por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 27 de Fevereiro de 2008, às 04:58
Sobre o Oscar do último domingo, a Folha de S. Paulo publicou ontem o artigo “Seria mais divertido convidar Steven Seagal“, do cineasta Carlos Reichenbach. É mais um para o magnífico rol de articulistas da imprensa brasileira, que já inclui César Maia, José Dirceu e Arnaldo Antunes. Comento aqui cada trecho do texto. Ele, em itálico, entre aspas. Eu, no padrão.
“Alguma razão especial para ficar, neste ano, acordado até as 2h da madrugada assistindo à noite de gala da indústria do cinema americano?”
Várias. Juno, Bardem, Cottillard…
“Algum brasileiro concorrendo?”
Não. Mais um motivo.
“Algum diretor cultuado a ser reconhecido?”
Os irmãos Coen.
“Algum filme revolucionário e/ ou deflagrador entre os indicados?”
Revolucionário? Deflagrador? Uma Sierra Maestra cinematográfica? Glauber e Fidel? Ufa! Escapamos.
“Algum concorrente a filme estrangeiro apto a fazer história?”
Não sei. Não vi nenhum. Duvido que Reichenbach tenha visto. Nem o José Wilker conseguiu.
“Alguma vestal deslumbrante que mereça a expectativa sáfica de uma entrada triunfal?”
Eis um cineasta brasileiro tentando falar bonito.
“Sem hipocrisia: vi, durante a vida, mais de 40 entregas de estatuetas, algumas com especial interesse e curiosidade.”
Adoro esse “sem hipocrisia”: eu jurava que era com. Adoro esse “durante a vida”: eu jurava que era durante a morte.
“Em Dois Córregos, durante as filmagens do meu longa de mesmo nome, passei a madrugada inteira, com Carlos Alberto Riccelli e Ivan Lins, torcendo por um prêmio ao polêmico ‘O que É Isso, Companheiro?’“.
É isso aí: “do meu longa de mesmo nome”. Uma propagandinha básica. É necessário no Brasil, eu entendo. Mas torcer pr’aquele filme do seqüestro do embaixador americano por jovens comunistas delinqüentes… Hum… Sei não… Há um cheirinho no ar. Vejamos mais à frente.
“Ora, por mais aguçados que sejam os nossos crivos críticos, há ocasiões em que os brios nacionalistas falam mais alto.”
Ihhh… O supra-sumo da covardia intelectual brasileira: uma regra geral imputando a todos nós o vício particular do autor. E patriótico, ainda por cima! Fale por você, Reichenbach!
“Algum imbecil achou justo Fernanda Montenegro sair sem a estatueta?”
Arrá! Por fim (mas é só o começo), ele comprova sua tendência (seqüela?) revolucionária. Essa gente nunca superou a ditadura. Reparou, leitor? Basicamente, se você não concorda com a opinião do sujeito, você é um imbecil.
“Não é novidade. Todo mundo acha a noite do Oscar um porre.”
Todo mundo quem? Este foi o Oscar menos visto da história, sim, mas isso significa que, só nos Estados Unidos, foram 32 milhões de espectadores. Comparando com o público cativo de Reichenbach, será possível dizer que “todo mundo acha” seus filmes “um porre”?
“Os números musicais são enfadonhos, os agradecimentos, óbvios; as piadas, patéticas; e o curinga da festa -desde a saída de Billy Crystal- sempre mal escolhido.”
Ah, ele queria escolher o curinga… Chamem o Reichenbach! Chamem o Reichenbach!
“Será que não aprenderam até hoje que a graça e o diferencial, em solenidades desse tipo, é sempre o apresentador?”
Mais uma do “professor” Reichenbach. A Academia tem muito a aprender com ele.
“Neste quesito, a tradição é essencial.”
Como é que é? “A tradição é essencial”? É essa a justificativa? Isso quer dizer que o apresentador deve ser sempre o mesmo? Hum… Que cheirinho de Fidel…
“Brasília sem o saudoso Eduardo Conde e Gramado sem Tânia Carvalho perderam muito do élan e da simpatia.”
Ah, tá. “A tradição é essencial” foi um recurso para citar os coleguinhas dos tempos idos.
“Enfim, os momentos mais memoráveis sempre ficaram por conta dos homenageados honorários: Chaplin, Kurosawa, Ingmar Bergman, Billy Wilder, Blake Edwards (com sua antológica entrada de palco).”
É ótimo esse “Enfim”, não? Quis falar dos coleguinhas, e não tinha como voltar ao Oscar. Então tascou o “Enfim”, solução a qualquer hora. E apresentou, claro, a lista dos queridos “revolucionários”, “deflagradores”…
“Até a discutível manifestação de desagravo do público à premiação de Elia Kazan -com um constrangido Scorsese em cena- foi o ponto alto de uma das festas. Em 2008, nem isso se poderia esperar.”
Como não? Uma ex-stripper ganhou o Oscar! Até o Scorsese achou mais legal.
“Será que os acadêmicos de Hollywood nunca ouviram falar em Claude Chabrol, Manoel de Oliveira ou Nelson Pereira dos Santos?”
Ufa! Vida longa aos acadêmicos! Você pode imaginar o quão divertido seria o Oscar num governo Reichenbach? Melhor Filme: “Brasília 18%”… Melhor Ator: Carlos Alberto Riccelli…
“Duas horas da manhã do dia 25 de fevereiro, três horas e meia de enfado e algumas questões incômodas: 1. Quem é esse tal de Jon Stewart? Algum ‘BBB’ norte-americano travestido de apresentador?”
Isso foi uma piada, senhoras e senhores! Quem será melhor: Carlos Reichenbach ou Jon Stewart?
“2. Quem escolhe as canções que concorrem na categoria? Algum deficiente auditivo?”
Demais, não? Ele se supera…
“Sem hipocrisia, bis: neste ano, a bilionária festinha passou dos limites.”
É isso mesmo, leitor: “sem hipocrisia, bis”! Não satisfeito com o primeiro, ele sacou mais um. Quer ganhar intimidade com você de qualquer jeito. “Passou dos limites”!
“Se excetuados os dois prêmios de atriz, que realmente surpreenderam,”
Ué: o Oscar foi capaz de surpreender Carlos Reichenbach? Que estranho.
…”o evento foi tão protocolar quanto uma colação de grau.”
Mais um chiste, senhoras e senhores! E dos bons!
“Uma coisa é certa: teria sido mais divertido convidar o Steven Seagal para ser o mestre-de-cerimônias.”
“Enfim”, uma verdade. Eu concordo! “Sem hipocrisia”. Pena que, no resto da redação, o aluno fugiu ao tema.
“Chistes à parte, convenhamos:”
Confesso que eu já tinha visto esse “Chistes à parte”. Eu colei. Foi aqui que fiquei sabendo que os outros eram chistes. Mas repare que graça: “Chistes à parte” e “convenhamos” juntinhos - ele quer sua intimidade, leitor! Ele quer ser seu amigo!
…”é sensato cobrar exaustivamente dos nossos nativos subir ao palco do teatro Kodak?”
Cobrar exaustivamente? Dos nossos “nativos”? (Aliás, o que será isso? Uma influência do Oscar?) Sensato, de fato, não é muito não, embora seja até válido. Mas quem perderia esse tempo?
“Será que um Oscar dará aos meus netos mais credibilidade à profissão exercida pelo avô?”
Ah, isso com certeza.
“No dia em que [os netos] tiverem acesso ilimitado a obras como ‘Limite’, ‘Vidas Secas’, ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, ‘São Paulo S/A’, ‘O Bandido da Luz Vermelha’, ‘Augusto Matraga’ e -por que não- ‘Alma Corsária’ [”por que não” um filminho de Reichenbach aí no meio, né?], eles, na certa, irão se dar conta de que o cinema é resultante de uma inquietação, de uma angústia renitente e da necessidade de compreensão do tempo, da história e das limitações de quem o realiza.”
Uau! A gente já sabia que cinema, para Reichenbach, não era lá a maior diversão, mas “angústia renitente” foi demais. Com essa lista, os netos do cineasta, “na certa”, vão sair correndo, entendendo direitinho por que “todo mundo acha um porre” o cinema brasileiro. Seria mais divertido convidar Steven Seagal…
“O resto é verniz, fetiche ou bibelô de prateleira. Como o tal troféu de bundinha grande [a estatueta], que a atriz Tilda Swinton disse ser a cara de seu agente americano.”
Pois é. “O resto”, no caso, é aquele tipo de cinema raríssimo no Brasil dos Reichenbach: o interessante - como Juno. O bem escrito.
The End.


Quarta-Feira, 27 de Fevereiro de 2008, às 20:08
Aprendi muito com esse texto. Aprendi, por exemplo, que o Gabeira é um delinqüente e Glauber Rocha, ao contrário do que grandes cineastas do mundo diziam, era um imbecil.
Quarta-Feira, 27 de Fevereiro de 2008, às 20:11
Há uma contradição estranha no texto. Primeiro ele refere-se aos que lutaram contra a ditadura como delinqüentes e depois manda um “Essa gente nunca superou a ditadura.”
Quarta-Feira, 27 de Fevereiro de 2008, às 23:41
Pedro, meu caro, vc precisa ler mais…
Quarta-Feira, 27 de Fevereiro de 2008, às 12:28
Diogo, meu caro, acho que você precisa ser menos puxa-saco.
Quarta-Feira, 27 de Fevereiro de 2008, às 13:28
Diogo, meu amigo, discuta qualquer assunto comigo, que eu te boto no bolso, com essa marrinha de falso intelectual.
Quarta-Feira, 27 de Fevereiro de 2008, às 15:44
Eu preciso ler mais.
Quarta-Feira, 27 de Fevereiro de 2008, às 16:02
Reichenbach escreveu algumas besteiras afetadas nesse artigo. Mas é diretor de pequenos grandes filmes, como o próprio “Dois córregos”. Em suma: assim como no caso do Jabor (e com rima involuntária), o articulista não invalida o diretor.
Quarta-Feira, 27 de Fevereiro de 2008, às 23:30
Pim,que bom que voltou de férias….rs.