por C.A. - Quinta-Feira, 21 de Augosto de 2008, às 14:05
Carlos Andreazza, directamente do Estádio do Trabalhador, Pequim
É muito difícil escrever sobre o futebol feminino – e especialmente depois de a derrota brasileira. Se ainda houvesse a emoção épica da medalha de ouro, a comoção olímpica para camuflar a verdade…
Futebol feminino é chato de se ver – e futebol, mesmo, quase não há. (Quase não houve).
Eis a verdade.
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Disposição, correria, garra, entrega, valentia, sim: nestas meninas do Brasil, vontade não terá faltado. Nunca. (A sorte, talvez).
Marta é muito técnica, excepcionalmente talentosa; Cristiana, voluntariosa, agressiva – mas terá sido pouco para um time que, com onze jogadoras, raramente se organizou para além de um bando.
(E quantos passes errados)…
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O técnico Jorge Barcellos é fraco. Gente fina, esforçado etc. – mas, fraco.
A seleção, desprovida de armação tática, é improviso puro e chutão [muito chutão] para frente – e seja o que deus [ou Marta] quiser.
Marta, porém, nem sempre resolverá. E deus, suponho, terá mais com o que se preocupar. (Com a seleção masculina, por exemplo).
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Da seleção brasileira, justiça seja feita, apenas uma jogadora, bem acima de Marta e Cristiana, compreende o futebol como ele é – dele assim se aproximando, na prática: Formiga, volante incansável, de movimentação vertical, passes precisos, noção absoluta de posicionamento [de cobertura] e domínio completo do relvado.
Se, nesta final olímpica, futebol de bom nível algum houve, foi só quando Formiga jogou.
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De todas as meninas do Brasil, somente ela – Formiga – tinha condição física compatível a de uma atleta de alto nível. E foi aí, na força atlética, que os EUA venceram.
Afinal, quando bandos se trombam, de pé restará aquele que melhor fisicamente estiver.
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Futebol – qualquer futebol – também é marcação. E a seleção brasileira precisa entender – logo – que o esporte se joga tanto com a bola quanto sem ela.
O time dos EUA, bem treinado, marcou demais, isolou Marta e Cristiana, e mereceu ganhar. Jogou melhor, porque soube, apurando a estratégia [a tática], reconhecer [reverter] a sua inferioridade técnica. Com humildade, apostou na pegada física e igualou a disputa. Praticou um futebol feio, defensivo, viril, sim – mas eficiente. Ponto final.
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Todas as jogadoras americanas são estudantes [bolsistas] universitárias – e estão em Pequim por se terem destacado nas ligas ianques. (O futuro delas – de todas – jamais dependeu de uma medalha olímpica).
No Brasil, embora não sirva de desculpa, sequer há um campeonato nacional de futebol feminino – e o futuro do esporte será, assim, sempre incerto.
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A história recente do tênis brasileiro é muito representativa da incompetência dos dirigentes esportivos pátrios – e serve de exemplo para o futebol feminino: ou haverá estupidez [desperdício] maior do que não se aproveitar um fenômeno [isolado] como Gustavo Kuerten para fomentar o crescimento orgânico do esporte?
Agora, já era. E o que é o tênis nacional, hoje?
Maria Esther Bueno. Guga. Passado. Passado recente. Nada.
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Estes dirigentes – estes cafajestes do esporte – deixarão que o talento carismático de uma Marta passe sem que jovens, meninas muitas vezes miseráveis, sejam influenciadas e estimuladas a praticar o futebol?
Ah, quantas gerações perdidas…
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Eu tive, admito, um mau presságio quando me dei com Pelé na tribuna.
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Chega, por favor, deste papo segundo o qual algumas craques do futebol feminino deixariam muito jogador profissional – macho – na reserva.
É mentira.
Qualquer Rycharlisson da vida é infinitamente melhor que a Marta…
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A Jadel Gregório, verdade seja dita, não se pode negar o mérito – altamente marqueteiro – de retardar, sempre ao máximo, o próprio fracasso.
Quem o visse, pleno em graça, cheio de presença, batendo palmas, pedindo o eco popular e dando gritos primitivos, talvez se imaginasse frente a um grande campeão – mas aí, então, ele saltou e… E o espectador chinês, constrangido, logo se preocupou em que aqueles gracejos todos – aquela ginga de se supor um Usain Bolt – não lhe valessem um mau jeito nas costas.
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Sem se ter contundido nos rebolados, Jadel [todo pesado] saltou, na hora H, para o seu máximo – e pouquíssimo, como previ: 17m20, sexto lugar.
(Pior que em Atenas, 2004).
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É uma pena que Robert Scheidt, da vela, e Rodrigo Pessoa, do hipismo, não tenham assegurado medalhas de ouro para o Brasil.
Há nisto, porém, uma leitura positiva, que proponho: os dirigentes esportivos brasileiros [governo federal incluído] não poderão usar esses esportes de elite – financiados e mantidos pelo investimento privado dos atletas, geralmente ricos de família – para engrossar, uma vez mais, a falsa evolução olímpica do país. (Que não há).
Haja o que houver doravante, a participação olímpica do Brasil em Pequim é um monumental fiasco.
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Continuo apostando todas as minhas fichas – as doiradas – em Maureen Maggi.
Em tempo: Bernardinho é o João Gilberto do esporte.


Quinta-Feira, 21 de Augosto de 2008, às 14:46
“O time dos EUA, bem treinado, jogou melhor”. Taí uma assertiva da qual - radicalmente - discordo. Logo vc, Andreazza, um defensor do futebol bem jogado, fazer o elogio da retranca?
Quinta-Feira, 21 de Augosto de 2008, às 15:27
Formiga, a melhor em campo? Não vimos o mesmo jogo. De fato, ela era incansável e eficiente na marcação, mas quando estava com a bola, prendia, prendia, rodava (quase um Zinho) e, enfim, errava o passe. Lamentável. Pobre Marta.
Quinta-Feira, 21 de Augosto de 2008, às 15:35
Há quem diga - mui sabiamente - que esta leitora Fernanda tem vaga fácil no escrete canarinho.
Quinta-Feira, 21 de Augosto de 2008, às 17:30
A perspectiva proposta por você para encarar as não-vitórias de Scheidt e Pessoa é muito boa. Já havia pensado nela, não apenas para os dois citados, como para toda a delegação brasileira. Assim como recentemente torcia por derrotas do Fluminense para que Renato Gaúcho fosse demitido.
Quinta-Feira, 21 de Augosto de 2008, às 18:17
Fiquei esperando os comentários da Fernanda sobre a partida!
Quinta-Feira, 21 de Augosto de 2008, às 23:48
Ao contrário de você, boto fé em outra atleta : Natalia Falavigna , do “tecondô” .
Poucos falam nela, mas acredito que se sairá melhor que a Maurren, pródiga em protagonizar decepções.