por Escritor convidado - Quarta-Feira, 24 de Setembro de 2008, às 23:46
José Guilherme Vereza
Hoje não urinei nos pijamas. Já se faz sei lá quanto tempo que estou sentado nessa poltrona de chintz, contemplando a vida que me resta e os sonhos que me sobram. Poucos. Muito poucos para quem, se é que me lembro, tanto viveu. As falhas das memórias recentes gaguejam nos meus ouvidos. Claudicam lembranças mais distantes, onde me aparecem aos sobressaltos rostos se dizendo íntimos, conhecidos, freqüentes, mas agora, transeuntes de uma via sem mão-dupla, em direção ao ponto em que me encontro nesta sala. Ah, sim. A sala. Um amontoado de móveis embrulhados para presente por uma poeira protetora, quadros de algum valor habitados por aranhas, teias e mais teias ligando uns aos outros, até a objetos sobre o console, que ficaram por falta de importância ou por falta de espaço no baú de Martha. Ou Dora? Ou Laura? Ou Maria dos Remédios? Ou sei lá quem, que aqui esteve por um último pernoite e tudo me levou da carteira, além de raras preciosidades tais como poucos objetos de estimação, fotos e recortes da campanha da Itália, imagens de santos que me deviam milagres, roupas velhas de outras marthas. Ou de outras doras? Ou de outras lauras? Ou de outras marias dos remédios? Que, por desavisos, más intenções ou sórdidos interesses, aqui deixaram, na esperança que voltasse a abrigá-las entre os braços. Pobres moças. Se hoje sou uma carne de mulher alguma, jamais tinha sido de uma só. Jamais gostei de casamentos. Casei por osmose. Da turma de 41 da Academia Militar fui o último que resistiu à pressão da caserna pelo matrimônio social. Daí veio Aldina, a esposa. Que pouco durou. Como esposa e como gente. No frio da Toscana, imerso num buraco de trincheira, recebi uma carta tardia de minha cunhada. Aldina tinha partido. Mal súbito. Tão jovem e fraca, tísica na adolescência, beata na maturidade, frígida na cama. Do buraco em que estava, no frio da Toscana, nem uma lágrima, nem uma dor, nem um comentário ao pracinha ao lado. E no buraco fiquei. E nunca mais saí. Só troquei de buraco. Hoje, não mais uma trincheira. Mas uma poltrona que me protege das memórias que mais me assombram do que confortam. Lembranças longínquas de tempos para serem esquecidos, esquecimentos repentinos de momentos que também não merecem ser lembrados. Hoje não urinei nos pijamas. Ou urinei? Que líquido é esse que me escorre pela perna? Um refresco? Um mate? Ou o café quente? Não sei mais o que é tempo e temperatura. Martha não veio me socorrer. Ou teria vindo Dora? Ou Laura? Ou Maria dos Remédios? Ou sei lá quem se dispusesse a me velar em vida, enquanto dela me resta algum sopro. Gente, vozes, alaridos, prestimosidades, nada disso me interessa mais. Vejo, intrigado, uma taça cônica de dry martini repousando sobre o braço esquerdo da poltrona. Duas lembranças: uma, que fui canhoto. Outra, dos oficiais americanos me apresentando nas tréguas da Toscana - ou de Nápoles? ou de Bolonha? - uma mistura perigosa e gelada de gim e vermute seco com uma azeitona gorda dentro, espetada num palito. Mas se isso que está aqui no braço da poltrona é um ex-dry martini, onde foi parar a azeitona? Jamais suportei o gosto forte desta má bolota verde, que me remete a um capacete minúsculo e deformado, restos de um subtenente explodido ao meu lado. No inverno da Toscana. Ou no Vale do Pó? Com certeza, não me arriscaria a mastigar uma azeitona nunca mais na vida, ao menos para cuspi-la como bem merecem azeitonas, com o perdão de algum incauto passante pela Rua do Catete, lá embaixo, que abriga esse apartamento indigente. Presumo que alguém tenha bebido este dry martini na minha presença, sem que eu tenha notado. Martha? Dora? Laura? Maria dos Remédios? Improvável. Tinham horror a bebidas. Tinham pavor que me tornasse um alcoólatra, só para irritá-las a ponto de as colocar porta afora. Teria sido isso mesmo o que aconteceu? Por que nunca mais apareceram? Só porque fiz questão de enxotá-las? E por que levaram tanto a sério um militar? Tenho vaga idéia de que fui um militar, ah!, os buracos no inverno da Toscana, entre tiros e assobios de morteiros, estes, sim, só para contrariar minha condição de perdedor de lembranças, aparecem de quando em vez nos meus sonhos. Acho que achei a azeitona. Está aqui, intacta, caiu pelas braguilhas do meu pijama úmido e se acomodou entre meu finado pinto e meus bagos. Passo a mão e percebo: três colhões. Sim. Sou homem de muito colhão. Nunca tive medo de nada. Enfrentei a guerra como segundo tenente, voltei vivo e com todos os meus pedaços. Essa azeitona gorda no saco está fazendo o favor de me lembrar de coisas recônditas. Voltei da Itália e percorri a carreira na Cavalaria. Nada de trabalho. Só adestrando cavalos a pular obstáculos, comandando pelotões solenes dos Dragões da Independência. Ou Lanceiros de Bengala? Ou Cavalaria Prussiana? E assim fui a tenente coronel. Sem medo de nada. Nunca caí do cavalo. Mas aquela sombra atrás da cortina começa a contrariar meus destemores. Começa a me deixar apreensivo. Martha? Dora? Laura? Maria dos Remédios? O fantasma de Aldina? O ladrão que roubou meu dry martini? Ou até mesmo o intruso que preparou esse amálgama inflamável sem que eu tomasse conhecimento da sua presença? Além de desmemoriado, estou ficando maluco? Paranóico? Medroso? Com certeza, acabei de me borrar. O vulto que então me assustava acaba de quebrar a janela e entrar. Não estou entendendo nada. Porque alguém invadiria um quarto e sala no Catete, sem riquezas palpáveis, muito pelo contrário, um amontoado de pobres pensamentos e recordações? Pois não, meu amigo, o que deseja de mim? Acho que ele é surdo. Olha para o meu rosto como se me conhecesse. Fecho os olhos com medo de reconhecê-lo. Eu sabia que, um dia, um deles havia de me aparecer. Teria sido algum dos inimigos da pátria, de quem arranquei confissões? Não. Não é possível que minha memória seletiva tenha escolhido para este momento recordações indesejáveis de missões além das baias da cavalaria, que me fizeram ganhar medalhas como patriota e promoções como prestador de bons serviços. Ótimos serviços, se querem saber. Desbaratei aparelhos, desatei novelos subversivos, encaminhei corpos às profundezas do mar, desmascarei codinomes, salvei a Pátria Amada de maus brasileiros, dei por quitada minha gloriosa participação de soldado da circunstância, do regime de exceção. E agora vem este sujeito sem rosto e sem voz me cobrar as contas, lembrar que ainda tenho vagas memórias insepultas. Está certo, meu caro intruso. Lembro de um superior aos berros exigindo de mim que exigisse daqueles homens nus pendurados de cabeça para baixo as razões de eles estarem ali, postas de carne e sangue, aos gritos e gemidos. Por que estavam ali? Por que não diziam por que estavam ali? Por que não cooperavam? Por que gostavam tanto de choques, tanques de águas sujas, pauladas nos rins? Deveria ser muito bom tudo isso. Quanto mais silenciavam, mais pediam que se intensificassem as técnicas de obtenção de confissões. Estranhas criaturas… Resolveriam-se com simples palavras ditas, mas gostavam, gostavam, gostavam de apanhar, gritar, gemer e xingar minha honrosa farda. Agora, sim, sei o que este vulto está fazendo na minha casa. Deve ser algum deles, tentando alguma confissão de mim, preso a este pau-de-arara de chintz, incapaz de gemer ou gritar, já que perdi a faculdade da indignação e da locomoção ao longo desses inúteis tempos de vida e más recordações. Onde está Martha? Ou Dora? Ou Laura? Ou Maria dos Remédios? Por favor, apareçam. Esclareçam a esse senhor que o tempo passou e que, anistiado do jeito que é, não deve cometer o crime de se vingar de um não anistiado pela consciência. Que consciência? De que sou canhoto? De que tenho um dry martini esparramado pelo meu pijama? Ou será urina? Urina com uma azeitona gorda, por mais débil que seja minha memória, juro que nunca vi. Nem nas tréguas da Toscana. Ou em Nápoles? Ou em Bolonha? Muito bem, meu amigo, se deseja algo de mim, que seja agora. Que o vejo com compaixão e simpatia. Não me lembro do seu rosto, reconheço suas feridas. Fique à vontade. O apartamento é todo seu. Os móveis e objetos nada significam, tanto que lhes entrego à sua serventia. Iiiiiissssso. Comece pela velha cristaleira. Que se espatifem os cristais janela abaixo, bem como as louças que Martha. Ou de Dora? Ou de Laura? Ou de Maria de remédios? Ou da falecida Aldina? Sempre discorreram elogios sobre a qualidade destes pertences, como se um dia a elas fossem pertencer. Pobres coitadas. Se estivesse aqui, veriam a pretensa herança voar à Rua do Catete, assim como minhas roupas, minha farda, meus retratos da Toscana. Ou Bolonha? Ou Nápoles? Meus quadros, minhas bebidas, minhas panelas. Agora, mulheres, vejam vocês, lá vai o sofá onde tanto nos amamos. Meu algoz é um touro. Com apenas um braço faz o mobiliário levitar. Meu algoz é um mágico. Transforma tudo em chuva de cacos sobre os incautos da Rua do Catete. Meu algoz é elegante. Faz seu serviço sem palavras. Nada de agressões ou xingamentos. Agradeço o respeito. Como agradeço o paradeiro que dá a tantas inutilidades. Quem vai reclamar do abajur que agora voa? Quem vai clamar pelas bugigangas engavetadas? Medalhas de honra ao mérito, rebenques, insígnias? Os anjinhos de Sèvres saqueados. Meu deus. Lembro que eu fiz isso numa casa arruinada nas margens da Rota 66. Ah, aqueles audazes meninos que sentavam a pua, quanta prataria nos proporcionou, quantas memórias foram postas abaixo com suas bombas jogadas das nuvens, assim como as poucas que me restam são atiradas pela janela e se misturam com o lixo da Rua do Catete. Acredito que nenhum passante se interesse pelo que cai sobre suas cabeças, a não ser a indignação de ter a calma afobada da rua interrompida por bólidos em forma de sofás, objetos, porta-retratos, tapetes, colchões, travesseiros - quantos gansos em vão. Esse meu visitante é mesmo estúpido e ressentido. Só porque cumpri minha missão sobre seu corpo tempos atrás, me vem agora remexer as feridas? Não se perca em vinganças, meu amigo. Faz um favor em me desmanchar homeopaticamente. Tenho simpatia pelo seu gesto. Martha ou Dora ou Laura ou Maria dos Remédios ou a finada Aldina jamais me fariam tal gentileza. Limpariam a casa, sei, mas em benefício próprio, e montariam um bricabraque de objetos desmemoriados em feiras de antiguidades sem valor. Vamos, rapaz. Antes de jogar fora o quarto todo, verifique se minha espada de cadete ainda está por lá, em pé, no fundo do armário. Pois então. Ao desembainhá-la, verifique se não criou ferrugem. Limpe-a. Se não há bombril, passe a lâmina pelos pentelhos. Os seus, imbecil. Uma vez disse isso a uma empregada, que memória! A pretinha de bunda arrebitada ficou tão estonteada com a possibilidade de substituir bombril pelas suas anatomias peludas que se rasgou toda e, aos faniquitos, gritava da janela: “Me tirem daqui!!! Esse velho é doido!!! Socorro! Chama os bombeiros!!! Quero chupar o pau de um bombeiro!!!!” No início fiquei assustado com a reação. Dei umas bolachas nela. Mas depois, ao vê-la seminua, semi-rasgada, jogada no tapete, fiquei com pena. Martha nunca pediu que lhe apagasse um fogo tão entranhado assim. Ou Dora? Ou Laura? Ou Maria dos Remédios? Nenhuma delas, certamente. Nenhuma jamais me suplicara uma felação. Coisa nojenta, diriam todas. Só para terminar a história, antes que a desmemória me assalte, levaram a empregada na camisa de força, indignada: “Eu queria um bombeiro!!! Não gosto de enfermeiros!!! Socorro!!!” Meu algoz nem piscou para minha história. Não está interessado. Embora estático, sei que quer mais de mim. Olha o apartamento em volta. Vazio e inexpressivo. Sem história nem histórias - ele não acreditou na ficção da pretinha. Era só para entretê-lo, nada mais. Imaginem se eu teria memória para tanto detalhe. Acompanho o seu olhar até onde posso. Presumo que não veja mais nada, como não vejo nada mais que eu nessa poltrona de chintz. Não existe espada, meu rapaz. Não existe passado, não existem Martha, Dora, Laura ou Maria dos Remédios. Não existem a FEB, os Dragões, nem os porões. Não existe o que mais poderia existir. Não existem contas a acertar. Você venceu, nós empatamos, ninguém perdeu. Ou todos perderam. Parece que ele está me compreendendo, enfim. Estico a mão em direção à dele. Um cumprimento? Que seja. Ele se ajoelha diante de mim. Agradeço a deferência. Ele põe a mão no bolso, tira um alicate. E celebra o fim do seu serviço começando por me extirpar as unhas. Nem gritar eu grito.
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Para ler mais textos de José Guilherme Vereza [e saber mais sobre o autor], visite o excelente blogue 30 segundos - aqui. E procure também conhecer o livro 30 segundos - contos expressos.
O conto Desmanche integra uma nova coletânea, inédita, já no prelo.


Quarta-Feira, 24 de Setembro de 2008, às 12:21
adorei a nova parceria!!!! parabéns ao zé e aos tribuneiros!!!!
bjsss
Quarta-Feira, 24 de Setembro de 2008, às 15:49
Recebi não faz muito tempo a recomendação desse blogue. Entrei e, quando li os perfis dos autores, tasqueio-o no meu “Favoritos”. Agora, vocês o indicam, como esse mundo internético é pequeno!
Quanto ao conto, que desmanche curioso e bem escrito! Para este torturador, até os santos eram devedores. Que cousa! Gostei pacas de ler um torturador se f. na minha frente.
Quarta-Feira, 24 de Setembro de 2008, às 19:22
Odiei.
Texto digno de publicação em alguma edição especial da Caros Amigos.
Mas a parceria é válida. Fico curioso para ler mais.
Entrarei no 30 segundos já que a Olga estendeu tào merecedoras referências.