por C.A. - Terca-Feira, 25 de Marco de 2008, às 14:43
O nosso Pim Monumental [Felipe Moura Brasil, quando era mortal] escreveu uma consistente - e nem um pouco classista ou politicamente correta - resenha literária para o caderno Idéias, do Jornal do Brasil, no sábado último (22/03/2008), e o texto pode ser lido abaixo.
São bons personagens. Mas não é um romance
Autora mineira empilha 26 perfis supostamente relacionados
Felipe Moura Brasil
Escritor e jornalista
Pode parecer que uma obra intitulada O livro dos nomes, e dividida em 26 capítulos como “Antonio”, “Beatriz”, “Catarina” e assim, em ordem alfabética, até “Zenóbia” - todos iniciados com verbetes sobre as supostas origens de cada nome, e desenvolvidos com histórias particulares de pessoas comuns - seja tão somente uma coletânea de perfis resumidos, de biografias imaginárias, um almanaque de personagens possíveis a ser deixado na mesinha da sala para eventuais consultas. Pode parecer, e talvez seja. Daí que se compreenda a pressa em apresentar a nova ficção da mineira Maria Esther Maciel como mais do que isso, como um quebra-cabeça para o leitor, uma narrativa “elíptica” e “fragmentada”, “uma tapeçaria de relações humanas que pode muito bem” - tenta nos convencer a orelha - “ser chamada de romance”.
E não é que não possa. Se “a experiência que se aloja num nome às vezes pouco tem a ver com a pessoa real que o carrega”, como escreve a autora sobre a personagem Kelly, um gênero com o qual uma obra é (ou não) classificada às vezes tampouco tem a ver com aquilo que ela consegue despertar. Ao tentar ser e despertar tudo ao mesmo tempo, O livro dos nomes soa indeciso, e acaba sempre no meio do caminho.
Personagens demais
Se em As cidades invisíveis, de Italo Calvino, cada descrição (citadina) fazia parte de uma narrativa maior - a do viajante Marco Polo - aqui, a costura das descrições (humanas) se dá por dentro: cada personagem tem um enredo próprio que, em algum ponto, remete ao de outro. O problema é que, para um romance, há personagens demais, famílias demais e motivos de menos para se investigar noutros capítulos lacunas ou mistérios (também de menos) deixados em cada um. Não são pessoas discorrendo sobre a mesma história sob diferentes pontos de vista; são esboços de trajetórias individuais relacionadas por meros vínculos afetivos. Fica tudo mais fragmentário que elíptico. Mais pontual que circular. Mais almanaque que romance.
Maria Esther despeja vidas inteiras em cerca de cinco páginas (ou cinco meias-páginas), e aquilo que se apresenta como concisão - ou “retrato”, como quer Zenóbia - resulta denso, sim, mas insuficiente para gerar identificação, vivência ou expectativa. É como se ela conhecesse a fundo os personagens (cidadãos de Minas, também), mas nos negasse essa possibilidade a todo instante, sem oferecer um zoom, um diálogo entre eles, uma ação mais duradoura ou significativa da qual pudéssemos extrair interpretações variadas. O quebra-cabeça, assim, vira algo como a velha quadrilha de Drummond: “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém”. No caso: Antônio é marido de Sílvia, que é mãe de Eugênia (que ama Jerônimo, que é casado com Ingrid), que é irmã de Vanessa (que é casada com Plínio), que é irmã de Ulisses, que se casa em Londres e nunca mais volta. Ou: Tenório é casado com Nise, que é mãe de Beatriz, que é irmã de Fausto, que é sobrinho de Odília, que é a irmã de Sílvia, que é casada com Antônio (lembra?), que tem um caso com Irene, que é filha da caseira Quitéria. Cada um tem suas escolhas, seus desejos, suas melancolias, suas escapulidas a qualquer classificação. Mas, no fim do quebra-cabeça, não resta muito mais do que uma árvore genealógica. E bem mais ramificada do que essa.
Quem é quem?
A própria autora, a certa altura, parece consciente da dificuldade do leitor em distinguir quem é quem, e chega a dar algumas ajudinhas, remetendo a passagens de capítulos/perfis anteriores já perdidos na memória: “Como se sabe, Sílvia descobriu tudo, num lapso de Irene, em plena festa de aniversário de Antônio”. Ou: “Mal sabe Ulisses que Antônio morrerá antes que as coisas se consumem”. Ao que tudo indica, não lhe importa muito - e as palavras finais de Zenóbia darão a entender isso - se devemos encarar a obra como uma enciclopédia fictícia (lida, esporadicamente, em capítulos avulsos) ou um romance (lido, de uma só vez, como um todo). Os perfis são herméticos, e a autora não se acanha em contextualizá-los, de modo que, separados, todos também se explicam por si sós - e podem, de fato, ser lidos como tais. São verossímeis, familiares, sentimentais, mas sempre mais descritivos que sensitivos. (A melancolia de cada personagem chega a ser enunciada em frases grifadas em itálico, como: “Mais triste do que o que acontece é o que nunca aconteceu”; “Minha mãe não me pôs no mundo, ela me jogou nele”; e muitas outras.) Se o que afasta um perfil do outro são os acasos, as frestas, os desvãos em que a vida recai - e se recria - ao longo do tempo, é justamente por passar rápido demais pelo tempo de cada um que a obra perde em unicidade e relevância.
Resta a sensação de que Maria Esther Maciel criou um grande elenco - e de que, nesse rascunho, há até bons personagens. Mas faltou o romance.


Terca-Feira, 25 de Marco de 2008, às 15:11
Interessante o contraponto com as obras de Calvino e de Drummond, que enriquecem e ilustram a resenha. Confesso que não me deu a menor vontade de ler esse livro… (frases grifadas em itálico para enunciar a melancolia dos personagens?!)
Terca-Feira, 25 de Marco de 2008, às 15:13
Definitivamente, Fernanda, a resenha do Pim não estimula o comércio de livros no Brasil.
Terca-Feira, 25 de Marco de 2008, às 15:19
Que sábado produtivo! Idéias, Ela…
Pim, deixa eu aproveitar e dizer que ando a sentir falta de suas resenhas sobre filmes.
Terca-Feira, 25 de Marco de 2008, às 16:15
Maravilha, Pim! Muito boa resenha!
Terca-Feira, 25 de Marco de 2008, às 16:40
Ficou bacana a resenha. Muito bem escrita. Ainda não li o livro, mas o anterior da Maria Esther (’O livro de Zenóbia’) é bem interessante. Talvez porque, embora também fragmentário, ela tenha concentrado o olhar numa personagem apenas…