por João Paulo Duarte - Segunda-Feira, 28 de Janeiro de 2008, às 18:37
Con qué tristeza miramos/un amor que se nos va/Es un pedazo del alma/que se arranca sin piedad. [Maria Teresa Vera, Veinte Años].
Delfim Moreira com General Artigas; desde que nasci vejo essa esquina da minha janela. Mas, em vinte anos, nunca fiquei tanto tempo olhando pra esse lugar. Meus olhos estão meio pesados, mas não é de choro. Meus braços estão tão magros… Que merda. Essa fraqueza está me deixando ainda mais deprimido; e meu cabelo caiu tanto.
Não me interessa o que eu não vou viver. A droga é que eu fiquei bem há uns cinco meses – durante mais de quarenta e cinco dias. Dava pra eu ter feito um monte de coisas e eu só queria saber se estava curado, se estava tudo bem; fiz muito exame e não aproveitei nada. Me poupei pra um tempo que não vai chegar. Agora já era, não tenho mais corpo, nem cabeça.
São quatro e dezessete da tarde.
Quando estava bem, eu devia ter ido ao jogo do Flamengo contra o São Paulo. O Maracanã lotado, a arquibancada balançando. Sessenta mil pessoas e o Íbson fazendo o gol da vitória, e saindo pra comemorar de braços abertos. O Íbson é foda. Perdi, devia ter ido. Eu deveria ter ido ao show do LCD com a Andréa, eu sei que gosto dela. E não porque ela está agüentando ficar comigo, enquanto morro. Eu já gostava dela antes de ficar doente. Não, acho que não amo a Andréa, e nem me importo. Não me importa se amei alguém. Se não amei, não amei. Nem quero mais nada. Eu gosto muito da Ana também, mas não me importa que não tenha dado certo. Foda-se. Não deu certo. Eu não devo ter amado ninguém mesmo e isso é o de menos agora.
Antes que o futuro acabe quero saber quem de verdade me amou. Não deve ter sido ninguém além da minha família. Amor de família não conta. É amor sem escolha, incondicional e sem opção. Eu quero ter sido amor de alguém que tinha opção de me ignorar; desejo de alguém que poderia nunca ter me conhecido. Acho que passei longe, e com isso me importo. Mas não adianta, eu acabei.
É engraçado que eu nunca pensei no dia em que iria morrer, nunca senti medo de morrer, nem tive tempo pra isso. Há dias eu estou convivendo com a possibilidade de ter morrido ontem e nem saber. O mundo parece ser tão grande mesmo tendo certeza de que não vou mais longe que poucos quilômetros dessa varanda. Conhecer outros lugares é o contrário do que estou vivendo agora. Vivendo não, é o contrário do que eu estou passando agora.
Eu não vou conhecer mais nada novo. Nada além desse espelho, da minha cara que não reconheço na tristeza. Dos meus olhos que pesam, dos meus dentes que não me interessam, que não servem mais pra nada. O que serve pra alguma coisa no meu corpo, eu não sei. Talvez só o sistema linfático, que espalha o que realmente tem relevância agora: o que está me matando. Ir e não deixar nada. Eu não cheguei a ter a pretensão de levar algo comigo, chegou a hora de não deixar nada. Ah!, que merda essa doença. Eu sempre conformado com ela enquanto o câncer se reproduz na minha linfa. Não dá mais, não vai haver um milagre aqui. Não comigo.


Segunda-Feira, 28 de Janeiro de 2008, às 02:54
Você tinha razão, Jão, esse texto está primoroso!
Abração,
Gomide.
Segunda-Feira, 28 de Janeiro de 2008, às 12:46
Que intenso, JP! Adorei!
Segunda-Feira, 28 de Janeiro de 2008, às 13:14
J.P. é o cara!
Segunda-Feira, 28 de Janeiro de 2008, às 13:39
Rê, Gomide e Andreazza, meus bons amigos, muito obrigado pelos elogios.
Segunda-Feira, 28 de Janeiro de 2008, às 15:02
Só uma pequena correção: O Ibson é fodinha, foda é o Tiago Silva. Abraços e Saudações Tricolores
Segunda-Feira, 28 de Janeiro de 2008, às 16:50
Realmente me pareceu muito conciso e honesto, bonito. Parabéns!
Segunda-Feira, 28 de Janeiro de 2008, às 17:11
Diante dos elogios acima, JP, meu camarada, meu elogio seria dispensável. Mas, de qualquer forma, parabéns!
Segunda-Feira, 28 de Janeiro de 2008, às 18:27
Bezerra, sempre moleque-capoeira-tribuneiro, você nunca é dispensável. Por isso, sentimos muito a sua falta no derradeiro ensaio do Império.
Segunda-Feira, 28 de Janeiro de 2008, às 16:33
Você é aquariano?
Este texto realmente é, futurísticamente excelente! ;-)
Abraços!!
Segunda-Feira, 28 de Janeiro de 2008, às 12:27
Natasha, não sou aquariano.
E este texto é puramente ficcional.
Mas a sua opinião me parece assaz interessante. Por que relacionou o texto desta forma (aquariano e futurístico)?