por Felipe Moura Brasil (Pim) - Terca-Feira, 12 de Fevereiro de 2008, às 14:09
Nada de Ivete, Bell e Durvalino. Passei o carnaval num resort na Bahia. Fui torrar os milhões de dólares que ganhei com o livro dos Tribuneiros. Eu jurava que a melhor maneira de sair do Brasil sem ultrapassar as fronteiras era me hospedar num resort. Me enganei. Tive que dividir meus cafés da manhã com uma porção de micos-leões brasileiros. Eles invadiam o restaurante pelo telhado, trepavam nas mesas e, assustando todos nós com suas caras de capeta, roubavam a comida. Perguntei aos garçons: “Não estavam em extinção esses putos?”.
Os micos-leões brasileiros são como a Amazônia: por mais que se diga que eles vão acabar, não acabam nunca. É o marketing do apocalipse – o mais eficaz do nosso tempo. Para chamar a atenção sobre alguma coisa, o negócio é dizer que essa coisa vai acabar, se escafeder, sumir do mapa, puf. É um recurso válido. Muito antes de virar moda o aquecimento global, Veneza já ganhava milhões de turistas assim. Desde que nasci, dizem que a cidade-esgoto italiana vai afundar. Todo dia abro o jornal na esperança de que Veneza tenha afundado. E nada. Nem um maremoto.
Da minha espreguiçadeira baiana, refleti muito sobre o futuro das civilizações. Às vezes um garçom interrompia. Tapioca? Claro, bota no 425. Lula frita? Isca de peixe? Bota no 425. Carne de sol com mandioca? Vitaminado de laranja com cenoura? 425. Assinei uma porção de notinhas. Meu dinheiro virtual. O melhor gozo é aquele que você não sente escorrer pela mão. À noite, no quarto, vendo o Jornal Nacional para lembrar do mundo, fiquei sabendo de mais petistas que, com seus cartões corporativos, também estavam botando tudo no 425. O problema é que o 425 era meu. E eu não durmo com petistas.
No Brasil, não há mais para onde fugir. Até quando você se refugia numa praia deserta, tem alguém roubando sua comida e gastando o seu dinheiro. Os brasileiros costumam se irritar quando os argentinos os chamam de macacos. É, de fato, uma injustiça. Ainda são micos. Eu abandonei o carnaval de rua do Rio por um motivo muito simples, que resume a falta de perspectiva nacional. Perto dos blocos, você ouve o samba, mas o calor e o aperto humanos são insuportáveis. Longe dos blocos, o calor e o aperto humanos são suportáveis, mas você não ouve o samba. O melhor lugar para curtir um bloco carioca é a janela. Blindada, se possível. Como em frente à minha não passa nenhum, optei pelos micos baianos.
Eu gosto da Bahia. Ela sempre comprova minhas teorias da forma mais simples, mais cômoda, mais baiana. Da janela da van que me levou do aeroporto ao resort, aprendi muito mais sobre Salvador do que em blocos e camarotes. Só pelos outdoors, notei o nível local de educação. Lá, há uma escola chamada Michel de Montaigne, um cursinho pré-vestibular chamado Sartre, e uma universidade chamada Jorge Amado. Quanto mais cedo, portanto, o estudante largar a vida acadêmica, melhor para seu intelecto. Caso contrário, ele corre o risco de acabar em algum Centro Paulo Coelho de Pós-Graduação.
Hilary Clinton, num debate com Barack Obama, disse que Martin Luther King só realizou seu sonho porque o presidente Lyndon Johnson soube aprovar no Congresso a legislação dos direitos civis. Oscar Niemeyer não precisou de Hilary. Ele mesmo admitiu que suas obras sempre foram aprovadas por causa do texto (a parte argumentativa do projeto), no que eu acreditaria quase piamente não fosse a maioria em licitações públicas. Pela beleza, afinal, é que não seriam. Como, ao contrário de King e Niemeyer, eu não tenho quem convença os outros das minhas maluquices, sou obrigado a vender meu peixe sozinho. Fazer meu marketing do apocalipse.
Eu li um bocado no carnaval. Outdoors e menus, principalmente. Recomendo a todos. Quando o Brasil inteiro estiver pulando, estudem. Quando o Brasil inteiro estiver dormindo, trabalhem. Quando o Brasil inteiro estiver no Maracanã, reflitam. Agora que ganhei milhões de dólares, já posso dizer que o segredo do sucesso é fazer sempre o oposto do que o brasileiro faz. Antes eu tinha um certo pudor em dar conselhos, em escrever auto-ajuda. Hoje, não. O sucesso, como de praxe, me tornou uma pessoa pior. Por isso lhes digo: leiam mais em 2008. A dor, os micos e os petistas são para sempre. A literatura, a qualquer momento, afundará.


Terca-Feira, 12 de Fevereiro de 2008, às 15:05
No menu do resort, não havia suco de morango com cacau, não, Pim? (Da série: “Perguntas que o JP faria ao Pim”.)
Terca-Feira, 12 de Fevereiro de 2008, às 15:47
Esse rapaz é arrogante, mas escreve bem. Na mesma proporção.
Terca-Feira, 12 de Fevereiro de 2008, às 16:00
Acho que ele é um pouco mais arrogante, Pedro.
Terca-Feira, 12 de Fevereiro de 2008, às 16:21
Adorei o texto!!!
Que bom que voltou…espero muito mais em 2008 hein!
Beijos e suce$$O.
Dani
Terca-Feira, 12 de Fevereiro de 2008, às 17:25
O Felipe tem mais é que comemorar o sucesso em Salvador. Afinal, foi de lá que saiu a inspiração para um de seus textos mais famosos, não é? Aliás, ele não bebe mesmo? É estranho ver um cronista sóbrio. C.A, você também consegue ser escritor, sambista e sóbrio?
Terca-Feira, 12 de Fevereiro de 2008, às 17:40
Eu bebo, Pedro, e é somente quando comovido que me sinto - honestamente - escritor. Sambista, porém, só mesmo na conta de sua generosidade…
Terca-Feira, 12 de Fevereiro de 2008, às 19:01
É Pedro, o rapagote não bebe mesmo. Nem nos tempos de outrora quando saia em blocos de carnaval “solteiropolitanos”, ainda internalizando o seu externável primeiro sucesso publicado, o grande sambista deixava de lado a sua água
Pim, duas considerações, apenas:
1- veio a Bahia e não procurou os amigos
2- a gradação acadêmica das intituladas instituições de ensino baiana não pegou bem.
Abraços.
Terca-Feira, 12 de Fevereiro de 2008, às 19:02
C.A, acho que vc se prende um pouco a detalhes. Antes mesmo de lançar um livro, vc já era escritor. Não se interessa se num livro, revista, jornal ou internet, escrevendo bem como vc escreve, vc é um escritor. E sambista não precisa nem falar. Dá para ver pelos seus escritos a respeito do Império Serrano.
Terca-Feira, 12 de Fevereiro de 2008, às 19:14
Acredito que o lado folião do Pim, ainda se mantenha muito forte. Mesmo tentando se esconder em um resort, ele não largou seu passado e voltou para Bahia. Talvez atrás de alguma recaída e fulga para algum Bloco com muito calor e aperto humanos. Poderia ir para um resort em qualquer lugar, mas foi para onde?
Freud explica!!!
Mas amigo Pim, não liga não! No próximo ano com os outros milhões que receber do próximo livro, compramos uma janelona para passar o carnval em plena Barra-Ondina com muito calor e um aperto humano (de uma Bahiana de preferência) porque todo mundo é filho de Deus!!
Terca-Feira, 12 de Fevereiro de 2008, às 19:18
Pedro, é que eu, embora apaixonado por samba e carnaval [notadamente pelo Império Serrano], não sambo, não componho, não canto e não toco instrumento algum - e sambista, pra mim, sei lá, tem de ter alguma relação prática com a coisa. Tem de executar. E a minha história com o samba, verdadeira demais, é simplesmente afetiva. Sambista é o Zeca, o Arlindo, o Martinho, o Paulinho, o Guineto… Compreende?
Terca-Feira, 12 de Fevereiro de 2008, às 19:20
No dia em que eu entrar pra política também vou ficar falando pra todo mundo comprar meus livros, sobre política, óbvio! E serão todos de extrema esquerda (mas uma esquerda elegante - a Heloísa Helena que me desculpe)porque já repetia a minha mãe: se há um governo, sou contra!
Muito conveniente isso… Mas claro, que esperar de alguém que vai pra Bahia e fica num resort??? Devia ter ficado mais pra lá um tiquinho, com menos gente… gingado um pouco de capoeira e ver um pouco menos as coisas arrumadinhas… Certamente os macacos não estariam por perto. (claro, nada pode se garantir quanto aos petitas…)
Terca-Feira, 12 de Fevereiro de 2008, às 19:53
Calma, C.A. Você é muito exigente. Daqui a pouco, vai dizer que sambista, só o Nei Lopes, que canta, estuda, compõe e ouve.
Terca-Feira, 12 de Fevereiro de 2008, às 20:06
Genial !!!
Terca-Feira, 12 de Fevereiro de 2008, às 13:16
ito…
ão.
Terca-Feira, 12 de Fevereiro de 2008, às 00:12
Mt bom Pim! Vc e a Bruna podem competir nos textos debochados q sempre saem um sucesso! aninha
Não somos debochados, somos honestos observadores! - BD
Terca-Feira, 12 de Fevereiro de 2008, às 20:47
Poderia ser mais inteligente. Cidadão. Poderia ser, de fato, municipal. Do Rio de Janeiro. Poderia ser, eis a verdade, menos egoista.
Terca-Feira, 12 de Fevereiro de 2008, às 11:14
“O melhor gozo é aquele que você não sente escorrer pela mão.” Se a literatura está na iminência de afundar-se, deve ser por falta de frases como esta. Ou justamente o contrário (não consigo me decidir).
Terca-Feira, 12 de Fevereiro de 2008, às 14:05
PIM, DUVIDO que com toda a sua elegância você tenha perguntado a qualquer garçon que se os tais PUTOS estavam ou não extintos.
Terca-Feira, 12 de Fevereiro de 2008, às 14:13
Quanto ao sucesso oferecido pelo seu marketing do apocalipse, eu só não conseguirei resisitir ao Maracanã. Aí você pegou pesado, né?!
Terca-Feira, 12 de Fevereiro de 2008, às 15:22
eu odie esta cronica,porque nao acnei nada para eu fazer no colegio.