por C.A. - Segunda-Feira, 26 de Maio de 2008, às 19:14
(…)
Chamo-me Daniel Manza – apresentei-me. E não, não sou blogueiro. Nada contra. A internet me interessa muito pouco, embora não desfaça de quem a use – e saiba usar, sobretudo. Isso faz muita diferença… Como se diz: internet nunca foi a minha. Reconheço que é uma ferramenta importante e tal, de divulgação, de se fazer circular, mas… Enfim, meu primeiro livro sai agora, no mês que vem. Pelos métodos convencionais. É uma coletânea de crônicas, pequena. A tiragem é mínima. É um movimento enxuto por qualquer ângulo. Aliás, é um livro convencional por qualquer ângulo. Digamos que pretendo tatear… Digamos que creio em que é preciso abrir a porteira, quebrar o gelo da estréia… Tudo ficará mais fácil, mais simples depois. Eu acho.
“Escritor é quem escritor se diz, meu caro Daniel Manza”. (Eu discordava daquilo). “Você não precisa me explicar coisa alguma. Não te cobro. E, por favor: não te sintas provocado se a provocação não convier à continuidade de nossa conversa”. (Pretensioso e seguro e…). “É-se escritor. Ponto final. Acredito nisso e não poderia ser diferente. Com ou sem livro: ser escritor é um sentimento; uma visão de mundo. Eu mesmo… Eu mesmo me apresento como escritor, tu bem ouviste, e nada mais terei a oferecer que uns rascunhos, que uns contos, que uns exercícios – que a sinopse dum grande projeto literário”… (Agora, sim, eu entendia: o juízo dele sobre ser ou não escritor, muito antes de pretensioso ou generoso, arbitrava em causa própria). “E ninguém me negará o sentimento – a convicção – de ser um escritor”. (Piegas). Além do mais, eu sou blogueiro”. (Ali, ora, ali estava: configurada a personagem típica do escritor com um grande projeto literário; e talvez fosse mais um escritor do futuro, do amanhã, um otimista sobre si mesmo, encubado na grande rede, este tipo que é ainda mais comum que o escritor pessimista e marginal). “Não chego a me orgulhar, mas… Tenho alguns leitores, conquistei alguns leitores pelo blogue; tenho, acho, uma base para o passo seguinte, para o meu livro, o meu projeto.”
Concordo em que ter um livro publicado não seja exigência para um escritor se dizer como tal. Publicar livro, hoje, é fácil. Qualquer um publica. É barato… Não é isso. Tampouco acho que para o ser baste se dizer, considerar-se. ‘Sou escritor’ e um abraço. Não é assim, Guilherme. (Eu o encarava). Deve haver algo de… Talvez eu não saiba – jamais – definir um escritor. Mas tenho uma idéia para o que não o define. Ser escritor, como profissão, é caminho de se anunciar com cerimônia. Para mim, pelo menos. Com discrição. Eu, em todo caso, só o faço se diante de outro escritor, como fiz contigo, embora me tenha surpreendido com o jeito direto como o falei. Talvez porque você se tenha apresentado antes, não sei… Talvez porque seja jovem como eu e decerto iniciante – como eu. Sei lá… Não importa… Ser escritor e se dizer escritor não é como ‘sou advogado’ – e pronto. Não é. São tantos acúmulos, tantas referências… Tantas gerações e experiências. Nós nos perderemos na angústia de ser, de seguir, de respeitar. Acredito na prática: em escrever. No ato. No conjunto: ler, escrever, ler… É o que resulta. Decide. Talvez seja uma rara possibilidade de não se engessar, de não se amedrontar com o falso peso de que tudo já foi escrito: escrever; se algo tivermos para tanto, escrever. Quiçá seja mesmo a única maneira de reverenciar os grandes mestres: lê-los e tão-só. Lê-los – e não sê-los. E não querer os ser. A reverencia produtiva, ora, a única essencialmente literária: escrever em vez de ser escritor, de ser o escritor, de o ser para os outros, como os outros; escrever em vez de se comprometer com isso, com a escrita segundo outrem, com a escrita ideal, com o escritor modelo, a escrita modelo, com a idéia que as pessoas tenham para ela e com o que isso implica e cobra e exige. Anunciar-se escritor é se deslocar… Sem destino. É se endividar. É perder chão. Raiz. É abrir-se ao mundo – a um mundo hostil, adverso. É tornar público o que definitivamente público não é. É tomar contra si crédito impagável. Pelo menos – e com sorte: impagável para uma data marcada, para um tempo que desconsidere, que desconheça o tempo da criação, o ritmo da criação… Neste fazer, nem toda a dedicação será. Nem toda a linha permanecerá – ao fim, porque um fim dificilmente haverá, literário, escrito, fim, the end, dificilmente. Nem toda a linha encontrará um ponto final. Raramente chegará à liberdade do ponto final. Mais normal será que morra antes, abortada. Abandonada. Mais desejável será, até. E por que compartilhar desta perda? Por que compartilhar desta perda, se para todos perda será - e não para nós? Por que informar deste cemitério se somente para nós ele será vida e esperança – se somente para nós será caminho para, partida para? Se somente para nós não haverá enterro – para quê?
(Silêncio; ele apenas me olha)…
Faz dois, três anos, eu fui ao oftalmologista. Disse-me escritor – assim: escritor. Escrevi no papel: e-s-c-r-i-t-o-r. E nunca mais, depois… Sem me censurar, a título de curiosidade talvez, contou-me o médico que certa feita recebeu Drummond, já consagrado, e que Drummond se fez declarar na ficha: jornalista. Jornalista – entende? Mais que a timidez, o poeta – grande – se quis preservar. Resguardar. Preservar os túmulos dele – os futuros: o remoer da terra, a podridão das carnes, dos tecidos, a fartura orgânica e silenciosa de que é feita a literatura. O escritor. Ele sabia, intuía… Decerto que sabia. O escritor está no que escreve, em seu ofício, em suas idéias, em seus leitores, talvez. No que escreve. No que escreve e cospe. No que escreve e renega – e rejeita. Defeca. Excreta. No que escreve e apaga. Expele. No que escreve e enterra – e queima. E arde. E fica. E fica. O escritor está no exercício de escrever como no livro impresso… É uma visão de mundo, um sentimento, concordo – mas interno e só. Íntimo. Escrever é acúmulo invisível. Na boca, na rua, nos outros, nos olhos dos outros, o escritor pode ser tudo – louco, vagabundo, gênio, charlatão, pretensioso… Mas dificilmente será escritor – escritor, intransitivo. Dificilmente.
“Acho que definiste o escritor bem antes, em bem menos linhas, quando eu ainda não sabia que podias falar: o escritor é sobretudo um leitor – não foi isso?”
As pessoas não compreendem muito bem – ou talvez não vejam seriedade em – o ser escritor. Não como profissão, como carreira. Mil vezes músico, hoje… Vá tocar piano, violão? Todo mundo ouve música – mas não a executa. As pessoas, porém, lêem pouco, quase nada – mas acham que podem e sabem escrever. Foram alfabetizadas, ora… Aos 5, 6 anos! E escrever fica logo supérfluo, evidente. É o que a internet – que você conhece melhor do que eu – impõe e fantasia qual jamais. Um mundo de escritores – todos diletantes… Todo mundo é escritor e basta sentar, começar a escrever – e um livro surgirá. Todo mundo tem uma história irresistível para contar. Questão de tempo. No máximo: de esforço, de empenho. Todos são escritores em potencial. Mas se adiam… Por profissão, urgentes, apressados, são advogados ou, mormente, operadores do mercado financeiro. Gentes sérias… Meus amigos todos o são. Eles só falam do mercado, dia e noite, é a agenda, o futuro, já-já, e é fantástico como enriquecem cedo e como dez mil dinheiros não lhes são nada… Eu gostaria de lhes achar ridículos, todos iguais – mas, como? Eu, como eles, segundo eles, nada tenho de exclusivo… Senão, o excêntrico: sou em tempo integral o que eles podem ser quando quiserem… Quando perguntam sobre mim, sobre o meu trabalho, fazem-no com curiosidade, como se uma pausa breve para o diverso, um refresco para o folclore, e logo se cansam e retomam os milhões sem jamais me entender e sem entender de onde tiro tão pouco, mesmo que pouquíssimo, e como vivo com tão pouco. Eu os entretenho, brevemente. Alguns até me admiram. A coragem… A loucura. O disparate de ser em tempo integral o que eles podem ser quando quiserem, en passant…Todos podem ser escritores, afinal; todos o serão a qualquer momento, e nós, que o somos já, devemos apenas trabalhar e ler – ler, a diferença –, ler e pesquisar, ler e estudar, ler e engenhar tramas literárias. Ler muito, escrever pouco, mas sempre, mesmo que para o lixo: gerar provisões de prosa para quando eles resolverem criar. É questão de tempo… Na pior das hipóteses, estaremos um passo à frente.
“É o que você faz, não?” (E gesticulava teatralmente). Trabalha, lê, lê, lê, e cria, publica… No mês que vem! (Braços ao alto). Talvez eu me perca nas alegorias, na especulação, no devaneio do meu grande projeto – não é o que pensas, que eu me adio, com medo?” (E me encarou em desafio: sim, era o que eu pensava).
Não penso nada sobre o teu projeto, que sequer conheço. Não sou assim. Não me julgue, por favor. É só o que pode atrapalhar a nossa conversa. Sobre o meu livro… Honestamente, ele é resultado de tudo isso de que falei, sim. De leitura – muita leitura. Da definição, em termos literários, mas não só, do que gosto e, principalmente, do que não gosto. De trabalho, sobretudo. De se imaginar detentor de algo a contar, de algo válido, merecedor, consistente, e então sentar e escrever. Não há outro meio. Eu disse, porém, que publicar um livro é processo fácil. Friamente, é mesmo. É barato, hoje em dia. Já disse isso, também. Mas, na prática, não é simples, não. Não basta ter um texto escrito. Não o basta escrever. Não. Você sabe… Publicar um livro significa, antes de tudo, estrear. Significa, portanto, o ponto final, mais um, na possibilidade de estréia. Não haverá outra – para mim. E é normal que me quisesse adiar, fantasiar… Falo de mim, da minha experiência; e não de você ou de qualquer outro – que fique claro. Se algo de triunfo há na minha estréia, de antemão, é que fugi do medo, dos sonhos, dos clichês de um escritor promissor. Que seja promissor o meu livro. Quando eu o soltar, tome o caminho que tomar, não haverá volta. Graças a deus. O próximo, se houver, quando vier, será o segundo e será recebido, com sorte, pelo que do primeiro restar… Da memória. Minha estréia será memória mais que sucesso ou fracasso. Eu decidi arriscar. Este é o meu mérito maior. Pensando bem… Pensando no que me disse faz pouco, acho mesmo que você tem coisas que me faltam: esta base de que falou, o leitor, ter o leitor, ainda que virtual, ter leitores, receio que ainda me falte… Eu parto do zero. E daí? Conto apenas com os ventos do mercado, com uma ou outra resenha. Não foi sempre assim? Fui oportunista. Trabalho numa editora. É uma editora familiar… Não é o melhor caminho, mas… Apresentei-lhes o meu manuscrito e eles decidiram por publicá-lo. O resto é futuro. Não acho que se deva desperdiçar uma oportunidade dessas…
“De jeito nenhum, Daniel. Eu não a desperdiçaria.”
Quero abrir a porteira mesmo, o quanto antes, ver no que dá, fazer o primeiro boi passar, botar o bloco na rua, no pasto, lançar meu nome e… Tenho muito pouco a perder, quando penso com valentia. Nem sempre… Na pior das hipóteses, terei um livro publicado – o que sempre será melhor do que não o ter. A tiragem pequena, em todo caso, poupar-me-á de muito longamente difamar o idioma… (Ele riu; fiquei satisfeito: a conversa me parecia tensa, desconfiada, de rumo enviesado – e mais competitiva do que o necessário). Mas, Guilherme, para que o possa enfim satisfazer, para que possa afinal julgá-lo, fale-me deste teu grande projeto literário?
(…)


Segunda-Feira, 26 de Maio de 2008, às 20:44
É isso…
Segunda-Feira, 26 de Maio de 2008, às 14:24
Qualquer situação (profissional) torna-se diferente quando se é excelente, como, pelo visto, este camarada é …
Segunda-Feira, 26 de Maio de 2008, às 15:12
Sofia, a excelência está, como sempre, na tua leitura.
Segunda-Feira, 26 de Maio de 2008, às 16:26
Perfeito, Andreazza!
Segunda-Feira, 26 de Maio de 2008, às 17:45
“Para que, em suma, quero escrever? Não sei por quê, mas acredito que, se eu a anotar, há de me deixar em paz”. Dostoiévski também tinha dúvidas.
Andreazza, meu sempre querido escritor: que venha o livro!!
Segunda-Feira, 26 de Maio de 2008, às 18:13
Estão tirando a sesta?
Segunda-Feira, 26 de Maio de 2008, às 18:18
É apenas uma peça ficcional, Olímpica Olga. Dostoievski, este grande jogador, é outra cousa…
Segunda-Feira, 26 de Maio de 2008, às 19:00
Andreazza, me dê o benefício da dúvida…
O Dostoiévski foi apenas porque ao acabar de ler esta “peça ficcional - apenas uma brincadeira de povoar…”, me veio essa frase do fabuloso escritor.
Ah, por mim, está perdoado, até mesmo pelo que não fez.
Segunda-Feira, 26 de Maio de 2008, às 16:31
Excelente retorno, meu amigo Andreazza. Simples, exato e contundente.
Segunda-Feira, 26 de Maio de 2008, às 16:48
J.P., meu amigo, eu já pensava que estivesses em Buenos Aires!