por C.A. - Quarta-Feira, 13 de Augosto de 2008, às 12:03
Carlos Andreazza, directamente de Pequim
Pudéssemos nos valer da linguagem boleira [futebolística] para analisar o estilo de uma ginasta e Daiane dos Santos seria a “peladeira” da ginástica artística.
Tendo se lançado à modalidade já sob idade avançada, falta-lhe [é gritante] o apuro técnico e logo se nota que não houve o tempo de maturação necessário para que dominasse os fundamentos do esporte – o que ela compensa, de maneira avassaladora, com a peculiar explosão muscular que faz transbordar em seus velocíssimos [e altíssimos] saltos.
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A ausência de rigor técnico faz com que a tão notável explosão muscular de Daiane não raro se projete incontrolável.
Quando ela consegue, medindo a força, executar a sua série de solo dentro dos limites do tablado, qualquer adversária – por preciosa que seja – é coadjuvante.
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A uma “peladeira” nata como Daiane dos Santos, ginasta medíocre ademais, especializar-se no solo foi opção de sobrevivência – e a cousa, afinal, pode resultar bem aqui em Pequim, onde ela me parece concentrada e muito leve [solta], como me vem de mostrar, in loco, na prova do solo por equipes recém-finda, em que brilhou mesmo [claramente] se poupando.
Sei lá, mas: sem a tamanha pressão de Atenas [2004], quem sabe ela não belisca uma medalha na final individual do solo?
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Peço ao leitor tribuneiro que observe os saltos de Daiane e, particularmente, a maneira como afinal pousa – o modo como termina as suas acrobacias.
Decerto que convivendo com imensas dores no joelho e no tornozelo direitos, crava-se ao solo quase que inteiramente sobre a perna esquerda – o que multiplica, numa escala que só o saci-pererê compreenderia, as dificuldades de seus saltos.
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Daiane dos Santos é uma ginasta brasileira muito peculiar também pelo seguinte: ela não chora e tampouco cultiva essa cafona expressão de sofrimento que é moda entre as pátrias colegas.
(Em tempo: Jade Barbosa não é botafoguense).
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Danielle Hipólito, coringa do time brasileiro, é uma ginasta muito constante: compete mal em todos os aparelhos.
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Laís Souza, por outro lado, é irregular. Às vezes, compete muito mal.
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A melhor ginasta do Brasil nesta disputa por equipes foi Ana Claudia Silva – que não competiu. (Machucada).
Nota: o leitor Ivan Kasahara, sempre atento, avisa-nos que sim, Ana Claudia Silva competiu na disputa por equipes, abrindo, aliás, a participação brasileiro no solo – função que, de longe, atribuí a Laís Souza, porquanto me deva publicamente desculpar [confundi-me], inclusive com Laís Souza, coitada…
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Em sua primeira olimpíada, não creio em que Jade Barbosa conquiste uma medalha aqui em Pequim – nem no salto sobre o cavalo, nem no individual geral.
Nada a ver com nervosismo, chororô etc. Mas com uma questão técnica. As adversárias [ainda] são melhores.
Muito jovem e extremamente talentosa, quatro anos de amadurecimento [técnico inclusive] podem levá-la ao pódio londrino [2012].
A conferir.
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Toda a ginasta parece uma árvore bonsai.
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Cousa mais coerente é o [horroroso] uniforme das ginastas brasileiras, que reproduz, em tamanhos variados, as formas iconográficas de uma gota – no caso, evidentemente, uma lágrima.
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Classificada em oitavo lugar entre oito concorrentes, a equipe brasileira não poderia mesmo ir além nesta final.
Os outros sete times eram muito melhores – e os melhores sempre vencem. Ponto final.
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Gosto muito do técnico da seleção brasileira, o ucraniano Oleg Ostapenko – outro desportista nacional [um rebelde] que não veio a passeio e, muito tendo a trabalhar, nada tem a agradecer.
É um raro cultor da insatisfação [da autocrítica] nesta delegação olímpica [turística] do Brasil, tipo que muito se importa em vencer – sendo, por isso, claro!, um “antipático”.
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O modo como Oleg trata a ginasta – qualquer ginasta – logo após uma sua exibição deveria ser modelar para todo o brasileiro: se vai mal, trata-a mal; se vai bem, nada mais que a obrigação, oferece-lhe um aperto de mão.
Simples assim.
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Ostapenko bem cedo descobriu que passar a mão na cabeça de um brasileiro significa estimular-lhe a acomodação – esta que é inequívoca vocação pátria.
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Vão me chamar de incoerente – o que de fato sou, felizmente – e dizer que, se elogio o Oleg, não poderia criticar o Bernardinho.
Posso, sim. Porque assim quero.
Mas, ok, tenho um argumento menos tribuneiro a oferecer: ao contrário do técnico de vôlei, Ostapenko não faz marquetingue de seu rigor, não se promove às expensas de seu profissionalismo [nada mais que a obrigação], não fatura publicidades sem-fim com a fama de obcecado [tarado] pelo trabalho e, o mais importante, não se interessa em ser líder ou manda-chuva de merda alguma.
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É um técnico – não um estadista.
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É um técnico – ou seja: um profissional irrelevante, que só deve ter importância quando errar, única ocasião em que merecerá todas as atenções e todos os massacres.
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A imprensa [??] brasileira se ufana de que Thiago Pereira tenha logrado o terceiro tempo nas eliminatórias dos 200 metros medley, enquanto Michael Phelps [alongando-se…] fez apenas a sexta marca – mas não compreende o que isso quer dizer: que o atleta brasileiro, se nadar a prova de sua vida [se lhe tiver sobrado algum gás], será, no máximo, o quarto colocado.
Ou seja: nada.


Quarta-Feira, 13 de Augosto de 2008, às 12:46
Cheguei a me perguntar se Jade não seria filha de Cuca…
Ana Claudia competiu, sim, Andreazza. Ela foi a primeira a se apresentar no solo.
E coitado do Thiago. Ter que ler coisas irreais sobre si, desde as medalhas no Pan, como se ele tivesse alguma chance em Pequim, deve ser duro. Sorte que ele parece ter a cabeça boa. Nunca o vi embarcar nesse oba-oba.
Quarta-Feira, 13 de Augosto de 2008, às 14:47
“Sei lá, mas: sem a tamanha pressão de Atenas [2004], quem sabe ela não belisca uma medalha na final individual do solo?”
Interpretação equivocada a minha ou você está levemente torcendo por uma medalha para Daiane?
Quarta-Feira, 13 de Augosto de 2008, às 15:51
Justamente o que eu ia dizer: o oleguismo não é mais do que um primo menos “dourado” do bernardismo e do dunguismo.
Por falar em bonsai, foram muitas as apostas, mas ninguém lá em casa adivinhou a altura da Shawn Johnson: 1m43cm, segundo descobri agora. O mais perto a que se chegou foi 1,45…
Quarta-Feira, 13 de Augosto de 2008, às 16:11
Eu sou o Sr. Miyagi e exijo mais respeito com meus bonsais.
Quarta-Feira, 13 de Augosto de 2008, às 17:08
HAHAHAHAHAHAHAHA! MUITO BOA ESTA COMPARAÇÃO COM UM BONSAI.
Quarta-Feira, 13 de Augosto de 2008, às 17:12
C.A,
Ainda bem que assumiste certa incoerência nos seus sentimentos em relação ao Bernardinho e ao Oleg.
Por mais que seus argumentos não tenham me convencido de completo, é sempre bom perceber que a escrita tribuneira ainda se faz valer de uma auto-crítica muito valiosa. (E de uma teimosia hilariamente irrefutável).
Mas vamos lá:
Qual o problema de Bernardinho aparecer em campanhas publicitárias, vendendo cursos de inglês, academias e os produtos da Olympikus?
Isso nunca, (nunca!) interferiu no seu excelente trabalho como treinador de voleibol, esporte que eu confesso detestar.
E se ele vende a imagem de alguém com tesão pela vitória, como isso pode ser ruim para um povo tão desacostumado a vencer?
Por fim, ainda bem que Jade não é alvinegra.
E ainda bem que Bernardinho é.
Mande um abraço meu ao Oscar!
Pian