por João Paulo Duarte - Quarta-Feira, 9 de Abril de 2008, às 13:24
(“We only said good-bye with words/I died a hundred times/You go back to her/And I go back to black). [“Back to black”, Amy Winehouse].
Eu ando pela Humberto de Campos ouvindo Coltrane, os primeiros pingos do dia começam a cair. Um pouco frio, parece o fim de março em Paris, no ano em que eu estava feliz lá. Fico confuso e ofegante e te ligo pra ouvir sua voz na mensagem do celular. Ainda quero a gente, mas você não me atende, desligo antes do bip. Nunca mais vai andar comigo pelo Leblon. Quando chego na Dias Ferreira, lembro da nossa fotografia em Nice, mais do que felizes. Demorei pra perceber que tinha acabado.
Ainda pensei em escrever pra você, como fiz durante todo tempo nosso juntos. Mas não tenho vontade de caneta e papel, e nunca quis escrever sobre amor no computador. Parece que não te quero mais, nunca mais; e que agora posso implorar pelo meu recomeço – ou pelo meu fim. Nunca pensei que andaria pelas ruas com fones nos ouvidos; é que, nesse momento, esse aparelhinho que você me deu é o único companheiro que quero ter. Essa minha trilha sonora de hoje, no shuffle que vivo sem você, no meu bairro aleatório, e tudo que vou beber até o jantar – isso se eu comer hoje. Eu sempre fui uísque e você vinho. Enquanto baforava charutos sem parar, você fumava aquele cigarro mentolado. Você nunca teve vício inerente e eu não sou nada sem os meus. Sozinho, me resumo ao meu consumo; vinte doses de uísque e dois Romeu y Julieta Churchill, o tamanho da minha única vontade.
Minha curiosidade de você e o sentimento de posse que sinto me aprisionam não sei onde, bem longe do que quero. Escapo na esperança do bar, das soluções do copo e no suspiro do trago; do trabalho de amanhã, da segunda e da possibilidade de ainda conseguir – um dia – escrever novamente. Apaguei todas as suas fotos do meu celular, e toda hora retorno a ele para saber se restou mais alguma – não restou. Toda hora, retomo o celular, e você não ligou. Toda hora alguém me liga e eu não atendo. Pensei que te encontraria por acaso, mas nunca. Pelo menos, essas esquinas só me lembram de mim, não te vejo nos meus caminhos pelo meu bairro, no meu mês.


Quarta-Feira, 9 de Abril de 2008, às 13:51
“Há um lugar para ser feliz, além de abril em Paris, outono, outono, no Rio.” Não é nenhum Coltrane (chique demais), mas imediatamente ao ler o título do texto (singelo, bonito e triste)me veio esse refrão.
Um ano, que coisa!, passa rápido.
Quarta-Feira, 9 de Abril de 2008, às 15:39
Tribuneiros, muito obrigado pelo espaço neste um ano escrevendo pra casa, que se completa hoje.
Aos leitores e amigos da casa, muito obrigado pelo apoio de todos, sem exceção.
Bruna, Andrezza e Pim, é uma grande alegria escrever com vocês. Espero sempre poder participar e ajudar na construção deste projeto que acredito e sou fã.
Saudações tribuneiras,
JP
Quarta-Feira, 9 de Abril de 2008, às 22:43
Eu também nunca pensei que andaria pela rua com fones nos ouvidos - era como se estivesse traindo os sons da cidade que tanto amo - mas há pouco tempo me rendi e não me arrependo. O shuffle às vezes me prega umas surpresas deliciosas.
Belo texto, João Paulo. Fiquei um tempo sem passar por aqui e, redescoberto o prazer tribuneiro, seus textos foram uma ótima surpresa.
Abraço,
Luiza
Quarta-Feira, 9 de Abril de 2008, às 20:34
Eu, mais que atrasado, JP, mas, ainda assim, tentando contornar minha inadimplência, venho te desejar meus sinceros parabéns por este teu um ano de Casa - como colaborador fixo, né?, porque, como tribuneiro, você já é das antigas.
Quanto ao texto, como sempre, primoroso, cara!