por João Paulo Duarte - Terca-Feira, 19 de Fevereiro de 2008, às 15:30
Fecho os olhos e me lembro de quando eu ainda era criança: você é tudo o que eu quero ser. Por muitos anos você foi meu único amigo - e por todos os outros foi o melhor. Foi quem sempre entendeu meus erros porque nunca duvidou dos meus sonhos.
Lembra de tudo que fizemos juntos na minha infância? Quantas peças de teatro, quantos filmes, quantas praias, quantos parques? Quantas vezes vimos o Fluminense?
Ah!, eu me lembro! Eu, você e mais 153.518 pessoas, 16 de dezembro de 1984. O Assis acabava com o Flamengo pelo segundo ano consecutivo, no meu primeiro dia de Maracanã. E, até hoje, sempre que o Fluminense entra em campo lembro de como você ficou feliz na primeira vez que eu vesti a camisa tricolor.
Minha mãe me disse que você chorou na primeira vez que li na sua frente. E todo meu interesse em escrever nasceu das vezes que você me dizia que não podia mais brincar comigo porque “tinha que escrever”. Você se levantava, me fazia um carinho na cabeça e ia pro escritório. Eu brincava mais um pouco sozinho e depois resolvia largar os brinquedos e ir atrás de você. Quando você esquecia de fechar a porta, eu espiava. Você de costas, forçando a vista pra ler alguma coisa. Um pouco curvado sobre aquele monte de folhas brancas espalhadas pela escrivaninha velha que foi do meu bisavô e a indefectível caneta Bic preta, sempre. Essa visão me fez parecer que escrever era a coisa tão importante e linda que eu queria para toda minha vida.
Eu sei que você chorou quando fui internado. E não me esqueço do que você me disse quando os médicos garantiram que eu já não corria risco de morrer. Foi com candura que você me disse para não lhe pregar mais sustos, que não poderia agüentar outra dor como essa. Seus olhos brilhavam quando me afirmou que me perder te tiraria um pedaço tão grande que não haveria mais ensejos; disse que pra você era mais importante que eu ficasse vivo do que tudo o que viveu. E que minha juventude tinha me enganado fazendo parecer que eu era indestrutível. Pela primeira vez, ouvi você dizendo graças a Deus, e segurava a minha mão como se eu pudesse correr para algum lugar, como se você não quisesse que eu ficasse longe nunca mais. Eu nunca quis ficar longe e prometo que não vou.
Seguro agora uma foto nossa de quase 25 anos. Você me ensinando a correr no Parque da Cidade, a gente fingindo que era o Casal 20 do Fluminense – Assis e Washington. [Eu não tinha idéia de quem era essa infernal e afinada dupla tricolor, mas era bom demais ser a sua dupla e fazer aquele cumprimento divertidíssimo, que eles dois faziam]. A vida nos fez bem diferentes em tantos aspectos que seria impossível numerar, mas como uma excelente dupla de atacantes nos entendemos com muita facilidade. É como você me explicava: o Assis olha pro Washington e ele já sabe onde vai jogar a bola.
Você renasceu no orgulho pelos filhos que criou. Eu quero te ajudar a vencer os desafios que ainda lhe faltam. Vamos vencer.
Com orgulho e amor,
JP


Terca-Feira, 19 de Fevereiro de 2008, às 15:49
Bonita declaração, João Paulo! Me comovo sempre com essa forte relação entre pai e filho!
Terca-Feira, 19 de Fevereiro de 2008, às 16:22
Declaraçoes de amor aos pais são uma coisa freqüente e ótima neste site. Até aquele outro tribuneiro, que parou de escrever aqui, se não me engano, fez algo parecido. Foi até bom, para ele parar um pouco de escrever sobre o Alckmin, que já tava enchendo o saco.
Terca-Feira, 19 de Fevereiro de 2008, às 16:28
Assis e Washington. Boa dupla. Romerito também, grande jogador. Engraçado como os anos 80 nos deram tanta coisa interessante - sambas antológicos na Sapucaí e nas rodas, craques como esses dois e ainda Zico, Júnior, Leandro, Falcão, Careca, o TV Pirata… - e as pessoas insistem em festejar o que havia de pior naquela época, como os rocks vazios.
Terca-Feira, 19 de Fevereiro de 2008, às 19:02
JP, que texto lindo! Fiquei emocionada de verdade…Beijao
Terca-Feira, 19 de Fevereiro de 2008, às 21:52
Maravilha, João! Nas suas palavras, está o amor e a lembrança de todos nós, que tivemos, diferentes, mas os melhores pais! Parabéns, mais uma vez, irmão (de pais diferentes!)
Terca-Feira, 19 de Fevereiro de 2008, às 21:53
Infelizmente, os seus filhos não vão chegar a tempo de testemunhar Leandro Amaral e Washington!
AINDA BEM! hahaha….
Terca-Feira, 19 de Fevereiro de 2008, às 19:01
“E, até hoje, sempre que o Fluminense entra em campo lembro de como você ficou feliz na primeira vez que eu vesti a camisa tricolor.”
Legal ler esse seu belo texto no mesmo dia em que li uma crônica do Pedro Bial onde ele escreve: “O Fluminense é a minha terra do nunca.”
Saudações Tricolores
Terca-Feira, 19 de Fevereiro de 2008, às 22:30
Que texto lindo, João Paulo!!!
Saudações tricolores!
Terca-Feira, 19 de Fevereiro de 2008, às 14:27
Lindo!
beijos
Terca-Feira, 19 de Fevereiro de 2008, às 18:58
Sem palavras. Absurdamente comovente e lindo.
Saudações Tricolores,
Parodi
Terca-Feira, 19 de Fevereiro de 2008, às 21:35
A benção João de Deus!
Terca-Feira, 19 de Fevereiro de 2008, às 14:31
CHOREI