por C.A. - Segunda-Feira, 25 de Augosto de 2008, às 13:01
Carlos Andreazza, directamente de Pequim
Os meus jogos olímpicos, devo admitir, encerraram-se no momento exato em que, hino nacional em riste, Maurren Maggi vestiu-se daquela inesquecível vitória no salto em distância.
E nem mesmo o fabuloso triunfo do voleibol feminino, que vi de tão perto e tão bonito [tão merecido], me pôde emocionar como a glória – a glória solitária – de Maurren…
Era, sei lá, como se eu me tivesse secado, afinal. Ou, quem sabe?, voltado à normalidade. Isto já não interessa.
Diante daquela atleta campeã olímpica, que vive e treina no Brasil, importa que eu vi – que eu enxerguei – um futuro, simples e orgânico, para o esporte brasileiro.
Que será, mais uma vez, desperdiçado.
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A despeito da monumentalidade, aqui se vai mais uma Olimpíada desapegada do que deveria muito e sobretudo importar: a cidade, o futuro da cidade – o que para ela, para Pequim, resta legado.
Muito pouco. Do ponto de vista urbano, quase nada. Eu diria: nada. (A extensão do metrô, talvez).
E aí está o desafio maior para Londres, sede dos jogos de 2012: conceber uma Olimpíada que não seja só para turistas; uma Olimpíada dedicada aos espaços urbanos, que seja um marco de futuro – estrutural – para quem lá vive.
De verdade, foi em Barcelona [1992] que, pela última vez, os jogos foram compreendidos sob uma visão mais ampla – mais humana – que a meramente esportiva, que passa e se apaga como um recorde… Barcelona se transformou. Revolucionou-se. Reinventou-se. Preparou-se para os seus, para si – e foi um sucesso para todos. E é um sucesso para todos.
Se formos um bocado menos rigorosos, Sidney [2000] também esteve perto de se valer das Olimpíadas para melhorar a vida de seus habitantes.
De qualquer outra forma – vejamos o Pan do Rio, por exemplo –, será dinheiro cuspido fora.
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Olimpíada é que nem festa de família: uma alegria quando começa e outra, maior ainda, quando termina.
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Não vou massacrar o vôlei masculino do Brasil – pelo qual, afinal, torci.
Toda a minha cobertura, em que pese o deboche, consistiu em registrar que o modelo bernardista de trabalho estava claramente exaurido. Cansado. Acabado, talvez.
E que ninguém, por fanático que seja, resiste a oito anos de pressão competitiva – e interna. Porque não bastava apenas disputar com os adversários – mas também [e sobretudo] com os companheiros, o tempo todo, por posição, por melhores estatísticas etc. (Uma bomba relógio).
A liderança do treinador, ademais, calcava-se em que os atletas se omitissem – e aquilo [para além da chatice politicamente correta] não era natural, porquanto também se traduzisse em que Bernardinho, sem levantar ou cortar uma bola sequer, fosse a $estrela$ máxima da companhia. (É uma cousa em que repiso: o sinal absoluto da mediocridade que se expõe na progressiva e excessiva importância de técnicos e que-tais).
De alguma maneira muito civilizada, via-se que os caras – todos eles – já não se aguentavam mais. (Repito: uma bomba relógio).
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A derrota foi conseqüência de um pacto que se quebrou bem antes desta Olimpíada – e que se quebrou por responsabilidade integral de Bernardinho, o líder, que não soube compreender que a sua forma de trabalho [ideal, talvez, para tiros curtos], tão fabulosa em Atenas, não suportaria um novo ciclo olímpico [a expressão da moda…] sem sofrer profundas mudanças de se humanizar.
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O bernardismo tem muito mais a ensinar na derrota.
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A seleção masculina de voleibol, sem dúvida excelente, é preciso que se insista nisto, perdeu todas as possibilidades de improviso – aquilo que faz a diferença e que poderia mudar os rumos da final olímpica – quando achou que poderia prescindir do gênio de um Ricardinho.
Tornou-se um time comum. Excelente. Mas comum.
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A participação brasileira em Pequim, de modo geral, foi pífia.
Culpa dum modelo equivocado e marqueteiro, que se ilude com jogos pan-americanos e se pesa num gigantismo estéril, lançando-se a investimentos monumentais [públicos] assim como se o Brasil, desprovido de qualquer estímulo ao esporte de base [aquele que forma cidadãos e que, portanto, interessa], fosse uma potência olímpica.
Não é.
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A falácia do esporte olímpico brasileiro está em que o bom nadador Thiago Pereira, deixando Pequim com um esforçado quarto lugar, terminou os jogos pan-americanos do Rio sob sete medalhas de ouro.
Thiago Pereira: o Michael Phelps do Mercosul.
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Gastar milhões de reais em atletas de alta performance sem que atletas de alta performance [com raras exceções] entre os nossos haja seria estupidez antes não fosse bem-bem outra cousa.
A delegação brasileira em Pequim, com 277 atletas e cerca de [inacreditáveis] 200 dirigentes, ergueu o que se pode chamar de obra faraônica imaterial.
E o esporte olímpico brasileiro, quebrando recordes e mais recordes de quantidade, volume e infertilidades outras, continua a depender do talento individual de um ou outro atleta genial – aliás, exatamente como se dá conosco desde que se disputou a primeira Olimpíada…
E será, então, que evoluímos – tanto assim – mesmo?
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Fica-me a impressão de que poderíamos ter resultados bem melhores com muito menos dinheiro [público] gasto.
É uma questão de planejamento. De critério – este valor tão historicamente desprezado pelos dirigentes esportivos do Brasil.
Não há erro quando se investe em estrutura – em centros de treinamento.
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Apesar do continuismo [sempre lamentável] do Sr. Ary Graça frente à CBV, é preciso reconhecer que o vôlei nacional desenvolveu, por meio de seu moderno centro treinamento [em Saquarema/RJ], uma estrutura fabulosa – que cobre e valoriza todas as categorias [desde a mais tenra idade] do esporte.
O s resultados, tantos e tantos, não são à toa – e continuarão a se multiplicar.
É um modelo.
(A ginástica artística – sem medalha, mas com uma evolução estrutural notável – também serve de exemplo).
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É preciso uma séria inversão de prioridades no investimento esportivo nacional.
O dinheiro público, via Ministério dos Esportes, deve ter o soberano destino das escolas e dos projetos sociais do governo federal, em articulação com o Ministério da Educação – e não com as confederações esportivas nacionais, às quais deveria caber a fatia menor deste bolo.
Quanto menos recursos chegar a essas confederações, melhor será. (Quanto menos recursos chegar às confederações esportivas, menos serão prejudicados os atletas brasileiros, tão poucos, de verdadeira alta performance).
O esporte sobre o qual o dinheiro público deve ser sobretudo vertido é o que se desenvolve nas escolas e nas vilas olímpicas para a juventude. Aí está [estará] o [um] futuro.
O resto é de doirar o pescoço [e o bolso] de quem não entra em quadra…
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Quando o leitor se der com estas minhas derradeiras considerações olímpicas, feliz da vida, eu já estarei num avião – a caminho de casa, assim espero. (E cheio de saudades do meu amor)…
Na quarta-feira, afinal em terras cariocas, volto a escrever para esta Casa.
(Admito que também sinto falta do alcaide Cesar Maia)…
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Eu já me preparava para deixar o hotel quando recebi a linda e emocionante gravação do samba-enredo – Lenda das sereias e os mistério do mar – com que o Império Serrano desfilará no carnaval de 2009.
Ainda não é a versão oficial, que vai para o disco etc., mas, já com a voz do puxador Gonzaguinha [e sobre a fantástica bateria do mestre Átila], está imperdível:


Segunda-Feira, 25 de Augosto de 2008, às 13:52
Parabéns pela cobertura, C.A.. Foi ótima!
Espero, agora, que o foco seja a eleição municipal.
Segunda-Feira, 25 de Augosto de 2008, às 15:45
Gostei das considerações finais, ainda mais com este belo samba fechando a cobertura.
Não entendo de andamento, essas coisas, mas achei um pouco rápido demais. Mas adorei o “ôôô…” do coro, parece que embala como onda…
Segunda-Feira, 25 de Augosto de 2008, às 15:48
Andreazza, a gravação ainda não é a original, acho bom salientar isso. Olga, o desfile hoje, e infelizmente, precisa se dar em 80 minutos, o que acaba demandando um andamento mais ligeiro…
Segunda-Feira, 25 de Augosto de 2008, às 16:14
É uma pena, porque um samba com essa melodia não merecia. Mas isso é um pingo de água, né?, no mar que, aposto, o Império vai despejar na avenida.