por Bruna Demaison - Quinta-Feira, 7 de Fevereiro de 2008, às 17:56
Começou na concentração. Ela disse que não daria a mão para formar fila nenhuma, que se danasse a ala porque naquele desgraçado não encostava mais nem por amor à escola. Ele então fez que nem aí, mudou de lugar e ficou atrás da passista com um sorrisinho cafajeste que nem no Carnaval se perdoa. Foi quando ela correu com um ódio assassino, deu um empurrão nele e o diretor se desesperou: não destrói a fantasia!
Enquanto isso, no camarote, o galãzinho anti-herói beijava a vedete dos anos 80. O autor de novelas tentava ver o desfile, mas era abraçado por uma aspirante a atriz. O empresário-celebridade atravessava a passarela a caminho da Apoteose.
Rainha de bateria ainda era a Luma quando se conheceram. Ela vestida de ilusão, ele um dos urubus de Joãozinho Trinta. Tempo andou, vira virou, ela viu passar por sua cama tantas passistas que montou um barracão só com alegorias que achava pelos cantos da casa. Não foi mais que um adereço, entendeu. Passavam pelo recuo da bateria quando roubou um agogô e saiu Sapucaí afora. A ala pediu aplausos para a arquibancada. Ele pulou em uma frisa e ficou pelo caminho. E o diretor gritava – vocês estão acabando com a harmonia!
Perto dali o galãzinho anti-herói puxava com os dedos um chiclete de dentro da boca e beijava a vedete dos anos 80. O autor de novelas tentava ver o desfile e fingia ouvir o monólogo de um aspirante a ator. O empresário-celebridade voltava pela passarela a caminho da concentração.
Chamaram de inovação aquela componente tocando sozinha seu instrumento. Ela repassava na memória tudo que fizera até ali. O diretor gritava – evolui! Evolui! Ela não se agüentou e berrou de volta: eu estou tentando, você acha que é fácil? O homem ficou tão sensibilizado que a abraçou e choraram juntos na avenida. No dia seguinte o jornal publicaria a foto como símbolo da devoção dos componentes à escola.
Indiferente à cena o galãzinho anti-herói gritava u-hu para a ala das baianas que passava e apertava a bunda da vedete dos anos 80. O empresário-celebridade encontrava com amigos no meio da passarela e a namorada-de-short-e-salto dava uns pulinhos. O autor de novelas desistia de ver o desfile e ia para casa escrever sobre o pranto catártico dos apoteóticos.


Quinta-Feira, 7 de Fevereiro de 2008, às 18:20
Só fiquei com uma dúvida: quem deu a credencial para o empresário-celebridade?