por C.A. - Quarta-Feira, 3 de Setembro de 2008, às 12:22
Eu lhe neguei a humanidade de imediato, logo depois de me decidir pelo silêncio, uma vez que me abordara assim – num banheiro público: “Sinceramente, preferes mijar ou foder pela manhã”?
Claro, não lhe perguntei se vinha de foder – e não lhe perguntei coisa alguma, bem entendido. Fato é que mijava, ao meu lado – e era de manhã.
Ele disse: “Sim, claro, acabei de foder. Naturalmente, não entrarei em detalhes com um estranho. Moro nas redondezas”…
(Eu estava, confesso, atônito; cogitava se não me tinham armado uma peça; lamentava que ocorrências como aquela me perseguissem tanto; lembrei-me então da passagem entre Fitzgerald e Hemingway e temi por quê, mostrando-me o pau a qualquer momento, questionasse se o julgava de bom tamanho, no que ele seria Fitzgerald e eu, Hemingway; eu que sempre preferi Fitzgerald; aventava se, em seguida, matar-me-ia ou se simplesmente mijaria sobre mim; admitia que talvez preferisse o mijo; e ao mesmo tempo considerava o absurdo daquele sujeito desconhecido me contar sobre suas preferências sexo-urinárias matinais, no entanto advertindo-me para que, ora!, não entraria em detalhes).
“Há algo de fantástico na estrutura do pênis, não te parece? Especificamente de manhã… O pau é um fingidor. Um excêntrico, meu caro. Acordamos com a vara dura, podemos ter a mulher mais gostosa na cama – e é mijo. Antes e acima de tudo, mijo. Outra coisa: já lhe ocorreu considerar a engenharia – inteligentíssima – dos canais penianos? Já lhe ocorreu que, se fodemos pela manhã, já que o mijo é certo, nada mais fazemos senão testar as possibilidades – a saúde – de nossos vasos escrotais? Resta tão pouco espaço e, ainda assim, transitam ali, sem maiores congestionamentos ou choques, sêmen e urina, cada um à sua vez, embora sejam conhecidos casos de homens que ejaculam e mijam ao mesmo tempo – para, dizem, prazer incalculável deles e, sim, delas também. Não é fantástico? Já experimentaste?”
Estendeu-me a mão. “Guilherme Caracala, satisfação”.
********
Deve-se desconfiar de quem oferece a mão para cumprimentar um sujeito ao lado do qual se vem de urinar. É gesto que extrapola a franqueza. (E não importa que os dois acabassem de verter: não há igualdade nesses termos).
“Você tem lepra”? – perguntou-me. “Sofre de alguma doença de pele? Sinceramente, não vejo outro motivo para tamanha deselegância… Já sei: é hipocondríaco? Tem mania de limpeza, decerto; não toca em estranhos? Domino tudo sobre sua fobia… Nascido em tradicional família de hipocondríacos, se os quero afastar, tusso – ou espirro. É batata”!
E tossiu. Uma, duas, três vezes – tossiu, aproximando-se, projetando-se. Disse, definitivo: “Você não é hipocondríaco!” (Olhou-me). “Temos algo em comum” – e pousando a mão em meu ombro: “Não é auspicioso”?
********
Aquele tipo desconhecido falava sem cessar e mesmo me tocava, tínhamos o improvável por cenário, eu especulava sobre se encontraria a morte ou, com sorte, o norte do mijo alheio etc. – e ainda assim lhe respondia termo a termo, como se num jogo, intimamente instigado pelo constrangimento de também possuir os meus paladares urinários matinais…
Quem não os tem? – eu pensava.
Eu sinto fragoroso prazer em segurar o mijo ao máximo, em represá-lo, em retardar-lhe o fluxo horas a fio, naquele estado de estupor entre o sono e o desperto, para posterior e extensa urinada, vigorosa mijada, o pau ainda duro, depois borrachudo e progressivamente flácido…
Eu prefiro foder. É claro.
Eu prefiro foder – independente de ter trepado há uma hora ou há quatro meses.
Mas: por que diabos teria de optar entre mijar e foder, se posso fazer ambos? Que sorte de mente me cobraria tal hierarquia? Eu mijaria antes. Foderia depois – e que se foda este cara. Talvez, por que não?, fodesse antes – para experimentar, para variar. E daí? (Em que momento eu terei permitido que este tipo me falasse aquelas coisas de foder e mijar e me fizesse aquelas perguntas)? (Em que momento a minha presença – tão silenciosa – teria lhe permitido discorrer sobre paus e mijos)?
Deveria eu lhe perguntar agora se é casado ou alguma coisa assim, normal, cavalheiresca? Era o que ele esperava?
Eu também moro nas redondezas – e mijo
Creio que quem pensa não faz. É isso. Quem pensa demais… Quem pensa na hora… E isto servirá especialmente para o pênis. Quem pensa não fode. É a regra. Sei do que falo. Sou vítima bissexta do pensamento. Quem pensa não fode… Sexo é cabeça vazia. É o bicho homem, como dizia um meu amigo antropólogo… O pau deve ser usado. Para foder. Para mijar. Para os dois ao mesmo tempo, sei lá… Usado. Não pensado. Usado. Não teorizado. Aquele sujeito, contudo, um desconhecido, questionava sobre minhas impressões acerca da estrutura do pau, dos canais penianos, versava a respeito da estrutura de uma pica, assim como se me pedisse as horas; como se me pedisse as horas e, ato contínuo, discorresse sobre a engenharia, curiosa, de um relógio…
E então me estendeu a mão: “Guilherme Caracala, satisfação”.
********
Leproso, hipocondríaco, obsessivo compulsivo…
Àquela mente obscura era inadmissível que eu não apertasse a mão dum estranho – e sequer a do meu pai, se ele viesse de mijar. (E eu o soubesse).
Simples assim.
Não me incomoda a tosse alheia, as propriedades da tosse, as bactérias – não. Nunca. Incomoda-me, antes, que a tosse seja produto dum desconhecido que se aproxima na enviesada intenção de me diagnosticar. De me testar.
A que ponto cheguei?
Respondo: a mão de cujo aperto recusei, desconhecida e indesejada, ora repousa em meu ombro, fraternalmente. Não é auspicioso?
********
Fui criado e moro – e trabalho – com um pai que, há 26 anos, só me faz favores.
Tenho 26 anos.
A que ponto cheguei? – eis a minha questão. (E eu a posso desfilar em tantas versões; tenho um repertório tão grande de variações para ela – a conferir)…
Houve o tempo em que aos que me chamavam de acomodado eu contrapunha desaforos – e eles sempre estiveram certos. Eu sempre soube disso – e lhes contrapunha desaforos. Acomodei-me, é verdade. E desta forma – outra verdade, serão muitas – lubrifico a engrenagem que me sustenta: mantenho-me abrigado, aquecido, vestido e alimentado sob a sólida estrutura de tudo o que desprezo. É o imperativo da sobrevivência. O meio para… Engulo os sapos todos porque, quero crer, sei o que desejo e o que desejo já vem – mês que vem, se me faço preciso.
Eu me valho das brechas.
Desenvolvi pavor absoluto por pedir e, no entanto, pedir é só o que faço. Eu peço o meu salário. É um favor que meu patrão me faz. O meu pai. Todos o recebem automaticamente, no dia programado, mas eu o devo lembrar de que é data de pagamento e fazer soar como se me fizesse uma benemerência – uma caridade, por favor. Uma exceção. E assim o faço. Todo mês, como se a minha remuneração fosse mesada. Melhor que ensaiado. Preenchendo as brechas da culpa dele, talvez… E ele assina o cheque com fastio, sôfrego, refletindo, queixando-se de que os negócios não vão bem, a cada dia piores, de que ele está em dificuldades, são tantos os pesos, profundas dificuldades, para, então, grave, erguendo a vista para mim, asseverar que, apesar de tudo [apesar do peso que sou?], nada me faltará. E sorri sem dentes.
É o ritual de lhe definir caráter: aquele que remunera onerando.
É o ritual de me definir caráter: o que aceita e se espalha, preparando-se.
********
“Não é auspicioso”? – repetiu, elevando o tom, enquanto tirava a mão de meu ombro e me aprofundava o olhar. “Eu sou um otimista, meu caro. Procuro a convergência – o encontro. A graça. Tenho a minha porção bombeiro… Cafona… Tudo o que é humano me interessa! Achas isso ridículo, não é?” – e me olhou como jamais até então. “Não importa. Achas que sou louco, não é? Desses que falam com todo mundo, em qualquer lugar, para, quem sabe, afinal falar consigo – não é? Ah… Sou otimista, tenho, do meu jeito, fé nas pessoas, na humanidade, e acho que aí está a minha diferença, a minha solidão, a verdadeira solidão, e a minha chance, talvez. Sou naturalmente assim e”…
(Silêncio).
“Sou escritor” – completou, afastando-se.
Você lê? – perguntei, depois de o mirar pela primeira vez, à vera.
“Você fala” – ele replicou, mais debochado que surpreso.
Escritores devem ler… Um escritor deve ser um leitor. Sobretudo leitor.
“Concordo. Mas… E você, o que é”?
Escritor.
(Olhamo-nos – e era já sob nova perspectiva)…
“Ora, veja a que píncaros vai a literatura nacional: dois escritores se encontram no banheiro, de braguilha aberta, em inequívoca demonstração de vigor da ficção brasileira… Já sei: és mais um blogueiro?”
(Eu ri, sem som). (Ele, também). (E então: gargalhamos).
[…]


Quarta-Feira, 3 de Setembro de 2008, às 13:27
Sensacional.
Quarta-Feira, 3 de Setembro de 2008, às 14:15
Genial, não pode, eu sei. Então, vamos lá: a longa espera pelos escritos é nada diante de uma ficção dessa natureza. Pode?
“mantenho-me abrigado, aquecido, vestido e alimentado sob a sólida estrutura de tudo o que desprezo”, Álvaro de Campos morreria de inveja disso.
Quarta-Feira, 3 de Setembro de 2008, às 14:23
Você, Olga, com esta frondosa generosidade, pode tudo - e eu te agradeço.
Em tempo: quem é este tal de Álvaro aí, este que me invejaria? (Hehehehe)!
Quarta-Feira, 3 de Setembro de 2008, às 14:31
Muito foda, foda mesmo, foda demais, o texto!
Quarta-Feira, 3 de Setembro de 2008, às 14:33
É um velho amigo, você não conhece, não!
Quarta-Feira, 3 de Setembro de 2008, às 14:49
Obrigado, meu bom [e saudoso] amigo Bezerra!
Quarta-Feira, 3 de Setembro de 2008, às 15:15
Grande Bezerra!
Quarta-Feira, 3 de Setembro de 2008, às 16:08
Grandes amigos, com certeza! Grande saudade, mais que tudo!
Quarta-Feira, 3 de Setembro de 2008, às 22:05
Carlos,
Você encontrou com Nelson Rodrigues no banheiro? Já o vi (o li) também comparando o gozo ao mijo, e pra mim fez (faz) todo o sentido. De qualquer forma seria um encontro espetacular.
Excelente essa sua série de fragmentos!
Quarta-Feira, 3 de Setembro de 2008, às 00:13
Paula, não encontrei com o Nelson. Infelizmente.
Obrigado pela leitura bacana!
Quarta-Feira, 3 de Setembro de 2008, às 01:08
Muito bom, C.A! Como já disse à Bruna e ao Pim, sinto muita falta da coluna da direita.
Adorei a parte “Quem pensa não faz… Quem pensa não fode”. Esse é um dos grandes males da humanidade. Pensa-se muito e fode-se pouco. Assim, multiplicam-se os mal-amados e mal-fodidos que, para descontar a raiva de suas vidas sem foda, literalmente fodem com a vida de quem fode mais do que pensa e por isso é feliz. Nossa, que reflexão profunda!
Bjs,
Mariana
Quarta-Feira, 3 de Setembro de 2008, às 15:26
Concordo plenamente com você Mariana, as pessoas que fodem com a vida dos outros (ou tentam pelo menos) são as pessoas mal-fodidas e, portanto, infelizes…