por C.A. - Sexta-Feira, 8 de Augosto de 2008, às 10:59
Carlos Andreazza, directamente do Estádio Nacional [Pequim]
Como toda a arquitetura de verdade, este Estádio Nacional de Pequim [o popular Ninho do Urubu] fica muito mais bonito – interessante – quando cheio.
Uma beleza.
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Sim, já estou aqui dentro – e bem posicionado, apesar de ladeado por Renato Maurício Prado.
O mesmo não posso dizer de dezenas de brasileiros com os quais cruzei lá fora e que, como se no Maracanã dos cambistas, sei lá, vêm a um estádio, sem ingresso, com a esperança de conseguir um bilhete de última hora.
Não existe esse tipo de sorte na China. Nem jeitinho.
(Nem telões em praça pública)…
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Faz muito calor – mas a organização do evento, alheia ao suor geral [alheia a tudo quanto seja humano, aliás], propõe [impõe] uma intensa aeróbica, por meio da qual ensaia a participação do público.
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O presidente da China, Sr. Hu Jintao, vem de ganhar a tribuna – e imagino o incômodo do presidente Lula em ter de dividir as atenções do planeta com este senhor.
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Começa a festa – e muito bem, leitor tribuneiro: fantástica a participação [2.800 ritmistas] da bateria do Império Serrano neste rufar de tambores luminosos que abriu a cerimônia.
(Parabéns, mestre Átila)!
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Se esta bateção de tambor [com este peculiar tremer de troncos e braços…] ocorresse no Rio, seria macumba.
Em Pequim, é coreografia.
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Entram agora, a carregar a bandeira da China, os vários grupos étnicos [reprimidos] que formam a nação – e que, isolados em departamentos [falsamente] autônomos, voltarão para o degredo absoluto tão-logo finda esta cerimônia de abertura.
O futuro, como se sabe, é da China. (Mas nem sempre dos chineses)…
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Cousa extraordinária – grande momento – o desenrolar deste imenso pergaminho no centro da arena, sobre o qual se imprime [e move] a história da arte chinesa, com destaque para as aquarelas.
Lindo.
Uma pena, porém, que nem toda arte se possa escrever [criar] hoje neste país.
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Esses todos que tomam a arena e encenam o espetáculo, no Brasil, seriam figurantes.
Na China, são escravos.
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Como o leitor pôde notar, o teatro, pelo menos até agora, desenvolve-se em função das notáveis criações da China – a pólvora, o papel, a bússola etc.
Resta saber se tratarão de todas as invenções da cultura chinesa, caso em que terão de se ufanar de algumas mui eficientes técnicas de tortura, ainda muito em voga.
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É assim que se constrói a história de um povo – num grande teatro. E, de repente, é como se Mao Tse-Tung jamais tivesse existido – e muito menos a sua revolução cultural.
Propondo um paralelo [injusto para com a China], algo como se apagássemos José Sarney de nossa história.
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Sem dúvida que esta cerimônia de abertura supera – por pouco – aquela criada por Rosa Magalhães para o Pan do Rio.
Ainda não tenho certeza, porém, se está mais bonita que a festa do Criança Esperança.
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Fico pensando no que esses jovens lutadores de Tai Chi Chuan poderiam fazer se de súbito soltos numa boate como o Baronetti.
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Desfile de delegações olímpicas só é menos chato que Dunga e Bernardinho, de forma que, enquanto o Brasil não vem, presto exclusiva atenção nas centenas de moças e moços, todos de branco, jovens escravos que ocupam o centro da arena e não param de pular e agitar os braços.
A minha questão é simples assim: mesmo estimulados [ameaçados] pelo açoite dos feitores, conseguirão eles sustentar este ritmo frenético até a passagem da ducentésima quarta delegação?
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O uniforme da delegação brasileira me fez lembrar o figurino dos presidentes de ala do simpático Grêmio Recreativo Escola de Samba Boi da Ilha do Governador.
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Eu bem trocava esses jogos olímpicos por uma Copa do Mundo – sinceramente.
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Estou morrendo de fome, louco para ler a última crônica do Pim e, depois, dormir – mas, profissional que sou, tenho de esperar pela tal da pira olímpica, de que não há vestígio no estádio.
De onde virá?
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Acabo de escarrar na delegação argentina.
Longe de minha velha forma, porém, não tive sucesso. (Por pouco).
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A dança dos escravos ante o desfile das delegações persiste, embora já dê claros sinais de esgotamento.
(A cousa me lembra aqueles concursos de resistência da antiga, em que o vencedor era o casal que “bailasse” por mais horas – dias, às vezes).
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Eu escrevi, faz pouco, sobre tortura chinesa – e registro que está ora em curso, neste belo Ninho do Urubu, uma sua modalidade das mais agressivas: a insistente música instrumental, aguda, como que saída [sem dó] de um milhão de gaitas-de-fole.
(E o desfile não acaba)…
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Do discurso [em mandarim] do presidente do comitê organizador desta Olimpíada, só pude compreender que ele tem graves problemas dentários.
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Enquanto o povo chinês reproduz com as mãos o movimento dos pombos – da paz –, eu cerro e cruzo os punhos em olímpica homenagem à Torcida Jovem Fla, “o terror do Rio”.
Cada macaco no seu galho – e cada um com os seus hábitos de arquibancada.
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E desenrolado o pergaminho, não é que a sua última dobra veio a ser – mui coerentemente – a tão esperada pira olímpica?
Então, leitor tribuneiro, fogo no papel…
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(Fui)!


Sexta-Feira, 8 de Augosto de 2008, às 14:30
Boa edição! A melhor até agora.
Sexta-Feira, 8 de Augosto de 2008, às 18:25
Espero, para o bem do carnaval carioca, que nossos doutos carnavalescos não tenham assistido ao espetáculo; especialmente ao momento em que a tocha foi acesa por um chinês voador. Prevejo momentos sombrios na passarela do samba, com risco de morte para o público e os componentes das agremiações. Aliás, velho, que tal o enredo da azul e branco de Oswaldo Cruz, inspirado na canção É O Amor , de Zezé de Camargo e Luciano ?
Sexta-Feira, 8 de Augosto de 2008, às 12:26
O correspondente folga nos fins-de-semana?
Sexta-Feira, 8 de Augosto de 2008, às 12:30
Ivan, o Andreazza folga nos finais de semana esteja no Brasil ou na China…