por C.A. - Terca-Feira, 29 de Julho de 2008, às 11:46
Carlos Andreazza, directamente de Pequim
Qual anunciado, eu começaria a publicar minha cobertura olímpica apenas na quarta-feira [30] – mas: cheguei a Pequim, vi e li já um bocado de cousas e, aproveitando as horas de entorpecimento que um litro de café me assegura, escrevo as primeiras notas.
Depois, entregar-me-ei ao sono.
********
Desde o aeroporto, o maior do mundo, até o hotel, o maior que já vi, passando pela segunda maior estrada já construída [só perde para a fabulosa Transamazônica], pus-me a pensar numa cidade que pudesse dar ao leitor tribuneiro, com precisão, a dimensão aproximada do que é Pequim – e cheguei a um resultado que julgo insuperável: Pequim é a Itu oriental.
********
Ainda sob a pretensão de familiarizar o leitor com as cousas da China, percorri longamente os monumentais vãos do novo terminal do aeroporto de Pequim – o maior do mundo, não custa reforçar. Os números, conforme me certifico no hotel, são dignos dos melhores tempos da nossa Infraero – ou os 3,6 bilhões de dólares gastos na obra não lhe parecem mui íntimos daqueles tantos aplicados na recente expansão do Galeão?
********
Em tempo, dedicando-me sempre à exatidão, também me esforcei por encontrar um similar brasileiro para este frondoso aeroporto – e encontrei: a estação de metrô Cardeal Arcoverde, em Copacabana, decerto que foi a inspiração dos chineses.
********
Ainda não tive dificuldades gastronômicas – e estou convencido de que só as tem quem as procura. O hotel, de uma rede multinacional, é tão bem servido que, ocorreu-me, far-me-iam uma tapioca se eu assim desejasse.
(Mas, claro, eu não gosto de tapioca).
Em suma: se o leitor procura aqui por uma cobertura que se lance a exóticas aventuras alimentícias [comer besouros, minhocas, cachorros, viadinhos etc. pelos becos mais obscuros de Pequim], aviso que não sou o Zeca Camargo.
********
O meu quarto é auto-suficiente em uísque.
********
Considero essas arenas esportivas temáticas – Ninho do Pássaro, Cubo D’água, Cubo de Ouro etc. – de uma cafonice ímpar.
Especialmente o Cubo D’água, sede das disputas de natação e saltos ornamentais, tende a resultar num equívoco para lá de meramente arquitetônico: revestido com imensas bolhas de plástico translúcido, já de longe se vê acumular a poeira tóxica do grande cinza que é Pequim.
Se não chover urgentemente, a arena, concebida para simular o efeito das águas, reproduzirá, com perfeição, o mar da Baía de Guanabara…
********
O esforço ambiental dos chineses é notável. E ridículo. Por onde quer que se ande, rua após rua, vê-se um caboclo dedicado a plantar um jardim de última hora, sem que saiba, contudo, distinguir rosa de espinho – e é então uma seqüência de gramados que ainda não pegaram, com aqueles tufos descolados…
Os chineses não estão nem aí para o meio ambiente – eis a verdade. (É uma questão cultural)… Mas querem agradar. O meu guia, orgulhosíssimo, deu-me o grande exemplo de quão artificial um povo pode ser para causar boa impressão: a petroquímica de Yashan, gigantesca, cortou toda a emissão de poluentes. Temporariamente… (Leia-se: parou de trabalhar até o fim dos jogos). E o governo estuda aplicar – para já – um rodízio que retire 90% dos automóveis das ruas.
Desta névoa que me turva a vista e já faz arder os olhos, entretanto, duvido que consigam se livrar.
********
Faz muito calor. A qualquer hora do dia. Isto, sem que o sol, sempre encoberto pela supracitada névoa de poluição, dê o ar de sua graça.
********
Creio em que o Brasil não ganhará sequer uma medalha de ouro nesta Olimpíada.
E não que seja uma questão de fraqueza esportiva… O ar francamente poluído de Pequim parece-me barreira insuperável para os atletas nacionais, acostumados ao oxigênio fluente e virginal desta nossa terra de Vera Cruz.
********
Preocupo-me especialmente com os pulmões, ultra-sensíveis, do ginasta Diego Hipólito.
********
Não nos devemos preocupar excessivamente, porém. A despeito de só a vitória enobrecer, o esporte não tem importância alguma. E eu não estou aqui para escrever sobre competições atléticas.
Eu vim para difamar o regime comunista chinês.
********
(O esporte não tem importância alguma, salvo quando vence o Flamengo).
********
Se eu tivesse de apostar dinheiro [dos outros] num atleta brasileiro, apostaria
O judô também nos deve legar um ou outro bronze.
********
A derrota dos fanáticos do vôlei masculino brasileiro, em pleno ginásio do Maracanãzinho, sugere que a lavagem cerebral do Sr. Bernardo Rezende, o guru da seita, pode ter desandado.
Melhor para o esporte que os chatos também percam.
********
A propósito, lamento que o futebol ainda não tenha sido excluído das Olimpíadas. A presença de Dunga na China só é boa para o Bernardinho.
Afinal, nada pode ser mais aborrecido que o dunguismo.
********
A Casa Brasil, com shows, cenários e comidas tipicamente nacionais [salve-salve!], passará a funcionar em 4 de agosto, na principal avenida desta capital chinesa – resultado do urgente e imprescindível investimento de R$10 milhões.
Dinheiro público brasileiro, leitor.
********
Não trabalho na Globo - ou seja: Beijing é o c%r@l&o!
********
Nota: estudamos, Pim e eu, a possibilidade de gravar uma edição olímpica do Sem vinheta - o programa tribuneiro de rádio - via telefone ou, quem sabe, Skype. Não prometo, mas estou procurando, aqui no hotel, os meios técnicos necessários para tanto. A conferir…


Terca-Feira, 29 de Julho de 2008, às 13:19
“Pequim é a Itu oriental”, pelo pontapé inicial essa cobertura promete…já estou rindo à toa.
Boa sorte, correspondente!
Terca-Feira, 29 de Julho de 2008, às 14:05
Muito bom! Os tais ares poluídos da China, pelo visto, te deixaram inspirado…
Terca-Feira, 29 de Julho de 2008, às 15:13
Achei tudo absolutamente genial. Mas destaquei alguns trechos:
Pequim é a Itu oriental.
Eu vim para difamar o regime comunista chinês.
A derrota dos fanáticos do vôlei masculino brasileiro, em pleno ginásio do Maracanãzinho, sugere que a lavagem cerebral do Sr. Bernardo Rezende, o guru da seita, pode ter desandado.
Melhor para o esporte que os chatos também percam.
Não trabalho na Globo - ou seja: Beijing é o c%r@l&o!
Terca-Feira, 29 de Julho de 2008, às 22:15
C.A,
Estou contigo no palite do Cielo e do Judô.
Mas tenho certeza também de que o sempre alvinegro e nunca chato Bernardo Resende trará mais um ouro para nosso Brasil. (penas que seja em um esporte tão desinteressante feito o volei).
Digo mais: como o bom Policarpo Quaresma que sou, estou com muita fé nos selecionáveis do nosso Dunga.
To sentindo o cheiro de ouro inédito trazido pela bravura dos comandados do eterno capitão do Tetra.
Um grande abraço.
Terca-Feira, 29 de Julho de 2008, às 11:52
Carlos,
como leitora tribuneira (ainda que só de alguns tribuneiros pois estou tomando gosto de novo pela leitura,abandonada por alguns anos difíceis),acompanharei todos os textos para ter uma visão verdadeira da caótica China que me encantou e desencantou quando assisti que com a crueldade de Mao em só permitir um filho por casal ,as meninas recém-nascidas eram abandonadas em orfanatos, que nem o mais cruel ignorante podia ter imaginado.Sentadinhas em cadeiras(um misto de “troninh” e cadeira de refeição) amarradas sem fralda ,seres humanos do sexo femininos eram alimentadas e abandonadas.