por C.A. - Quarta-Feira, 6 de Augosto de 2008, às 10:12
Carlos Andreazza, directamente de Pequim
Sempre procurando, em nome da precisão, por paralelos brasileiros para esta Pequim olímpica, finalmente encontrei uma referência – carnavalesca – para o Cubo d’Água, com seu revestimento de almofadas plásticas translúcidas: aquelas alegorias high-tech que o Renato Lage criou para a Mocidade Independente de Padre Miguel no começo dos anos noventa.
O leitor se lembra?
********
Eu pensava que a desclassificação olímpica do basquete masculino brasileiro poupar-me-ia da figura deprimente de Oscar Schmidt em Pequim.
(E o basquete, afinal, teria servido para alguma coisa).
Ledo engano. Ele aqui está. E eu o vi. Oscar, a encarnação do que o Brasil tem de pior, veio à China para desfilar a sua patriótica deselegância.
********
Oscar é um antecedente do dunguismo.
********
Já escrevi que acho a arquitetura olímpica para esta Olimpíada muito cafona. Mas faço uma exceção: o Estádio Nacional, também conhecido como Ninho do Urubu, é uma construção brilhante – e tanto mais depois de se descobrir que, embora pareça um emaranhado de aço com pretensão simplesmente escultural [decorativa], a maioria de suas vigas retorcidas tem função estrutural [de sustentação].
Seja como for, é mister que se ressalve: nenhuma dessas construções olímpicas seria possível sem o aviltante emprego de operários imigrantes, grosseiramente mal pagos [quando muito].
********
Outra informação relevante – e curiosa: se existe, sim, claríssima, uma intenção de se afirmar o orgulho pátrio chinês pela monumentalidade de suas edificações olímpicas, por outro lado, quase não há trabalho de arquitetos chineses nesta empreitada, como se o país buscasse a afirmação nacional sob uma nova perspectiva, não mais isolada, auto-referente, mas com ambições integradas, globais.
(Daí porque a arquitetura desta Olimpíada chinesa tenha o vocabulário vanguardista internacional, que se pode encontrar em Dubai, em Madri, em Frakfurt - ou na Sapucaí).
********
Inaugurou-se ontem em Pequim, afinal, a esperada Casa Brasil, resultado de um investimento – público – de R$10 milhões, por meio da qual o governo brasileiro [Embratur e Apex] almeja vender produtos nacionais, assim como promover o Rio de Janeiro, com o fito de levar para a cidade os jogos de 2016.
Ou seja: a Casa Brasil é uma espécie de Cobal.
********
Em tempo: o doping do atleta Jaqson Kojoroski, da seleção masculina de handball, vem mostrar toda a evolução esportiva primeiro-mundista do Brasil.
********
Como fartamente sabido, a construção do Parque Olímpico [e de boa parte de seus equipamentos] só foi possível depois da remoção de centenas de milhares de pessoas, empurradas, qual gado, para as margens mais obscuras da cidade. (Sim, toda a grande metrópole de sucesso tem o seu Carlos Lacerda).
Surgiu, então, um grande bolsão de degredados e miseráveis, para o qual ainda não se deu nome, uma vez que a alcunha “Cidade de Deus”, por motivos óbvios, foi prontamente descartada.
Cogita-se “Cidade do Mao”, embora “Cidade de Dunga” esteja bem cotada.
********
Faltam poucos dias para a judoca Edinanci Silva, em sua quarta Olimpíada, bater o recorde brasileiro [feminino] de participações turísticas nos jogos.
(Oscar Schmitd, com cinco passeios, é o recordista maior).
********
Conversei, faz pouco, com o tenista brasileiro Thomas Bellucci e a possibilidade de enfrentar Nadal ou Federer logo na estréia, segundo me assegurou, não o preocupa.
Afinal, sua passagem de volta, independente dos resultados, está marcada somente para depois da final olímpica do tênis.
********
Sei que o esporte não tem importância alguma – mas a verdade é que o vôlei masculino brasileiro depende muito mais da genialidade imprevisível do Ricardinho que da cartilha fundamentalista do Bernardinho.
********
Do ponto de vista urbano, Pequim é muito transparente: se algo incomoda, ergue-se um muro e pronto. Tudo tapado.


Quarta-Feira, 6 de Augosto de 2008, às 10:51
Andreazza, além de mal pagos, li que os trabalhadores imigrantes da construção civil foram mandados de volta para casa, com o duplo propósito da segurança e também para tirar a imagem de pobreza que eles dão à cidade. E a baixa lotação dos hotéis, dizem, se deve a enorme dificuldade criada pelas autoridades chinesas à concessão de vistos.
Quarta-Feira, 6 de Augosto de 2008, às 11:04
Carlos a sua cobertura é o que de mais interessante existe sobre Olimpíadas, o que me faz achar que elas não são de todo insuportáveis.
Quarta-Feira, 6 de Augosto de 2008, às 14:22
Eu tenho minhas duvidas em relacao as tais pessoas afastadas como gado dos grandes centros. Afinal, o Cesar tb sofre a mesma acusacao. Dizem que ele desalojou ilegalmente um monte de gente da Barra e Jacarepagua, para construir instalacoes do Pan. Alias, os calhordas dizem que ele recebeu dinheiro de construtoras em sua campanha e, assim, as paga. Ele recebeu, sim, como todos os candidatos. Mas a acusacao nao procede. Alem disso, dizem que as construtoras pagaram tambem para o jornal O Globo estimular as remocoes com a campanha Ilega, e dai?
Nao aguento mais a imprensa comunista do Brasil.
Deviamos ser a China ao contrario e calar esses comunistas.
Quarta-Feira, 6 de Augosto de 2008, às 14:23
O High Tech do Renato Lage continua ate hoje. Ja era cafona naquela epoca e ele insiste. O Renato Lage eh o Hans Donner do carnaval.
Quarta-Feira, 6 de Augosto de 2008, às 14:24
Gabi, é sempre melhor que se possa falar - livremente.
Quarta-Feira, 6 de Augosto de 2008, às 14:24
A critica ao Oscar eh genial.
Quarta-Feira, 6 de Augosto de 2008, às 18:18
Gabi, embora às vezes vc me soe como um Olavo de Carvalho de saias, essa do Lage, tenho que admitir, foi boa.