por C.A. - Terca-Feira, 9 de Setembro de 2008, às 12:10

É uma questão meramente esportiva e pessoal: jogos paraolimpícos são chatos demais.
Permitam-me, porém, algumas reflexões importantes a respeito…
O Brasil, percebo, ufana-se de sua monumental delegação paraolímpica. São centenas de atletas nacionais, boa parte deles [a grande maioria] deficiente em decorrência de falhas [de negligência] no sistema público de saúde.
Enquanto no mundo civilizado os atletas paraolímpicos [deficientes, registre-se, em conseqüência de fatalidades urbanas, acidentes de trânsito por exemplo] escasseiam progressivamente, o Brasil, com hospitais sucateados e medicina preventiva nula, é uma potência paraolímpica em orgulhoso crescimento.
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O caso [constrangedor] do nadador paraolímpico brasileiro Clodoaldo Silva é tão nebuloso quanto nebulosos sempre serão quaisquer critérios que pretendam classificar a deficiência de um atleta.
(Pensando friamente, o leitor me responda: qual é o critério, por exemplo, que impediria o genial Garrincha de ser, caso assim desejasse, em vez de um profissional, um futebolista paraolímpico)?
A quem interessar possa, Clodoaldo, campeão absoluto na categoria S4, foi elevado à S5, para atletas com menor grau de deficiência, e reclamou.
Não me restam dúvidas de que o atleta foi prejudicado e violentamente exposto - falha, grave, de quem o classificara erradamente e falha, maior ainda, de quem o reclassificou às vésperas destes jogos de Pequim.
Mas…
A reclamação-reação de Clodoaldo me soou estranha, devo admitir. Muito estranha. Desproporcional. Exagerada… Afinal, atestou-se, ainda que de modo enviesado [e mui pouco habilidoso], que a sua deficiência é de fato menor e que ele, assim, teria mais possibilidades [oportunidades profissionais] para um futuro fora das piscinas - o que é [seria] uma ótima notícia, sobretudo num país poderosamente desigual como o Brasil.
O incômodo público de Clodoaldo - e este é o meu incômodo - soou estranho também porque, de alguma maneira, pareceu-me que, em vez de decorrer do desrespeito de que foi inegável vítima, deveu-se ao fato de, esportivamente [?], a elevação de categoria lhe tolher as chances de medalha.
Ou estarei absolutamente errado?
De todo jeito, para que a preguiça do politicamente correto não nos cale jamais, está proposta a discussão.


Terca-Feira, 9 de Setembro de 2008, às 13:20
Andreazza, como leigo dos critérios usados na classificação dos atletas paraolímpicos, sempre achei estranha a brutal diferença entre Clodoaldo e os adversários.
Lembro bem, em Atenas, ele competiu - e venceu facilmente - com um atleta que não tinha os dois braços e uma perna.
Ora, posso estar completamente enganado, o Clodoaldo me parece não ter grandes defeitos no tronco e nos braços (sendo inclusive bastante forte).
Deve ser justa esta troca de “classe”…
Terca-Feira, 9 de Setembro de 2008, às 13:37
A questão não é se a mudança de categoria foi justa, J.P. (Nós achamos que sim). Mas: o modo, desrespeitoso, como se deu, e a maneira como ele a recebeu.
Em todo caso, é problema delicado de se abordar.
Terca-Feira, 9 de Setembro de 2008, às 13:51
C.A., não deve ter sido sua intenção, mas creio que acidentes de trânsito não são, ou não deveriam ser, fatalidades cotidianas. Haja visto a situação brasileira, na qual mais pessoas são mortas e mutiladas, anualmente, do que em muitas guerras. Aliás, quase todos os atletas da seleção masculina de vôlei sentado têm suas deficiências por conta de acidentes de trânsito.
E essa relação entre deficiência e pobreza é muito interessante. A glória de alguns paraatletas brasileiros tem origem justamente em condições precárias de vida. Entretanto, é verdade que as delegações de países desenvolvidos estão diminuindo?
Terca-Feira, 9 de Setembro de 2008, às 13:59
Não é que estejam obrigatoriamente diminuindo, Ivan; mas não estão, certamente, aumentando…
“Fatalidades cotidianas”, se me explico, são aquelas não originárias do nascimento - e não decorrentes de negligência no atendimento médico.
Um acidente de automóvel, infelizmente recorrente, é uma “fatalidade cotidiana” - e inclusive pelos dados que você apresentou. Em todo caso, mudei a expressão para “fatalidade urbana”. Que é mais precisa. Ok?
(Em tempo, Ivan: você não tinha um blogue?; e qual é o endereço, por favor)?
Terca-Feira, 9 de Setembro de 2008, às 14:07
Andreazza, não imagino de que outra forma poderia ser feita a reavaliação do Clodoaldo. Confio que nesses casos quanto mais direto, melhor.
A reclamação me parece preocupação com a própria capacidade do que sentimento de injustiça.
Terca-Feira, 9 de Setembro de 2008, às 14:11
Garrincha não poderia ser futebolista paraolímpico porque, até o momento, nas Paraolimpíadas, há apenas futebol para cegos e para paralisados cerebrais.
A questão do Clodoaldo, acho, é mais complexa. Ele não fez parte da classe S4 durante anos por erro prévio em sua classificação. A classificação funcional de atletas paraolímpicos é complexa e rigorosa. Seria inimaginável um erro desses durar anos.
No entanto, os resultados espantosos de Clodoaldo na S4 é que despertaram a dúvida: ele é muito bom ou apenas está na classe errada? E, mais interessante: será que ao evoluir tanto, como Clodoaldo fez, um atleta paraolímpico deve ser reclassificado por ter se tornado muito superior a seus concorrentes?
Por exemplo: será que seria justo o judoca cego Antônio Tenório, que acabou de conquistar o tetracampeonato paraolímpico, passar a lutar contra atletas com baixa visão?
É como os que dizem que Marta jogaria de igual para igual contra homens. Não jogaria. Ela é muito superior em relação a suas colegas, desequilibra, mas não teria chance no masculino. Isso faz dela uma fraude? Claro que não.
Isso tudo sem contar, claro, os interesses escusos de outros países em não ter que enfrentar Clodoaldo na classe em que é mais forte. Sim, se há jogo sob os panos nas Olimpíadas, porque não haveria nas Paraolimpíadas?
Por fim, não vejo nada de mais na revolta dele. Sim, ela é movida, principalmente, porque suas chances de medalha foram praticamente descartadas. E daí?
Terca-Feira, 9 de Setembro de 2008, às 14:15
Tinha um blog, sim, C.A.. Mas, lamentavelmente, não o atualizo há meses (ou anos?). Nem sei se vale a pena acessá-lo. Em todo caso, coloquei o endereço aí no meu nome.
Terca-Feira, 9 de Setembro de 2008, às 14:25
E daí, simplesmente, que ninguém fala disso, Ivan. Do que, na verdade, está por trás da reação dele. Que bom que nós, aqui, falamos, livres do temor politicamente correto. Só isso. A cobertura do assunto estava, como dizer, capenga… Ou não?
Sobre o Garrincha, Ivan, por favor, leia a minha reflexão carregando-se menos de informações objetivas, uma vez que não sou jornalista, que não faço jornalismo - e que não tenho compromisso algum com a exatidão, você bem sabe disso.
Abraço!
Terca-Feira, 9 de Setembro de 2008, às 14:29
Ivan, acho que você deveria revitalizar o teu [excelente] blogue. Por que não? A internet anda tão pobre de bons textos… Você reabriria mais um bom espaço de leitura e discussão na grande rede. Muda um pouco o visual da coisa e bola pra frente. Afinal, lavou tá novo - né?
Terca-Feira, 9 de Setembro de 2008, às 14:45
Desculpe por levá-lo ao pé da letra, C.A., hahaha… Evidente que você não estava sendo sério ao escrever sobre o Garrincha nas Paraolimpíadas. Ingenuidade minha.
Quanto ao blog, obrigado pelo incentivo. Sempre penso em reativá-lo, mas o tempo… Quando o fizer, se o fizer, avisarei.
Terca-Feira, 9 de Setembro de 2008, às 02:48
eu tenho medo de opinar…uiuiui
Terca-Feira, 9 de Setembro de 2008, às 17:37
Andreazza,
É sempre bom ler seus comentários e saber que ainda existe espaço pra quem não tem medo de ter opinião.
Terca-Feira, 9 de Setembro de 2008, às 22:35
Obrigado, Pian. Esta Casa serve para que se fale.
Abraço imperiano!