por João Paulo Duarte - Quarta-Feira, 23 de Abril de 2008, às 21:22
Milhares de pessoas passaram por aqui desde a noite de ontem. Gente com seus próprios dioclecianos, unidos pelo nome de alguém que foi, sozinho, mais forte que qualquer homem, exército, repressão e religião.
Assim que me juntei à multidão me emocionei com a união anônima e os olhares conjuntos, num fadário coletivo que mistura crença e certeza da força de quem morreu há mais de mil e setecentos anos – e chorei copiosamente. O vermelho, que se juntava ao azul e ao branco; centenas de milhares de flores levantadas pelas mãos juntas, terços e anéis com a imagem. Santinhos dos mais variados, fitinhas coloridas, pôsteres, quadro, estatuetas, acompanham as gentes. A fila – que só cresce – leva ao santuário, dá voltas pelos quarteirões e talvez ultrapasse um quilometro de fieis.
Passa sozinho João Pinheiro das Neves, que completa setenta anos em dois meses. Na beira da Presidente Vargas, força a vista para tentar ler o número do ônibus que vai sair daqui a pouco e está parado no outro lado da avenida. Camisa vermelha sangue de algodão – toda esticada, marcando o corpo esgrouviado –, calça branca de linho, e um sapato branco, sem meias. Mostra com orgulho o anel enorme com o santo cunhado. Costuma dizer que sua religião é a devoção pelo guerreiro. Mora de aluguel numa quitinete, sem nenhum luxo, com uma estante, uma cama quebrada e duas cadeiras; um rádio com fones de ouvido, e uma sucata de televisão toda remendada onde “às vezes dá pra ver alguma coisa”, e nada mais. Garante que fez de tudo na vida, que ainda faz, que conheceu governadores, deputados, senadores e “tudo que é nome importante”. João foi também poeta, mas não lembra de texto nenhum que escreveu. Disse que vendia poesia pra caminhoneiros. Mas a grana pro anel veio da época em que apontava bicho na Cinelândia.
Contornando a esquina da igreja, dezenas de pessoas se aglomeravam em volta de uma espécie de churrasqueira, acendendo velas – a maioria vermelha. Um bombeiro observava de longe. No outro lado da esquina, um paramédico (vestido num daqueles macacões vermelhos) enfrentava a fila.
A celebração do lado de fora é feita num palanque e, na hora da benção, a água vem de um balde de manteiga reaproveitado, e o sacerdote encharca uma vassourinha de piaçaba e joga grossos pingos de redenção na multidão. Embaixo, a cena é comovente: o povo todo se reveza para chegar perto do padre e do assistente de padre. O sol está a pino, queimando. A água molha os corpos dos velhos, das mulheres, das crianças de colo, dos bem vestidos, das mulheres com tantas lembranças que as mãos mal conseguem segurar, dos altos, dos baixos; de todos.
Maria de Lourdes, encostada nas grades que cercam o Campo de Santana, bebe água enquanto a filha tenta acalmá-la. Segura com força uma imagem do santo. Com tanta força que parece que vai machucar a mão. Em dezembro do ano passado, o irmão de Maria morreu. Ele era policial militar reformado e levava o neto pro colégio num ônibus. Um assaltante – que roubava carteiras, celulares e relógios – descobriu a profissão do homem. Maria pedia que São Jorge fizesse companhia ao irmão.
Os amigos sorriem enquanto vestem camisetas que acabaram de comprar. Depois se abraçam, e vão juntos procurar um lugar pra almoçar e depois assistir ao jogo do Botafogo. Uma mulher liga emocionada pra mãe, e confirma que agradeceu pelo emprego que conseguiu no ano passado. A afluência só aumenta. [Não quero saber de milagres, nem de pedidos; o exemplo histórico é mais forte que qualquer sortilégio. Foi apenas um homem que teve força de confiar na própria índole e acreditar que faz o certo quem não trai a si.] Milhares de pessoas ainda vão passar por aqui até amanhã.


Quarta-Feira, 23 de Abril de 2008, às 22:34
J.P., surpreendente: mudou de tema e continua excelente.
Quarta-Feira, 23 de Abril de 2008, às 23:12
Maravilhoso!!!!!
Quarta-Feira, 23 de Abril de 2008, às 14:10
Muito bom, JP! Muito bom meeesmo!
Quarta-Feira, 23 de Abril de 2008, às 15:17
Belo texto, digno de um estudante benedito, jornalista formado na PUC que tem amigos verdadeiros, uma grande família, tem uma namorada que o ama e é amada.
Quarta-Feira, 23 de Abril de 2008, às 17:05
Marcão, apesar da ironia ter ficado clara no seu comentário, acho que é importante esclarecer que sou inaciano, e joguei pelo escrete do Jockey Club e, porteriormente, pelo Sangue do Pires, na PUC. Nenhum desses times era mole…
Quarta-Feira, 23 de Abril de 2008, às 17:44
Com efeito, o escrete do Jockey Club Brasileiro, do qual fui respeitado capitão [além de infernal meia-esquerda], esteve invicto por seis anos, jogando todos os sábados, e só veio a perder quando roubado sem dó pela arbitragem num jogo - que não chegou ao fim, por motivos de porrada generalizada - disputado no verdadeiro carandiru que é o campo soçaite do Clube Monte Libano, nosso freguês histórico.
Quarta-Feira, 23 de Abril de 2008, às 17:52
Pois é, meu bom amigo - e sempre lembrado estimado companheiro do escrete magnífico do Jockey Club Brasileiros, nos anos 1990 -, Andreazza, você há de concordar comigo: aquele time não tinha nada de mole.
Quarta-Feira, 23 de Abril de 2008, às 18:00
Ah! Eu não poderia me esquecer, do refinado volante desta esquipe: Felipe Moura Brasil, meus caros.
Quarta-Feira, 23 de Abril de 2008, às 18:05
Aquele time era casca-grossa, J.P., e você há de se lembrar que, a depender do adversário, jogávamos só no dois-toques…
(Em tempo: formidável volante era o Pim; acho que jamais errou um passe).
Quarta-Feira, 23 de Abril de 2008, às 18:07
O dois toques, Andreazza, era a marca registrada do time magistralmente treinado pelo inesquecível Paulo Barros.
Quarta-Feira, 23 de Abril de 2008, às 18:17
Paulo Barros, em tempo, o original. (Não o engodo carnavalesco).
Quarta-Feira, 23 de Abril de 2008, às 15:32
Carlão, esse site está muito benedito. Sugiro a próxima notícia:
“Em Túnis, Carla Bruni usa véu ‘fashion’”
Me parece mais agradável.