por João Paulo Duarte - Terca-Feira, 22 de Janeiro de 2008, às 12:17
Ao meu grande amigo de todas as horas
Entenda uma coisa: você jogou muito mais peso na balança que ela. Não que haja problema em alguém do casal amar mais, querer mais – é quase obrigatório que isso sempre aconteça. O problema é cobrar além da conta. Não se cobra amor, não há pior erro do que esse.
Foram meses em que você amou demais e exigiu em excesso. Pra que exigir que ela te ligue às três da tarde – só pra dizer “tá tudo bem?” –, se na cama tudo sempre correu bem? O que é um torpedo de celular durante uma viagem a São Paulo comparado aos beijos infindáveis e inflamados da volta? Carinho, meu caro, não é o que se faz na frente dos amigos, na mesa do Jobi. Essa demonstração não é nada comparada a quando ela te olhava e você tinha certeza que todo amor seu cabia nela.
O relacionamento é jogo pra dois, meu amigo, que não competem entre si. Não é tênis, é frescobol. São dois que lutam juntos contra todas as adversidades. Quando erra, abaixa, pega a bola de novo, dá uma limpadinha, tira a areia da raquete de madeira, arruma uma outra posição longe do buraco que foi formado pelo peso e pelo movimento do corpo; dá uma olhada pra dupla e começa de novo. Tem gente que joga mais devagar, sem rispidez dos movimentos, não gosta de agachar, nem de dar saltos – joga sem imprimir muita força. Se o parceiro não entende isso – mesmo que seja um excelente jogador, experiente e estimulado –, atrapalha e acaba com a dupla.
Agora eu não sei, tem que esperar. Ela precisa entender que pode te amar, mas antes vai ter que acreditar que ao seu lado vai poder respirar. Impossível saber quanto demora pra uma mulher como ela conceber os prós e contras de um relacionamento; de estar contigo. Vocês não correm na mesma passada e isso aumenta a sua ansiedade. Que ela te ama, eu não duvido. E não se pode pedir para alguém que ama como você desistir de alguém que ainda não entendeu isso. Mas, confie, essa angústia vai passar; mesmo que vocês nunca mais fiquem juntos. O tempo destrói também a amargura.
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Ele vai esperar a namorada por cerca de vinte minutos. Eles se encontrarão na praia do Leblon, por volta de umas seis da tarde, logo depois dele sair do trabalho. Qualquer espera pra ele vai ser demorada. Como sempre ele vai estar ansioso, como quase sempre ela estará relapsa e vai se atrasar.
Ele vai pedir, assim que se virem (depois de todo atraso dela), que o abrace. Ela vai abraçar e vai olhar o Vidigal lá atrás. Ele vai dizer que a ama, mas que quer mais carinho, que precisa de mais abraços, mais beijos, mais demonstrações. Vai dizer que precisa que ela se lembre dele durante o dia, que ligue pra dizer que o ama e que mande um torpedo pra confirmar a saudade de menos de uma hora separados. Ela vai dizer que acha que não é boa o suficiente pra ele, que não sabe quando vai amá-lo tanto quanto ele espera. Ele vai ter esperança que um milagre aconteça, que ela vá pedir pelo recomeço, do zero. Mas ela vai pedir o fim. Vai dizer que não quer mais correr o risco de não ligar para ele e de não mandar quantos torpedos forem necessários para satisfazê-lo. Ela nunca saberá quantos torpedos e ligações são suficientes. Ela nunca saberá que poderia ter acertado, ele nunca será capaz de não a sobrecarregar.
Ele vai chorar um pouco, o sol já vai se pôr. O coração dela vai se remoer por algumas horas, mas ela vai viajar em breve, e não lembrará; vai aproveitar o reveillon [é justo].
Quando ela for embora, ele vai pedir um copo de mate de galão, sem limão. Vai se sentar na areia e esperar a calma. E vai ver um púbere casal jogando frescobol. A bola vai cair um monte de vezes, a moça vai sorrir e dizer que não sabe nada de frescobol. A moça vai dizer ao rapaz que vai dar um mergulho, vai pedir pra deixar esse jogo pra lá.
Ele vai se levantar, ainda com metade do copo cheio, e ir pra casa. Vai esperar o telefone tocar [a noite toda]…


Terca-Feira, 22 de Janeiro de 2008, às 14:17
Excelente, meu amigo. É isso…
Terca-Feira, 22 de Janeiro de 2008, às 14:46
Muito bem bolado.
Eu resolvi mudar o final:
“Ele vai se levantar, ainda com metade do copo cheio, e ir pra o Embalo bar…”
Seria um final mais interessante.
Terca-Feira, 22 de Janeiro de 2008, às 18:17
como já diria o caipira no Caldeirão do Huck…”o amorrr é uma dorrrr”
Terca-Feira, 22 de Janeiro de 2008, às 19:22
Que texto tão, tão…
Feminino! De uma doçura, leveza e melancolia…
Muito bom mesmo!
Pela minha “interpretação” a mulher do texto é mostrada como um tanto leviana ou insensível (sei quem não há generalização ou crítica nisso, é “apenas” uma estória)…
Acontece que nem sempre quem demonstra menos ama menos e sofre menos depois….
A intensidade do amor pode ser diferente, mas também as formas de demonstrar não o são?
Puxa, me identifiquei com várias coisas…covardia isso! rs
Que saudade do jogo de frescobol…
Terca-Feira, 22 de Janeiro de 2008, às 21:01
Grande João,
Nessa hora, não em todas as outras, eu hesito se queria ser o tal “grande amigo de todas as horas”. Tampouco queria ser o “grande jogador de frescobol”, por melhor parceiro que eu seja quando jogo com iniciantes…
Obrigado pela força em todas as horas, pela amizade de todas as horas e os conselhos em todas as horas.
Espero que a próxima partida seja muito gostosa, com uma parceria mais sólida e madura. E mais equilibrada.
Adoraria repetir a parceria…
Um abraço apertado,
G.
Terca-Feira, 22 de Janeiro de 2008, às 01:40
Sempre achei sensacional essa metáfora do frescobol! E pensar que tem tanta gente jogando tênis por aí… Sem falar nos solitários jogadores de squash…
Muito bom texto, de muita sensibilidade.
Terca-Feira, 22 de Janeiro de 2008, às 19:43
Muito bom!!!
Adorei!!
Terca-Feira, 22 de Janeiro de 2008, às 22:46
Lindo texto, parabéns!
Terca-Feira, 22 de Janeiro de 2008, às 22:09
Aprendi a jogar frescobol quando encontrei um parceiro que se esforçava a buscar as bolas com a mesma intensidade que eu. Mas até encontrá-lo tive que muitas vezes deixar a raquete na areia, outras perdia por WO, mas nunca a arremessei ao mar.
Muito bom o texto, principalmente por ser feito especificamente para uma pessoa especial.
Terca-Feira, 22 de Janeiro de 2008, às 14:04
Ahh o frescobol! :)… amei o texto, JP. Beijao