por Bruna Demaison - Quarta-Feira, 20 de Fevereiro de 2008, às 14:08
Chamei de saudade instalada, aquela que realmente é.
Não é a falta cotidiana, o não estar mais, é o nunca. O não estar e reticências (porque saber se é um ponto final não temos como, mas sempre parece).
Tem a saudade do não saber cadê, diferente dessa saudade do vão. É a saudade birrenta, do lugar vazio no carro, não tocar do telefone, mas a que dói mesmo é a do não abraço, do não sorriso cúmplice, do não carinho no cabelo. Parece maior. Pior. Não é a saudade que bate o pé, é a que suspira.
Tem a saudade antecipada, quando você realiza o quanto é feliz, mas entende que vai mudar. É quando já dá para ver o fim da linha, bola pra frente, e você saboreia cada minutinho restante. O cãozinho já cego que não sobe mais na cama mas ainda abana o rabo quando você chega. O sussurro no escuro da madrugada - “mãe, cheguei, boa noite” – que na casa nova vai virar só lembrança. O olhar registrador a caminho do aeroporto.
Tem a saudade ingênua, que adoraria não pintar o cabelo nem cuidar do marido péssimo de febre de 37 graus. Saudade daqueles tempos, ah, aquele Rio de Janeiro, Co-pa-ca-ba-na. É a saudade que diz falsamente indignada “onde já se viu?”. Que pode ser sacana – lembra da Lalinha? Hehe, Lalinha, que pedaço de mulher! E Lalinha nem nunca olhou para o saudoso.
Saudade do que nunca foi. Saudade dos ideais que a vida insistiu em provar não passarem disso.
Tem ela – se todos fossem iguais a você - a saudade bem resolvida, aquela certa nostalgia que sorri com o canto do lábio. A das fotos das férias de verão quando duravam três meses. Dos banhos de mangueira, waffle com mel e calça Fiorucci.
Tem o bichinho esperando na porta. Um par de sobrancelhas arqueadas. Braços ao redor de um travesseiro. Orvalho. Jangada a seco. Estalar da cadeira de balanço. Fim do Fantástico. Canção de marinheiro. Flor de viúva. Incompletude ou o que fica quando a gente sabe que é hora de partir.
Tem tanta saudade na vida, mas a saudade instalada é aquela que já entendeu que não adianta gritar, então chora baixinho mesmo.
Saudade é o registro do amor que só pôde ir porque um dia pôde ficar.


Quarta-Feira, 20 de Fevereiro de 2008, às 14:52
Poxa, Bruna, arrebatador seu texto! Nossa, nessa altura da vida são tantas as saudades…”mas a saudade instalada é aquela que já entendeu que não adianta gritar, então chora baixinho mesmo” é lindo demais e talvez seja a que dói mais fundo. Mas em compensação, Bruna, existe o prazer das “saudades de repente desaparecidas”…
Quarta-Feira, 20 de Fevereiro de 2008, às 16:24
Ótima crônica.
Quarta-Feira, 20 de Fevereiro de 2008, às 17:22
Gostei muito da última frase, “saudade é o registro do amor que só pôde ir porque um dia pôde ficar”.
Meninos, já consigo ler os comentários inteiros!
Quarta-Feira, 20 de Fevereiro de 2008, às 17:49
“Saudade é o registro do amor que só pôde ir porque um dia pôde ficar”
Muito bom!
Quarta-Feira, 20 de Fevereiro de 2008, às 18:40
Saudade da irmã que vai embora !
Saudade de emprestar roupa, saudade de terminar um texto juntas,saudade das conversas do jantar + tarde, saudade de pertubar o irmão, saudade do cachorro rolando da escada, Mttsssss saudades !
Quarta-Feira, 20 de Fevereiro de 2008, às 13:48
Sem dúvida a palavra mais bonita da lingua portuguesa…
As palavras mais bonitas são sempre as únicas de cada lingua, as que não têm tradução..e nossa lingua tem o orgulho de ter essa palavra única e tão bonita que nao tem equivalente em nenhum outro idioma: saudade.
Quarta-Feira, 20 de Fevereiro de 2008, às 20:56
Nossa…
Quarta-Feira, 20 de Fevereiro de 2008, às 19:39
Show! Que talento. Quero ver “o” livro!