por Felipe Moura Brasil (Pim) - Terca-Feira, 2 de Setembro de 2008, às 04:09
Alguns meses atrás, Ali Kamel escreveu um artigo sobre o documentário Garapa - antes de seu lançamento - fazendo ressalvas à premissa do diretor José Padilha [de Tropa de elite]: a de que as três famílias retratadas no filme eram exemplo de 11 milhões de pessoas que passam fome no Brasil, e que o Bolsa Família era a solução. Kamel provou que a fome é uma tragédia sim, mas na casa das centenas de milhares, nunca na dos milhões. E que o Bolsa Família seria muito melhor se distribuísse mais dinheiro (per capita) somente a quem precisa, e investisse o resto (do valor bruto) em educação. Num artigo-resposta de meia-tigela – evidentemente demolido, na tréplica, por Kamel (isto é, pelos fatos) -, José Padilha o acusou de inaugurar a “crítica preventiva” no Brasil.
Eu sou a favor da crítica preventiva. De preferência, sem grandes esforços. Em Minority Report, os paranormais precogs prevêem assassinatos, geram suas imagens no computador, e a equipe de policiais de Tom Cruise sai em busca do pré-criminoso. Eu jamais perderia meu tempo correndo atrás de cineastas. Sempre que meus precogs me mostram os filmes que eles estão prestes a cometer, eu deito no sofá, analiso umas imagens, e antecipo as críticas. Artista é como atleta ou político. Quanto mais cedo se criticar, melhor. A função do crítico, diga-se, é a mesma dum médico comum - dum clínico geral. Ambos dão apenas diagnósticos da realidade (ou seja, apontam as conseqüências – o futuro - de tudo continuar assim), mas quem vai tomar o remédio (ou não) é o paciente. Quem vai produzir o remédio (ou não) é a indústria. Quem vai ajudá-la (ou não) é o governo. Se todos só espernearem contra o médico, azar o deles.
Antes das Olimpíadas - no Soneto ao Flamengo e na crônica Pode rir, Dodô -, diagnostiquei e antecipei as amareladas nacionais, usando a dupla Fla-Flu como exemplo. Eu não gosto de me gabar das minhas críticas preventivas. Eu adoro! Sobretudo se, por causa delas, me chamam de rancoroso, racista, invejoso, pedante, arrogante, infeliz, pobre de espírito e demais banalidades típicas da nossa culturazinha passional. Brasileiro é tão incapaz de se olhar de fora e fazer análises objetivas desprovidas de sentimentalismos bocós que, quando se depara com uma, fica logo ofendido. Mesmo que os fatos estejam na mesa. Mesmo que a sinopse esteja escrita. Mesmo que sua mulher esteja na cama com outro. Fora das ciências exatas, a razão e a lógica são muito malvistas no Brasil. Décadas e décadas do sentimentalismo mais rasteiro – mais sujinho - no esporte, no cinema, na literatura, na música, na política, na educação, no jornalismo e em todas as áreas que constituem a subjetividade do cidadão acabou por torná-lo um completo idiota.
“Mas qual é o problema de ser um completo idiota”? O Pim-sicólogo explica. As escolhas externas de um idiota, naturalmente, não refletem seus desejos internos. Sua distorção mental é tão grande que, ao desejar uma feijoada no Império Serrano, ele escolhe uma noitada na The Week. E assim vai, sempre escolhendo mal (programas, amigos, empregos, presidentes, amores etc.), cada vez mais angustiado e revoltado, sem saber (e sem querer saber) por quê. Seu sincero desejo é não entender absolutamente nada. É seguir errando, sofrendo as conseqüências, colocando a culpa em terceiros – e ai de quem lhe disser a verdade. Brasileiro – para se ter uma idéia – ainda acredita no amor incondicional, o sentimento puro capaz de unir culturas díspares e abrir as portas do paraíso, onde ele poderá deitar em sua rede, nas noites claras de luar. “Mas eu gosto dela!”, ele alega, como se um simples sentimento bastasse para legitimar – e sustentar - uma escolha. Se ele gosta, faz. Se ele ama, vale a pena.
Nada mais comunista do que isso. O comunismo, ao legitimar suas atrocidades presentes – e, claro, ignorar as passadas - a partir de um argumento futuro - o da sociedade utópica, ideal – nada mais faz senão colocar nas costas de um sentimento – de uma ideologia, de uma esperança – a responsabilidade por todos os seus atos. (Não por coincidência, toda a campanha de Obama nos Estados Unidos, como foi a de Lula no Brasil, é baseada na esperança.) É uma maneira sutil de tirar a razão e a lógica – eternas adversárias da esquerda - de circulação, como se o mundo fosse um grande playground sem causas nem conseqüências. Um homem e um país alcançam o fundo do poço justamente quando os sentimentos se tornam a maior – ou pior: a única - fonte de legitimação da sabedoria. No Brasil é assim. Em nome do amor, qualquer um enfia a mão no bolso – e na cabeça – dos outros - e de si mesmo. Há amor demais por aqui. Precisamos de menos amor. Enquanto tivermos muito, meus precogs avisam: centenas de milhares passarão fome, e dezenas de milhões não saberão o que comer.


Terca-Feira, 2 de Setembro de 2008, às 15:58
É a sua cara esse texto, Pim!
Terca-Feira, 2 de Setembro de 2008, às 17:09
Gostei bastante.
Mas tá na cara que 1) vc “ama” o Ali Kamel e 2) vc foi corno recentemente.
Mas falando sério agora:
Realmente está muito bom esse teu texto. Um dos melhores que já li de sua autoria.
Parabéns mesmo.
Em tempo: Eu, como bom brasileiro e leitor do JP, continuo acreditando no amor.
Terca-Feira, 2 de Setembro de 2008, às 20:16
Idiota(ignorante),amor (paixão)adentram no comunismo com uma racionalidade comedida!
Ahhh gostei muito! :)
Terca-Feira, 2 de Setembro de 2008, às 21:17
eu hey! de dizer: perfeito!
acabo de uma realizar uma pesquisa que resulta que os formadores de opinião admiram até o Lula. vc sabe que existem mentiras, grandes mentiras e estatísticas? mas acaba que essa estatística do Lula me incomoda, reflete uma ignorância absurda…
pobre Brasil e seus formadores de opinião nenhuma…
Terca-Feira, 2 de Setembro de 2008, às 22:05
Pim,
Diogo Mainardi já pode planejar sua aposentadoria. Do tribuneiros sairá seu substituto.
Abçs,
Oscar.
Terca-Feira, 2 de Setembro de 2008, às 23:42
Parabéns pelo belo texto.
Contudo nao creio ser o amor, muito menos o incondicional, o responsável por tudo isto.
Acredito muito mais ser uma usurpação do real sentido do Amor o responsável, que acaba por nao interpretar corretamente o desejo, mal aproveitar a vontade e tornar o amor banal e hipócrita.
Entretanto, acredito que o real Amor, fruto do real interesse, compreensão, compaixão, equanimidade e regozijo seja o caminho para sair desta situação ‘idiota’, como você mesmo o disse.
namastê
Klaus
Terca-Feira, 2 de Setembro de 2008, às 08:04
Meu querido Pim.
Não se esqueça que na Medicina e no Amor… nem JAMAIS, nem TOUJOURS!!!
Genial sua crônica.
Saudações.
Terca-Feira, 2 de Setembro de 2008, às 01:13
Pim,
Esse negócio de ser contra o amor mais parece coisa de quem ama e não é correspondido ou de quem nunca experimentou um amor de verdade. Não existe nada melhor do que um amor de verdade.
O texto é bom, como sempre, mas está muito amargo pro meu gosto.
Bjs,
Mariana
Terca-Feira, 2 de Setembro de 2008, às 01:17
E já que falei de amores não correspondidos, segue um poema em prosa que escrevi em 1994. Só não vale você me responder que poesia não tem importância nenhuma que eu faço greve e não leio mais os seus textos!
Vício
Eu te detesto por tanto te venerar.
Não suporto ouvir o som de tua voz, que é música para meus ouvidos.
Prefiro a cegueira à visão encantada de tua beleza que me faz tua escrava.
Te odeio quando fico dias recordando os poucos minutos que estive a teu lado.
Também quando um beijo teu me faz esquecer todo o resto, até o minuto em que toquei este corpo tão insuportavelmente meu dono.
E quando uma palavra tua me faz questionar o sentido de todas as falas de nosso diálogo e a verdadeira intenção do que foi dito e do que deixou de se dizer.
Eu realmente não gosto, mas não gosto mesmo, quando você, na verdade, está tão longe e me dá a impressão de que não sai de dentro de mim.
Mariana Valle - 05/07/1994
Terca-Feira, 2 de Setembro de 2008, às 04:13
Se eu fosse sério eu seria dentista
Seu eu fosse chato eu seria padeiro
Mas eu sou este que vos fala e que encanta a sua moradia de palavras tortas que explicam o porquê das coisas mas não revela a sua aurora
Eu sou aquele cara que freqüenta as multidões e canta com pudor
Eu queria ser um menino a vida toda e eu cresci nesse corpo
-Eu queria ter ido para Amazônia sabia?
Eu queria ter tido um monte de papagaios
Mas só tive piriquitos
Eu queria resolver os problemas da Terra mas só tive eles
Eu queria tanto um monte de cadeiras de balanço na varanda da minha casa
Eu queria estar em todos os lugares para poder falar de tudo
Mas eu só moro em uma rua…
Eu digo das minhas decepções mas só percebo as sombras
Então eu saio de casa para ver se o sol de pôs
Aí eu me divirto com minhas próprias ilusões
Boas, más, feitas, descalças, sem apertos ou notícias
Minhas balas são minhas amigas e para onde estranho o cheiro do novo
O cheiro do acaso sem respostas
Eu me esbarrro sem querer com facas
Tenho andado emburrado, mas é a indecisão que permeia
Não faço concessões adoro a liberdade
E não perturbo minhas dores
Prefiro tê-las em minha estante
Encontrá-las de vez em quando e quem sabe poder me esbaldar delas
Enquanto isso nasço e entro todos os dias em casa
Me escondendo da minha própria falta de ousadia
Me esforço para lembrar a todos que sou o…
Mas enquanto isso o mundo já passou demais de tudo que já disse
O mundo não sou eu, mas minhas palavras
Eu não preciso de minhas mãos eu preciso de todos os casos que perdi
Eu preciso das novas belas que ganhei
E que fui mais uma vez embalsamado
Eu preciso viver para saber se ainda é triste todos os amores
Se um dia ficarei assim tão pobre de tudo que possa fazer cantar
Eu queria apenas uma doce pretendente que fosse mais linda
Mais linda que uma rosa rosa
Mais que uma canção do Chico, mais que uma Deusa
E que me chamasse para a sua intensa sedução
Eu queria ser seduzido por alguém que fosse mais um pouco do que eu
Terca-Feira, 2 de Setembro de 2008, às 19:46
Deixando de lado o processo e a ( sabe-se lá) experiência que o levou a produzir excelente crônica, o fato é que quase colei minha testa no computador, tamanha identificação com o tema. O problema, penso, é que confundem amor com sentimentalismo barato e, para piorar mais ainda o quadro, essa distorção da realidade não se dá só no amor, mas na formação de conceitos e sistema de crenças estruturado ao longo da vida. Desculpem os românticos, noveleiros e “sujinhos”, mas amor é uma escolha consciente por alguém semelhante em termos de caráter, gostos e projetos de vida. Só um relacionamento baseado em afinidades pode ser considerado, de fato, amor. E só conhecendo melhor a si próprio, o sujeito saberá das suas reais necessidades e desejos – dele e dos que estão em sua volta, e, por tabela, poderá construir uma sociedade mais justa.
Ah, só te analiso se for por uma boa quantia, hein …e sem risco de transferências!
Beijos,
Jana
Terca-Feira, 2 de Setembro de 2008, às 17:34
Adorei o texto… Só que no terceiro paragrafo, a expressão “pobre de espírito” está colocada em desacordo com o que você realmente queria dizer… Sei que todos usam essa expressão como sinonimo de pessoas orgulhosas, ou mesquinhas… Mas vale a pena divulgar que segundo as literaturas que citam essa expressão, o que devemos entender sobre pobre de espírito é que são pessoas humildes, tanto que diz ser para estes o reino dos céus e não para os orgulhosos.
Enfim, até pouco tempo atrás, eu também usava esse termo com o significado oposto, em meus textos. Bjs
Terca-Feira, 2 de Setembro de 2008, às 12:09
Amor que estimula a inércia, essa tal da intimidade sentimentalista brasileira, esse coleguismo de botequim, impede que a culpa (para o bem e para o mal) tenha responsabilidade privada (querendo dizer pessoal). A culpa é mesmo dos outros. A esperança é passiva, depende do que é além de si mesmo. Ando mais por medidas proativas que esperançosas. Mais por parágrafos que reticências. Mais por pontos que vírgulas. Próximas idéias que pausas. Enfim, adorei o texto! É sempre bom que alguém esteja dizendo o contrário. O contrário dá nome próprio. Sem contrário, ainda seríamos portugueses (sem nenhum juízo de valor, só mesmo para lembrar coisas, idéias, países e línguas, são sempre derivados). Leite UHT, carne de soja. Integral ou nata free. Idéias, como todo derivado, devem andar soltas por aí.
MC