece outro lado, nada obscuro, onde se encontra uma academia moderna, viva, interdisciplinar, transdisciplinar, composta por professores que são alunos e alunos que são professores. Livre para pensar, discutir e defender suas teses nada empoeiradas. No mundo de Pim o sistema é muito simples: existe o modelo Pim, os outros (sujinhos, encastelados, empoeirados, etc) e o outro mundo (quase sempre não-brasileiro). Esta articulação está presente em outros textos do talentoso escritor. É um bom sistema porque simplifica as coisas, mas é um mal sistema porque tira a voz e a vivacidade de todos aqueles que não são Pim, ou não estão no outro mundo. Isso sim é que é doutrina.
Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 14:32
Acho que antes de discutir o que os alunos deveriam ler, é preciso discutir que uma parte dos alunos simplesmente não sabe ler. Uma notícia divulgada recentemente revela que parte dos alunos matriculados regularmente em escolas públicas é analfabeta.
Tive a oportunidade (feliz ou infeliz) de dar “monitoria” para a turma mais fraca de uma escola pública ano retrasado, justamente composta por alunos que não sabem ler. Estes alunos tinham uma dificuldade tremenda de escrever uma (UMA) frase. Tentávamos levar aos alunos atividades didáticas, que tivessem relação com a realidade deles. Mas isso era uma vez por semana, em uma/duas horas de aula, e portanto tinha poder limitadíssimo.
Agora, quanto à formação universitária… Quer você queira, quer não, a forma como você desenvolve suas idéias (qualquer idéia) é fortemente influenciada por sua formação acadêmica. Ou você acha que seria capaz de encadear idéias da maneira como você faz apenas com o segundo grau completo? A menos que você fosse um excelente aluno auto-didata, muito provavelmente não. E acho que é essa a principal herança que um (bom) curso acadêmico deixa aos alunos, e que depois é aplicada de diferentes maneiras em suas vidas profissionais. Agora, sobre a produção de teses de doutorado e dissertações de mestrado: eu te digo que também não enxergo quase nenhuma importância neste tipo de “produção” acadêmica. Ufa! É isso.
Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 16:08
Rocha, esses termos “interdisciplinariedade” e “transdisciplinariedade” são os exemplos mais abomináveis do academicisimo… Vejamos o que diz sobre o tema uma mestre em Políticas Educacionais: “Temos então a interdisciplinaridade como um campo aberto para que de uma prática fragmentada por especialidades possamos estabelecer novas competências e habilidades através de um postura pautada em uma visão holistica do conhecimento e uma porta aberta para os processos transdisciplinares.”
(”Uma Postura Interdisciplinar”, Thereza C. B., Mestre em Políticas Educacionais. Vice-Diretora do Colegio Marista de Patos de Minas)
O mundo acadêmico merece todas as críticas que lhe foram feitas: é, sim, segmentado, burocratizado, exageradamente técnico, auto-referente, limitado; um celeiro de vaidades, arrogância e pseudo-intelectualidade. O acadêmico, por sua vez, antes de tudo, é um fingidor.
Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 17:56
“O acadêmico, por sua vez, antes de tudo, é um fingidor.”
Fernanda, adorei isso, não fossem os ótimos comentários, já teria valido a pena passar por aqui só pra ler essa pérola. (rs)
Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 20:06
Mais fingidor do que o poeta, Olga…
Segunda-Feira, 29 de Setembro de 2008, às 23:14
Brasileiro é doutrinado, sim. E não são poucas as vezes em que a sala de aula se assemelha a um culto religioso:quase sempre um lugar onde há silêncio obsequioso, um celebrante de pulso firme e assepsia moral, fiéis dóceis e um templo totalmente ambientado para que as ovelhas mudas, sentadas em cadeiras enfileiradas,recebam o “mistério”. O lamentável nisso tudo é que o mistério nunca deixa de ser mistério, já que o distanciamento dos conteúdos em relação ao que se vive é enorme. E lá vai o fiel, assistindo o culto por hábito e apatia até o final.Vida afora, se limitará a repetir, logo, não haverá buscas e nem erros.Só erra quem busca. Ou, no pior das hipóteses, muitos erros repetitivos e nenhuma solução. Inteligência não significa o não errar. É saber aproveitar e lidar bem com o erro. Assim foi com Edison e suas invenções, Newton com a gravitação, Wilmut com sua Dolly. Assim não será com o Brasil, onde a inteligência e a criatividade é abafada e quem nos representa mundo afora é o Zé Carioca. O Brasil é a terra dos papagaios.