por João Paulo Duarte - Sexta-Feira, 29 de Augosto de 2008, às 12:35
Marcelo Crivella é o candidato à prefeitura do Rio que mais assusta os moradores da zona sul. Quando, em 2006, concorreu ao Senado, também assustou. E, mais uma vez, ouço pelas ruas dos bairros nobres da cidade que a vitória do ex-bispo significaria o fim da cidade. Acho difícil, tendo em vista a situação caótica agravada pelo abandono do atual prefeito. O problema é que Crivella começa com as mesmas promessas de César Maia na primeira campanha – nos anos 1990 –, mas o público alvo do Crivella é principalmente os favelados [no Plano de Governo, ele diz que vai governar para os pobres]. Nada mais compreensível, o artista deve falar diretamente com seu público e ele precisa desses eleitores para vencer. A cisão econômica do eleitorado já ocorreu (erro que César Maia não cometeu, pois prometeu reformas a todos). Eduardo Paes se aproveitou e vem conquistando a maior parte dos votos de ojeriza a Crivella.
Crivella teve que se afastar da mídia devido ao escândalo no Morro da Providência – em junho –, que foi uma das maiores atrocidades no mar de desmandos dos governos municipal, estadual e federal na nossa cidade. Caros tribuneiros, desafio a qualquer um me explicar porque tropas do exército devem fazer a segurança de uma obra [Cimento Social, de autoria do senador] dentro de uma favela. E mais, por que especificamente esta obra, dentre todas da cidade, tem segurança feita por militares? Deu no que deu. Crivella acabou perdendo eleitores no seu próprio nicho. O tal Cimento Social é o carro-chefe da campanha do ex-bispo, um tipo de Favela Bairro ainda mais popularesco.
Perguntei ao Crivella o que leva um senador da República a querer ser prefeito. Ele, em resumo, disse que, como engenheiro, quer “arregaçar as mangas e meter a mão na massa”. Bem, o Senado é a Casa dos maiores debates da República, dos maiores feitos. Lugar para se arregaçar as mangas e realmente realizar as mudanças mais importantes. Pelos fins políticos normais, não dá pra entender a resposta do senador. Mas, que fique claro, em todo o país os políticos não têm nenhuma coerência na carreira, muda-se o cargo de acordo com interesses pessoais. Mais um absurdo político.
Fiquem atentos, Crivella e todos os outros candidatos devem travar muitos debates sobre o deplorável estado da saúde municipal. O tema ficou ainda mais na moda devido à epidemia de dengue. Toda a população foi atingida, de alguma forma, pela doença. Mas, há muito, o panorama da saúde é conhecido. Não há insumos suficientes, o serviço é ruim e muito mal organizado, os postos de saúde não funcionam, o que acaba lotando as famigeradas emergências municipais, o programa médico de família inexiste, o salário dos profissionais é ridículo… Tenham certeza de que o problema da saúde na nossa cidade é o descaso. O dinheiro suficiente e os profissionais estão aí. É preciso administração. E Jandira Feghali tenta convencer o eleitorado de que, por ser médica, sabe muito bem lidar com essa pecha.
Mas antes, amigos tribuneiros, a candidata entra nessa corrida com a lembrança da confusão dos torpedos de celular, nas eleições de 2006. Jandira acusou um novo tipo de propaganda de boca de urna que utilizava o torpedo de celular. No caso, diz-se que foram enviadas milhares de mensagens afirmando que ela é a favor do aborto, o que teria causado um revés na eleição para o Senado, nas horas finais. O fato é que Francisco Dornelles contrariou as pesquisas e foi eleito. Jandira pode ficar tranqüila: enviar torpedo de campanha é, agora, crime eleitoral.
Jandira pareceu-me abatida, sem a mesma aparente força que demonstrava em campanhas anteriores. Sobre saúde, é fato, conhece. Mas, ainda, não apresentou propostas muito diferentes das quais temos visto normalmente. No plano de governo, ela desenvolve os temas já batidos, sem novidades. Repito que vou analisar os planos de governo mais detalhadamente nas próximas cartas.
Caros, quanto custa, afinal, por ano, um ajuste decente do sistema de saúde pública municipal? O que daria pra fazer com R$ 8,5 milhões em um ano? Com certeza, muito. Estou falando de dinheiro extra. E, por outro lado, que tipo de problema a administração de um município pode ter com um rombo, um apêndice deste montante? Bem, este é o valor estimado do gasto anual com a manutenção da Cidade da Música, do faraó César Maia. O legado mais hediondo que alguém poderia deixar após 16 anos de comando. O atual prefeito declarou que vai tirar uma foto de braços abertos em frente ao monumento, para marcar sua administração. Oficialmente, o custo das obras chega a meio bilhão de reais [fontes garantem que o número é maior que R$ 700 milhões!!!].
Imaginem o que deveria ser feito com isso. Uma monumental construção para receber orquestras. Quem assina o projeto é o arquiteto francês Christian de Portzamparc criador da Cité de la Musique, de Paris. O complexo terá três salas de cinema, uma mídiateca, um café, três lojas, restaurante, um foyer musical, sete salas de ensaio com tratamento acústico específico, dez salas de aula, que serão utilizadas pela Orquestra Sinfônica Brasileira no programa de formação de músicos, e duas salas de concertos, com capacidade para 800 lugares. Megalomania que a faria ganhar o status de maior sala de concerto da América Latina. Como explorar esse complexo tão caro, quem vai querer retirar esse elefante branco das costas do próximo prefeito? Será que o Rio de Janeiro vai competir com a Europa pelas grandes orquestras, pelos grandes balés? Quanto tempo… Impossível saber. O fato é que a Cidade da Música deve ser tratada como um dos maiores problemas a serem resolvidos a partir de 2009.
********
Na próxima parte, as considerações iniciais sobre Eduardo Paes, Solange Amaral e Chico Alencar. E vou fazer uma análise do caos no meio-ambiente na cidade, problema quase sempre esquecido.
********
Com certeza, o tema da saúde pública será mais abordado. Aguardem.


Sexta-Feira, 29 de Augosto de 2008, às 14:15
Espero que o nível de superficialidade continue ao falar dos demais candidatos.
Ou vais escolher um candidato pra torcida gritar : ” É esse!!! Pega!!”?
Sexta-Feira, 29 de Augosto de 2008, às 16:43
Essas eleições não estão fazendo bem para a sua cabeça.
Tenho certeza que, no próximo texto, você vai ter que parar de bravatas e começar a dizer algo concreto.
Ou vai ficar escondido pela agressividade o tempo inteiro?
Você já foi um excelente debatedor, meu amigo. Agora, tornou-se um bravateiro. Uma pena.
Sexta-Feira, 29 de Augosto de 2008, às 23:49
João,
Me perdoe.
Mas desde que a Luana assumiu esse relacionamento estável com o Dado, eu não venho me sentindo muito bem mesmo.
Vou esperar a última parte dessa tua tão esperada trilogia.
…
Estou começando a sentir falta dos teus textos sobre tardes de amor no Leblon…
Sexta-Feira, 29 de Augosto de 2008, às 11:06
J.P., Crivella foi eleito senador em 2002, junto com o Sérgio Cabral. Em 2006, foi candidato ao governo do estado.
Essa série é apenas uma trilogia?
Sexta-Feira, 29 de Augosto de 2008, às 11:51
Ivan, muito obrigado. O texto será corrigido.
E não será apenas uma trilogia. Vou acompanhar toda a corrida.
Sexta-Feira, 29 de Augosto de 2008, às 16:16
Seria legal se voce perguntasse aos candidatos sobre quem financia as campanhas deles.
Pois é fato, que no governo, o prefeito “devolve” em forma de serviços, caixa 2 e outros jeitos, o dinheiro dado na campanha.
Campanhas milionarias do Ed Paes, Jandira, Gabeira… (todos acima dos 3 milhoes de reais, declarados oficialmente, imagine o “por fora”)
Cuidado na hora do voto
E acho que voces deveriam fazer um especial sobre as eleições para vereador, que tambem estão muito perigosas.
O Rio esta claramente dividido em currais, controlados pelas Milicias, Trafico e centros sociais.
São cada vez mais raros vereadores de opinião.
Sexta-Feira, 29 de Augosto de 2008, às 16:18
Tiago, pretendo escrever, em breve, sobre a disputa pela vereança. Obrigado pela sugestão.
Sexta-Feira, 29 de Augosto de 2008, às 11:38
Tiago, concordo plenamente com o seu comentário.
Vamos tratar desse assunto mais a diante.
E, assim como o Andreazza, pretendo escrever sobre a disputa pela Câmara Municipal.
Obrigado pela sugestão.