por Bruna Demaison - Sexta-Feira, 15 de Augosto de 2008, às 12:36
Arrumar o armário era a forma mais boba de desapego, mas ela se desculpou assumindo que desprender-se de uma paixão unilateral poderia ser a fase 2.0 do processo. Era quase sempre por eles, um dia teria iniciativas e não meras reações, mas hoje cuidaria das calças baggy enfileiradas nos cabides. Valeria como exercício. Já tinha prometido parar de fumar, e apesar de ter tomado a grande decisão enquanto acendia o último cigarro, jurou que quando terminasse com o próximo homem da sua vida partiria para outra sem mais amor ao romance do que ao ser amado. Enquanto isso, jogaria fora todos os objetos que não queria mais. O primeiro esforço seria não mais querer.
Começou por camisetas assinadas pelos amigos nos últimos dias de aula e moletons que viviam amarrados na cintura. Não eram só roupas, queria que saíssem das gavetas atitudes que não cabiam mais, opiniões nas quais ela nem mesmo acreditava e repetia por hábito, sentimentos que talvez já tivessem ido embora se a porta estivesse aberta. Parecia que, junto com as peças guardadas para quando voltasse a moda, muitas outras coisas estavam ocupando espaço porque “quem sabe um dia”. Ela adorava aquelas roupas, mas beirando os trinta – verdade seja dita – peças número 36 já não deixam ninguém respirar.
Dias antes tinha aprendido o significado de equanimidade, que por tantos anos os dicionários traduziram como “igualdade de ânimo na prosperidade e na adversidade” e ela entendia como “conto de fadas”, “história para boi dormir” ou “vai tentando”. Enquanto tentava descobriu a tradução da palavra em sânscrito e isso gerou um frio na espinha. Upeksha significava desprendimento, deixar ir.
Só sabendo largar poderia agarrar o mundo com vontade, sem medo de perder. Perdoar seria um bom começo. Mesmo aqueles que nunca pediram perdão, os que nem sabem que erraram, os que insistem que nada fizeram ainda que tenham deixado um rastro de dor. Para ir embora eles não poderiam ter nada que os prendesse e só ela tinha o poder de desacorrentá-los. Não queria coisas novas? Não estava tão exausta de velhos pensamentos, por que era tão difícil soltá-los? Se pudesse rapidamente substituí-los… Quando acordava de um pesadelo tinha muita dificuldade em apagar as imagens, era só fechar os olhos e os pensamentos ruins voltavam, sempre precisava sair da cama e se distrair até esquecê-los. Os sentimentos eram muito mais teimosos, ela até se ocupava com outra coisa, mas bastava um minutinho de luz apagada para eles saírem dos bueiros. Eles ficavam ali debaixo do tapete.
Queria viajar leve, embarcar empolgada com o próximo destino e não ficar acenando até o porto virar um ponto minúsculo. Não queria mais estar em um lugar pensando quando voltaria logo ao invés de realmente estar ali agora, parar de torcer para chegar o fim de semana só para no sábado de manhã planejar o que fazer na segunda-feira. Precisava de novo aprender a estrutura do começo, meio e fim. Ponto parágrafo.
Não conseguiria virar budista em um estalar de dedos, mas poderia aceitar alguns finais para enxergar novidades. Tudo bem ainda raspar a panela do brigadeiro, colocar o vidro de xampu de cabeça para baixo, sacudir a garrafa no copo, mas não colecionaria mais cacarecos. O significado de equanimidade ela tinha acabado de descobrir, mas uma lição de física já conhecia: dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo.


Sexta-Feira, 15 de Augosto de 2008, às 14:05
Bruna, aguardo sempre com muita expectativa mais um texto seu. Seria ótimo poder ler seus textos todos os dias!
Um beijo e que passe logo!
Sexta-Feira, 15 de Augosto de 2008, às 15:20
“Hoje eu vou mudar, vasculhar minhas gavetas, jogar fora sentimentos e ressentimentos tolos. Fazer limpeza no armário, retirar traças e teias e angústias da minha mente…” Lembrei-me dessa música (tá, cafona, mas eu sou muito cafona mesmo!).
“O primeiro esforço seria não mais querer.” Eis o xis do problema, não mais querer.
Essa personagem é um luxo só, nem antes dos vinte usei 36.
Sexta-Feira, 15 de Augosto de 2008, às 09:44
Bruna,
Assim como André escreveu, aguardo com muita expectativa por seus textos. São todos muito bons. Escreva mais vezes, ou, pelo menos, publique com mais frequência. Sugiro ainda mais: publique um livro só seu. Os leitores agradecem.
Bjs,
Mariana
Sexta-Feira, 15 de Augosto de 2008, às 19:35
Oi pessoal, obrigada! Fico muito feliz mesmo em saber que vcs esperam pelos textos. Queria escrever mais, o problema é que falta tempo e sobra porcaria;-) Mas o livro está na Argumento ou aqui no site!
um beijo,
Bruna
Sexta-Feira, 15 de Augosto de 2008, às 16:10
Bru,
Vc está precisando dormir mais de conchinha com alguém.
Eu, que sempre sinto a falta de uma companhia para tal em domingos pós Manhattan Connection, me candidato ao posto.
Juntos derrubaremos esse tolo paradigma físico de que 2 corpos nao ocupam o mesmo espaço.
Um bjo enorme.
Pian
Sexta-Feira, 15 de Augosto de 2008, às 10:32
Bruna, respondendo ao que você decerto está pensando, não, você não merece… ;o)
Sexta-Feira, 15 de Augosto de 2008, às 12:18
“Por mais que eu faça não adianta
Você nem nota minha existência
Vou acabar ficando nu pra chamar sua atenção”
Sexta-Feira, 15 de Augosto de 2008, às 16:14
Nossa!!! Lindo texto, Bruna.