por Felipe Moura Brasil (Pim) - Terca-Feira, 8 de Abril de 2008, às 20:08
Meu ídolo,
Viste que Ziraldo, Jaguar e Cony já ganharam (cada um) mais de 1 milhão de reais de bolsa-ditadura? Sem contar as pensões mensais? (Sem contar a pensão do Lula?) Que, se continuarmos assim, daqui a pouco os cineastas vão pedir indenização do Estado por falta de emprego na Era Collor? Como único ex-aluno do São Bento que fez resistência intelectual ao regime da Samaritana, não mereces também uma bolsa-beneditismo? Eu já estou providenciando as minhas. Quero uma bolsa-rave, uma bolsa-micareta, uma bolsa-forró, uma bolsa-BG, uma bolsa-Posto-9 e uma bolsa-sujinhos-da-PUC.
Combati todos. Fui prejudicado por todos. Exijo 1 milhão.
Pensando bem, exijo o milhão de Ziraldo, o milhão de Jaguar, o milhão de Cony, e os milhões de todos os comunistazinhos amargurados e deprimidos que, sob o pretexto da censura política – mas jamais intelectual, como querem fazer crer - foram buscar a salvação de suas esterilidades mentais em drogas (e bebidas, e bacanais, e terrorismos), propagando-as em seus meios universitário, jornalístico e artístico, até embalá-las com glamour suficiente para infestarem a classe média e serem macaqueadas pelo nosso povinho caipira, tal qual um penteado da Vera Fischer ou um rímel da Juliana Paes.
Foram eles os marqueteiros inaugurais da indústria da adolescência eterna, esta que, de um lado, elevou uma porção de criminosos empreendedores - atentos às demandas do mercado - ao posto de narcotraficantes, e, de outro, criou os eventos propícios – festinhas do high society, boates, raves, micaretas e outras terras de ninguém - ao vale-tudo carnal, químico e estupefaciente que transformou nossa população num bando de meninos maluquinhos presos numa Terra do Nunca alternativa. E como é difícil sair, não? Até um idoso precoce como eu acaba contaminado, atrasando o estudo, a carreira e a família para driblar a pedofilia coletiva e a imbecilidade moral que nos impingem os resíduos – lícitos e ilícitos - da retórica esquerdista. Quero minha compensação.
Se Cony merece R$ 1,5 milhão de lambuja e uma pensão mensal superior a R$ 20 mil, como se ser demitido do Correio da Manhã o tivesse impedido, sei lá, de fundar a Microsoft, estou certo de que, não fosse um punhado de folias além da conta, eu já estaria vendendo mais gibis que o Ziraldo e bebendo meus best-sellers de cacau-com-morango como o Jaguar bebeu a fortuna alcoólica do Pasquim. E olha que eu, Um sóbrio em Salvador, lucrei infinitamente menos com meus carnavais - por enquanto, diga-se - do que eles com aquela aura humanitária e heróica de combatentes da ditadura, o que, pela lógica revolucionária, só me torna merecedor dum montante ainda maior. Maior e mais longevo do que as Bundas do Ziraldo.
Enquanto o autoritarismo dos governos militares for o poder legitimador de toda sorte de canalhices - incluindo a preguiça, a incompetência e a falta de talento -, a rebeldia juvenil e vagabunda delas decorrente será minha muleta para o não-enriquecimento profissional. Já assimilei de tal forma a tática comunista de projetar no Estado a culpa dos problemas individuais que pretendo reivindicar aos líderes estudantis o devido ressarcimento pelas sujinhas que deixei de comer por não dançar forró. Estou cada vez mais brasileiro, meu ídolo!, esperando um tesouro cair do céu estatal direto na minha conta bancária, para desfrutar nosso típico ideal de paz: o “nada melhor do que não fazer nada” - na Guarda, na Indonésia ou na Califa. Depois coloco as fotos no orkut.
Como o nosso povão e, claro, seus precursores intelectuais, não posso mais conceber qualquer atividade profissional cuja recompensa política ou financeira não seja imediata, de modo que o estudo noturno, a leitura do fim de semana e os demais resquícios da cultura de investimento e da busca do trabalho como fonte de prazer, abandonei-os todos em prol da diversão desregrada. Agora só trabalho de 9 às 18 horas para pagar as contas e, terminado o “sirvíçu”, quero mais é churrasco na laje. Qualquer coisa, esqueço que a humanidade nunca esperou passar as crises para dar à luz seus gênios, finjo que não conheço as origens de Machado de Assis, Charles Bukowski e Henry Miller (ou mesmo Schwarzenegger, Bruce Lee e, sei lá, Ray Charles), e saio dizendo que investimento é coisa de rico, que, se eu fosse filhinho-de-papai, também perderia tempo com livros, mas o jeito é trabalhar, ser servo voluntário com o mesmo orgulho com que vou ao Maracanã de arquibancada “pra sentir mais emoção”. De tão orgulhoso da minha pobreza, já me sinto quase cubano.
Para falar a verdade, nem me importo mais que Lula, Ziraldo, Jaguar, Cony e seus amiguinhos vermelhos tenham levado o teu dinheiro e o meu, ou ido fumar uns charutos e tomar uns uísques com Fidel, porque, no fundo, ainda sou brasileiro, não desisto nunca porque nem tento, e me fodo sempre, porque, como dizia Juveninho - o contorcionista -, quem é flexível demais acaba mesmo se fodendo.
Saudações tribuneiras,


Terca-Feira, 8 de Abril de 2008, às 01:46
Indenização deve haver para algumas situações - a mãe de Edson Luís, por exemplo, que perdeu o filho barbaramente, ou alguém que tenha perdido o pai ou a mãe, e assim de fato sofrido na vida o pior de qualquer ditadura, seja de direita ou de esquerda. Há casos e casos, e não compartilho do ataque geral e irrestrito a toda e qualquer ‘reparação’ financeira. No entanto, entendo que são condenáveis os abusos (como alguns que vêm sendo agora noticiados). Por exemplo: considerar, para fins de cálculo, que um estagiário teria, durante toda a carreira, salário de chefe. Ou considerar que todos os militantes forma torturados, o que não é verdade, não obstante tenha havido tortura (e muita) e que esta deva ser sempre repudiada. Mais importante do que as indenizações, contudo, é a abertura dos arquivos, como bem observou a Miriam Leitão em sua coluna de hoje. Que isso ainda não tenha sido feito, sobretudo nos governos FHC e Lula, é apenas mais um espanto brasileiro.
Terca-Feira, 8 de Abril de 2008, às 02:14
A minha opinião a respeito é muito simples: não me oponho, de modo geral, a que sejam indenizados aqueles que tiveram prejuízos físicos, morais e profissionais ao longo da ditadura. Pelo contrário. (Embora não saiba como medir isso - e considere os valores estipulados muito exagerados). Não acho, porém, que Ziraldo e Jaguar se enquadrem neste perfil - e tendo mesmo a considerar que o regime militar foi muito bom para eles.
Gostaria, apenas, de chamar atenção para coisa longamente destratada: não há categoria profissional brasileira [servidores públicos incluídos] mais desvalorizada, moral e financeiramente, que a do militar, castigada e amaldiçoada, progressivamente [e hoje já com riscos para a segurança nacional], desde o governo Sarney, e sobretudo sob FHC e Lula - que se vingam, com ódio visível às Forças Armadas, quase supérfluas, pelos anos de repressão.
A Anistia, eis a verdade, só serviu para os “perseguidos”.
Terca-Feira, 8 de Abril de 2008, às 02:54
Isso lá é verdade, Andreazza. Mas é aquilo que em geral acontece: a História tem vencedores e vencidos, e os militares ainda pagam por aqueles anos. Na verdade, acho que a coisa começa a mudar, mas bem devagar (lembro-me de quando fui me apresentar ao CPOR, em 1990, e, durante a entrevista lá, me perguntaram várias coisas sobre política. ou seja, havia algo da ditadura arraigado ainda. e é a isso que me refiro qdo digo que começa a mudar). Só não creio que haja esse ódio do Lula às Forças Armadas, até pq o viés nacionalista de seu discurso parece agradar ao setor. Quando ao Ziraldo e Cia, concordamos plenamente.
Terca-Feira, 8 de Abril de 2008, às 13:35
É constrangedor mesmo essa tal de “bolsa-ditadura”, chega a dar nojo. Conforta-me saber que o Gabeira, ético e sensato, como sempre, passou longe desse assalto aos cofres públicos.
A Mírian Leitão não só questiona a abertura dos arquivos da ditadura, como critica com veemência o pagamento das indenizações. Vale lembrar que ela foi presa (acho que grávida) à época, perseguida, etc e tal, portanto, acho eu, insuspeita.
Terca-Feira, 8 de Abril de 2008, às 16:43
Também sobrevivi à Samaritana, a qual era muito carinhosamente apelidada de Zarabatana… Quero meu milhão!
Terca-Feira, 8 de Abril de 2008, às 17:50
adorei!!! visita o meu. não sou daí mas não resisti … votei no que jamais votaria … votar é a mais democrática manifestação que, no meu caso, tanto me atrai que chega a perder o toque de liberdade sendo que é um ato compulsivo e involuntário e obrigatório. voltarei sempre. nem precisa pedir. bj.
Terca-Feira, 8 de Abril de 2008, às 17:38
E ainda dizem que os reacionários não divertem a gente…Excelente texto…Quem lê até acredita que não é desabafo de um nerd bom com as palavras…O que vc queria mesmo é ser aquele cara barbado das casinhas da PUC, comendo todas as sujinhas, falando de Chico (Buarque e até o César), discutindo todas aquelas teorias do Talese e do Freud e mandando muito bem no forró!
Pim, eu recomendo um tapinha num baseado! Seja feliz de verdade!
Esse negócio de se fazer intelectual descrente tá démodé…