por C.A. - Sexta-Feira, 25 de Julho de 2008, às 15:39
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“Sou um bom escritor, simplesmente. Isto de que é feita a literatura: de bons escritores. Não de maus, não de excepcionais escritores – mas de bons: os que carregam o piano das simples e boas histórias. Os que são a argamassa da literatura. Os que vão adiante, positivamente – os que dão liga. Eu, entre eles. E nada além. Que mal há? Sou um bom escritor com ganas de mergulhar numa história e contá-la com tudo quanto puder. Será, então, muito. Simples e muito. Demorei, mas cheguei aqui… Adquiri consciência do que sou. Do que não sou, também. Não serei genial e os que assim me lerem terão toda a minha desconfiança. Sou radical nisso. Não me perco nisso, com isso – no anseio de escrever um clássico, revolucionário; um livro de geração… Acho que estamos de acordo aqui. Eu aprendi…”
(Silêncio; ele talvez esperasse que eu dissesse algo, não sei, e se interrompeu; e continuou).
“Daniel, falo assim porque considero importante esta introdução; porque o meu projeto a enseja, porque meu percurso a justifica” – prosseguiu.
Não me oponho, Guilherme – eu disse.
“Sempre haverá os que me lerão como um escritor de internet – um blogueiro, no que isso tem de pior, de pejorativo. Cabe a mim, com o tempo, com o trabalho, reverter esta imagem, ou minimizá-la, tanto faz. Hoje, devo dizer, ela é justa. E me serve. Acrescenta. Ajuda. Desafia… Eu sou um escritor de internet – um bom escritor de internet – no que isso possui de melhor e pior. Como bem disseste, Daniel, acho que não escrever à toa é a única coisa de honesto que um escritor pode fazer hoje… E eu… Eu acredito no terreno de onde parto, nas arestas que aparei, no meu caminho, nos tombos – no que me fez, no que me faz, hoje. De algum jeito, estou zerado. Estamos zerados, não é? Ambos? Acredito no meu tempo perdido, nos livros não lidos, e na forma, única, como posso recuperá-los – a forma literária, Daniel… Otimismo! Ou restará outro tempo para mim, nesta altura, senão o da criação? Estou zerado… E isto é ótimo. O meu tempo é o da escrita, o de me dedicar à escrita – ao meu projeto, que é mergulho de corpo inteiro, feliz e incondicionalmente. Defini minha meta, encontrei-a, meu objeto, meu objetivo, meu projeto… E eu me preparo para ele – para o mergulho. Não me adio. Preparo-me. É preciso… É… Sem exagero, até faz bem pouco, eu fui refém da internet. E escrever à toa, esta negação contumaz do escritor… Escrever à toa é propriedade da internet; é decorrência deste poder midiático da internet e de seu caráter imediato, urgente, iminente. E escrever à toa fui eu, completamente eu… Eu. Há um sistema, um enredamento inevitável, para o qual talvez não se tenha ainda dado a devida atenção… És bom escritor?, escreves bem?, tens o que falar?, sobre o que falar?, e logo amealharás leitores, cairás na tela dos demais e serão mais e mais leitores, mais pageviews, o teu nome voará, o teu blogue correrá aquele universo e mesmo o expandirá, como não?, acreditas já em tudo…; e os leitores comentam, comentam, elogiam, preenchem os espaços com generosa ignorância, e aquilo tudo é fantástico e necessário e… É uma dependência, Daniel. Eu me tornei dependente. Nada pode ser mais nocivo para um escritor, qualquer um, que a ilusão dos comentários, da maldita interação, que a ilusão de ter leitores instantâneos, que a ferramenta de comunicação imediata, isto que é a própria internet, a miragem do retorno imediato que é a internet… Para a literatura, nada pode ser pior que a inexistência de fronteiras, de distâncias. Nada pode ser pior que a dissolução dos correios… Já pensaste nisto? É um efeito novo sobre o escritor; um efeito desqualificado, negligenciado como o é, aliás, o escritor na internet, da internet: o eco, a resposta instantânea do leitor, a noção de audiência permanente, incontinente. É poderosíssimo… E como não nos acomodar? Como não nos bastar? Publica-se – e é já o retorno. E é uma delícia. E é um terror. Os dois, ao mesmo tempo, sempre. E então tu te pegas tantas vezes a escrever apenas para satisfazer este desejo antiliterário, este ímpeto volátil, alheio, exterior, esta impressão de onipotência, este egoísmo, teu, meu, pessoal, mesquinho, de ser menos lido que elogiado e elogiado e elogiado… Quanta merda não terei escrito sob o sacrifício do escritor que me queria ser, para regozijo do entertainer, do palhaço circense que era? Quanta merda não terei escrito para, por fim, questionar – com raiva e mira desviada, equivocada: que leitores são esses!? Quando a questão, óbvia, deveria ser: que escritor sou eu? – esta que ora me faço e me tenho feito, esta, libertadora, otimista, positiva! Que escritor sou eu?”
[…]
(Para ler o Fragmento de um exercício literário I - obra em progresso, clique aqui).


Sexta-Feira, 25 de Julho de 2008, às 17:54
Posso preencher o espaço com a minha generosa ignorância?
A leitora (ser em tão baixa conta) se sente estranha quando volta a um texto antigo e o percebe modificado, mexido, remexido. Dá uma sensação esquisita…Me pergunto, como? Mas eu gostava tanto do outro jeito. Que peito desse escritor! Quem o autorizou? Os leitores também têm as suas idiossincrasias.
Vivas aos escritores! Sem vocês, o mundo perderia muito da graça.
Sexta-Feira, 25 de Julho de 2008, às 19:49
Olga, olímpica!, este é um texto de ficção, você sabe, e o teu escritor aqui muito se agradaria de ser lido como tal.
Sexta-Feira, 25 de Julho de 2008, às 15:00
A leitora sabe que o texto é de ficção, mas também se agradaria muito se pudesse fantasiar e misturar tudo, tanto quanto o escritor de inventar.