por Felipe Moura Brasil (Pim) - Sexta-Feira, 18 de Janeiro de 2008, às 15:08
Morreu hoje, na Islândia, o norte-americano Bobby Fischer, considerado por muitos o melhor enxadrista de todos os tempos. (Sim, leitora, enxadrista: jogador de xadrez). Sei que ninguém aí vai dar a menor bola para esta notícia. Sei que, para a maioria das pessoas, o xadrez é quase tão importante quanto o arremesso de martelo. Sei que todo dia morre alguém ilustre de quem você nunca ouviu falar. Acontece comigo também. Leio o obituário, e descubro um sujeito que foi fundamental para a história de alguma coisa - e alguma coisa que, às vezes, faz até parte da minha vida. Outro dia mesmo, foi o inventor do Gatorade. Uma pena. Eu não o conhecia, mas fiquei triste.
O problema, no caso de Bobby Fischer, é que eu o conhecia. Sim, eu, enxadrista amador, tinha notícias dele - ainda que aposentado - desde pequeno. Nunca acompanhei Kasparov. Sou Bobby Fischer desde criancinha. Sofri o baque. Em novembro passado, Kasparov quis chamar minha atenção, organizando uma manifestação não-autorizada contra o presidente da Rússia, Vladimir Putin. Acabou preso. Ele sabia, claro, que sou a favor de todo movimento não-autorizado contra Putin. Mas não me compadeci. Eu não viraria Vasco se Eurico Miranda xingasse Lula.
Nenhum enxadrista jamais poderá superar o que Bobby Fischer fez por mim. O primeiro livro de que me lembro ter lido inteiro foi Bobby Fischer ensina xadrez. Com o auxílio de seus truques, faturei um monte de refrigerantes no salão de jogos do clube. Foi com ele (o livro) que também aprendi a negligenciar meus deveres de casa, antes mesmo de saber que Bobby os desprezava tanto quanto eu: “You shouldn’t be doing homework. Nobody’s interested in it. The teachers are stupid“, dizia o mestre, que também achava a escola uma perda de tempo. Tenho-lhe uma dívida eterna. Ele ampliou meu universo intelectual até então restrito à Turma da Mônica. Mal posso esperar para dar Bobby Fischer ensina xadrez a um filho meu.
Bobby, de fato, sempre foi mais divertido do que qualquer aula. Em seus exageros, ninguém era páreo para ele. Dizia que os judeus mutilavam suas próprias criancinhas, e, dada sua deles presença maciça nos tribunais, que os Estados Unidos eram controlados por esse bando de bastardos circuncidados. Em 1992, desrespeitou as sanções americanas contra Belgrado e, como um peladeiro fugindo da concentração, foi jogar uma partidinha com o russo Boris Spassky na antiga Iuguslávia. Até ontem, corria o risco de ser preso por isso, o que não importa. O que importa é que, mesmo afastado há décadas, ele papou Spassky.
Nossa gloriosa Bruna Demaison me disse outro dia que minha maior qualidade é detestar gente boazinha. Pois é, Bruna. Aprendi com Bobby: “There are nice guys and tough players. I am a tough player“. Um tough player, aliás, campeão nacional aos 14 anos, “grande mestre” aos 16, e melhor do mundo aos 27. Um campeão que negava essa balela de prodígio e se dizia meramente homem, mas um homem extraordinário. Um homem extraordinário que dizia dedicar 98% de sua energia mental ao xadrez, enquanto os outros dedicavam 2%. Um mentor intelectual que dizia que “gênio” era apenas uma palavra: quando você ganha, você é; quando você não ganha, você não é.
Não tem jeito. Bobby foi e sempre será o meu Romário, o meu Renato Gaúcho, o meu Gérson. Por um Bobby Fischer, eu trocaria todos os Kakás do mundo.


Sexta-Feira, 18 de Janeiro de 2008, às 16:30
Pim, nem precisava explicar o que era enxadrista, né?, suas leitoras são muito bem informadas. Devo admitir que, embora, de uns dias para cá, tenha algumas restrições sua pessoa, você é muito talentoso mesmo, pois de uma notícia de morte, você consegue fazer um texto pra lá de divertido. A parte do Kasparov me fez rir demais!
Sexta-Feira, 18 de Janeiro de 2008, às 16:54
Olga adorada, obrigado, adoro restrições. Quem não ganha, ora, é gente muito boazinha…
Sexta-Feira, 18 de Janeiro de 2008, às 17:04
É verdade, as pessoas boazinhas costumam ser muito perigosas…
Sexta-Feira, 18 de Janeiro de 2008, às 17:19
Pim, me desculpe mas por uma Sharapova , eu trocaria todos os Fischeres do mundo.
Sexta-Feira, 18 de Janeiro de 2008, às 17:32
É justo, Marcos.
Sexta-Feira, 18 de Janeiro de 2008, às 17:34
Também adoro ler obituários, inclusive de gente que nem sabia que existia… Também gosto das colunas “histórico-retrospectivas” dos Jornais (no Globo é a “Há 50 Anos”), com noticias curiosas e outras infelizmente ainda atuais…
Quanto ao seu “Bobby”, sei o que é enxadrista mas não entendo patavinas de xadrez. Mas também penso que gente sem papas na língua é muito mais interessante que os “bonzinhos”… Imagino como ele deve ter sido taxado de anti-semita e perseguido por seus comentários… Pelo seu (ótimo) texto, fiquei com vontade de saber mais sobre ele (mas não a ponto de querer aprender a jogar xadrez, acho q já passei da idade,rs)
Lembrei de outro exemplo esportivo: Senna x Piquet (o primeiro já era chato em vida, morreu e virou santo, já o segundo me parece mais interessante como personagem).
Sexta-Feira, 18 de Janeiro de 2008, às 01:13
PIM, a escola é chata porque sua principal função é adestrar,isso desde tempos medievais.Logo,quem gosta de ampliar seu “universo intelectual”, vai simplesmente odiar ficar recluso por horas numa sala estudando adjunto adnominal,afluentes,os reis de Roma, mitocôndrias, raiz quadrada…A escola mais reproduz do que inova e, para seu desespero,a mesma vem formando milhares de bonzinhos todos os dias. Todos conformados e dóceis, aprendendo a fazer seu dever de casa direitinho. Quando crescerem, continuarão entregando seus deveres de casa docilmente, nas mãos do Estado, em forma de impostos…mesmo perdendo com isso.
Ah,tá. Sou pedagoga, não gosto de estudar e, pra um joguinho de xadrez, estamos aí.
Sexta-Feira, 18 de Janeiro de 2008, às 22:58
Parabéns por desqualificar o Kaká.
Sexta-Feira, 18 de Janeiro de 2008, às 14:15
Bora pruma partidinha no “chess.com”?
Te aguardo lá. Meu nick é “kreig”.
Sexta-Feira, 18 de Janeiro de 2008, às 14:20
Po, Kaká é fóda. Não sou muito da praia religiosa e tão certinha como a dele, mas acho q uma figura pública, com valores assim “certinhos” cai bem num mundo tão perdido como o nosso atual. Ele cumpre metas no trabalho, honra a família, prega a paz, etc. Um bom exemplo pras gerações q mal formação tem e q aconpanha o futebol.
O Viva a Sharapova!
Sexta-Feira, 18 de Janeiro de 2008, às 14:03
Opa, tava dando uma zapeada pela net e encontrei este post!!!!
Ótimo post por sinal, mas Fischer foi muito mais, o cara era fera!!!!!
Tenho seu livro até hoje, lembro de ter me atrapalhado todo com aquelas páginas viradas pra baixo, mas é o preço de ir direto à matéria sem passar pelas preliminares!!!!!!
Adeus Fischer!!!!!!!!!!!
Sexta-Feira, 18 de Janeiro de 2008, às 21:11
Fischer foi e é, um grande ídolo. Adeus mestre, digo grande mestre, fique em paz.