por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 27 de Augosto de 2008, às 01:00
Uma leitora me pergunta o que mais eu amo neste mundo, “além de samba e literatura”. É muito simples. Eu amo Rocky Balboa.
Passei as Olimpíadas de Pequim assistindo diariamente à melhor série de ficção da história universal. Modestamente, concluí que um Rocky Balboa vale mais que todas as Olimpíadas juntas. E não só porque a trilha sonora é imbatível. Mas, a começar, porque Rocky não é a América, não é os Estados Unidos, não é sequer a Filadélfia, imagine o Brasil. Rocky é Rocky. O garanhão italiano. Um pugilista pobre que aproveitou uma oportunidade de vencer na vida, conheceu o estrelato, a decadência, a volta por cima e a maturidade. Maurren Maggi é boa. Mas Rocky é melhor.
Toda Olimpíada é uma espécie de revista eletrônica de auto-ajuda. A arte de superar limites. Rocky, não. Se Michael Phelps é Lair Ribeiro, Rocky é Montaigne. Se Usain Bolt é Paulo Coelho, Rocky é Flaubert. Se Bernardinho é Bernardinho, Rocky é Rambo. Tudo que um atleta precisa saber (levantar, inclusive) - e pode oferecer a quem nada tem com isso – aparece em Rocky. O fiasco olímpico do Brasil em Pequim apenas comprova uma vez mais a incapacidade dos brasileiros de aprender com a experiência alheia. Diga a um brasileiro que o amor é lindo, e ele guardará. Diga a um brasileiro que o esporte é superação, e ele guardará. Conte a um brasileiro uma história de amor e superação através do esporte, e ele só saberá dizer se a história é linda ou não. É o recorde nacional de interpretação de texto.
Amigos e amigas me ligam todo dia para desabafar angústias amorosas. Querem que eu interprete suas vidas, suas escolhas – seus “textos”. É natural, num país de analfabetos, que quem saiba ler seja logo alçado à categoria de doutor. Eu sou o Pim-sicólogo. Meu consultório sentimental está mais cheio que o Madison Square Garden na revanche contra o Clubber Lang. Não consigo trabalhar. Desde que Reich propôs a liberação dos instintos como terapêutica para certas neuroses, os comunistas sempre quiseram usar a revolução sexual para vencer o capitalismo. Venceram o meu. As liberdades do nosso tempo renderam uma porção de neuroses extras aos meus pacientes, que não me pagam nem um centavo pelo tratamento. Para piorar, vim tornar pública - de graça - minha única receita de amor: Rocky.
Com freqüência, ouço dizer, por exemplo, que a Lapa é “democrática”, que reúne “gente de todas as tribos”. É verdade. E as tribos cada vez mais se experimentam umas as outras, se é que o leitor me entende. Mas ainda são tribos. Ainda vem cada uma do seu canto. Ainda tem cada uma os seus hábitos. Ainda pertence cada uma à sua cultura. Como brasileiro não está muito familiarizado com esse negócio de cultura, acaba se esquecendo disso na hora de escolher com quem vai ter uma vida em comum – e o sonho de uma noite de verão vira o pesadelo de um ano de verão. A revolução sexual, de fato, gerou uma grande democratização. Da sem-vergonhice. Da sacanagem. Dos prazeres da carne. Na hora de conviver, de criar um laço social, o buraco é mais embaixo. Cada um no seu quadrado.
[Sim, há quadrados supra-espaciais, de gente, como eu, que busca seus pares isoladamente pelo mundo. Mas somos da tribo-exceção à regra. E sabemos o preço de sê-lo.]
O que Rocky tem a ver com isso? É muito simples. Rocky não foi à Lapa. Não se iludiu com menininhas gostosinhas que jamais o compreenderiam. Ao contrário de qualquer Ronaldinho, apaixonou-se pela moça do seu bairro - de origem, educação e inteligência semelhantes às dele – e, ao lado de seu grande (e saudável) amor, pôde concentrar todas as suas forças no boxe. Sem perder o humor. Sem perder a graça. Sem virar um Kaká. Não há antídoto melhor para Reich, Marx, Sartre, Marcuse, beatniks, hippies, lapianos e demais veneninhos de tarja vermelha. Não há antídoto melhor para toda a mediocridade atlética, intelectual e amorosa do país. Rocky é a contra-revolução. Bate até a Aids. Se aplicássemos Rocky Balboa em nossas vidas, teríamos um futuro um pouquinho menos constrangedor.
Pode acreditar em mim. Eu sou o Pim-sicólogo.
*****
Nota de rodapé [sobre o “além de samba e literatura” da primeira frase]: Como assim? Eu não amo samba e literatura coisa nenhuma. Muito menos cinema. Chame-me para assistir à última maratona de Godard e Truffaut no Estação Paissandu, e eu direi: “Aham…”. Tenho, vá lá, um certo apreço por alguns sambas, alguns livros, alguns filmes (Rocky é um deles, acho que já disse), e, em menor escala, alguns autores de cada um. Mas paixão coletiva e incondicional é coisa de adolescente. De quem acabou de descobrir o mundo. De perfil do orkut: “Eu amo viajar”, “Eu amo música”, “Eu amo praia”… Mas que praia? Que horas? Com quem?


Quarta-Feira, 27 de Augosto de 2008, às 11:13
Esta nota de rodapé - fabulosa - poderia ser, doravante, a defição dos tribuneiros. Não?
Quarta-Feira, 27 de Augosto de 2008, às 13:08
Eu diria que essa nota pé foi mais um grande momento que marca essa Casa.
Maravilha!
Quarta-Feira, 27 de Augosto de 2008, às 14:06
Rocky Balboa não foi à Lapa; tampouco à Pavuna…
Quarta-Feira, 27 de Augosto de 2008, às 17:58
Realmente, essa nota de rodapé está sensacional.
Pim, quando você resolve não falar sério, vc é quase imbatível.
Mas quase imbatível era também Ivan Drago.
Quarta-Feira, 27 de Augosto de 2008, às 22:37
Eu amo Rocky. Mas qual Rocky? O I, o II, o III, o IV… E com quem? Apollo, Apollo, Ivan, Mr. T?
Quarta-Feira, 27 de Augosto de 2008, às 22:59
Também adorei a Nota de rodapé, Pim-sicólogo.
Bjs,
Mari
Quarta-Feira, 27 de Augosto de 2008, às 19:29
Maurren Maggi é boa. Mas Rocky é melhor!
Rocky é ficção… Maurren Maggi é de verdade!
Olímpiadas é real… Rocky Balboa é ficcção!
“…porque Rocky não é a América, não é os Estados Unidos, não é sequer a Filadélfia, imagine o Brasil…” Muito menos realidade!”…
“Aplicar um pouco de ficção à realidade”… Mas, qual realidade? A sua? a do Rocky?
Quarta-Feira, 27 de Augosto de 2008, às 18:05
o texto mais maravilhoso que já li na internet