por Tribuneiros - Segunda-Feira, 28 de Julho de 2008, às 15:36
Saiu no Jornal do Brasil do último sábado (26/07/2008) mais uma crítica literária do nosso polivalente Felipe Moura Brasil, o Pim Monumental, desta vez a respeito do romance A primeira mulher, do paranaense Miguel Sanches Neto.
E não será esta, leitor, uma aula de literatura sobre outra?…
Confira o texto, abaixo.

De como falar de tudo e de todos num romance
Novo livro de Miguel Sanches Neto vale por uma aula nada teórica
Felipe Moura Brasil
Jornalista e Escritor
Professor de literatura como Miguel Sanches Neto, o narrador-protagonista de A primeira mulher critica a produção atual dos escritores no Brasil e no mundo: “Eu imaginava uma literatura contemporânea que fosse tão profunda como os grandes livros da modernidade, mas via, a cada lançamento, (…) um sussurro tímido ou uma perversão constrangedora.” É natural supor – exigir, quem sabe - que uma frase como essa venha dentro de um romance, no mínimo, acima da média. E vem. Vem num romance bem acima da média, como o é, de fato, seu autor, não à toa incensado como o melhor de sua geração.
Depois da ficção memorialística de Chove sobre minha infância e do viés histórico de Um amor anarquista, Miguel Sanches mostra sua habilidade de aproveitar cada brecha de um enredo para inferir sobre questões literárias, amorosas, sexuais, cotidianas, familiares, sociais, políticas e universitárias, sem jamais soar didático ou exagerado, amalgamando os comentários dos personagens à história de tal forma que é difícil saber se até as observações mais banais ganham nela um significado maior, ou se a história e os personagens é que ganham em profundidade a partir das reflexões que suscitam. É desta generosidade recíproca que se alimenta a fluidez da narrativa, oferecendo ao leitor uma rica diversidade de situações divertidas e emocionantes, das quais sempre sobra algum valor universal.
A pedido de uma ex-namorada da juventude, hoje candidata a prefeita, um solteirão de 40 anos - dom Juan de suas alunas de 20… - sai do isolamento dos livros para investigar extorsões da campanha eleitoral, e tem todo o seu desconforto existencial destrinchado à medida que ele mesmo se esforça para descobrir seu lugar no espaço e no tempo. A dúvida entre dois amores (por uma das jovens alunas e pela ex-namorada agora madura), sobretudo entre quem simboliza o passado e quem o presente, demarca a ambivalência contra a qual suas novas experiências lhe fazem lutar, transitando da investigação “policial” – no (sub)mundo da política brasileira - para a sua própria – pessoal, interior e familiar – , numa amplitude que, muito bem costurada, permite ao autor conjugar os mais variados ingredientes.
É assim que nascem pensamentos e diálogos certeiros sobre o que as pessoas vão fazer num velório, estudantes “louquinhas” de psicologia, como tratar universitárias atraentes, a hipocrisia do Natal, mulheres que enfeiam depois do casamento, serviço de acompanhantes sem porteiro, o vício de ler o noticiário, a cidade vazia no verão, comida a quilo, caso de amor com o carro, botecos, o cheiro das mulheres belas, nudez na internet, virose, imediatismo, compra e venda de gente, o poder da palavra mãe, as relações entre higiene e crime, político e churrascaria, arma e sexo, amor e desejo, pais e filhos, religião e realidade, patrões e empregados, professores e alunos, e até masturbação de mendigo.
Em toda essa dispersão contemporânea, o narrador consegue identificar e reordenar fatos e simbolismos capazes de apontar uma saída para sua solidão, o que, ao mesmo tempo em que o obriga a revisitar seu passado, vai dando a ele e ao livro uma unicidade forte e louvável. E não só por entremear os capítulos com uma interpretação sensual do poema “Cântico dos cânticos”, Miguel Sanches confere à sua obra “uma dose essencial de poesia”. Mas é que, como queria – e, aliás, fez – Edgard Telles Ribeiro, no belíssimo Um livro em fuga, ele conseguiu escrever “um livro que desse uma volta sobre si mesmo e voltasse ao ponto de partida transfigurado. E que, nesse processo, oscilasse entre o trágico e o cômico, sem excessos”. Menos teórica que literária – como prefere o professor -, eis uma aula de literatura.


deixe seu recado