por Bruna Demaison - Quinta-Feira, 27 de Dezembro de 2007, às 15:17
Eu sei, deveria ser um texto com fogos, contagem regressiva, taça transbordante de otimismo, mas dormi no Natal. Não acordei a tempo. Ceei um rolinho-primavera de carne-seca (delicioso, por sinal) e quando levantei já era véspera de reveillon. Acontece que acabar 2007 agora seria a saída mais fácil. 2008 se transformaria na dieta que começará na segunda-feira, prometer parar de fumar aos trinta.
O vidente anuncia que 2008 marcará o início de um novo ciclo como todos os anos regidos pelo número dez. Será um ano de mudanças dramáticas. Búúú. A cartomante ensina um banho com água mineral, dezesseis pétalas de rosa, uma maçã cortada em oito pedaços, uma colher de mel e óleo de amêndoas. Não deu nenhuma dica para meu miojo não ficar mais empapado a partir do ano que vem nem revelou a cura para a enxaqueca. Mas quem se importa? Lá vamos todos em direção ao mar fazer nossas promessas e confiar que a partir de 1 de janeiro a coisa muda! Problema nenhum um tiquinho de fé, né? Eu vou jogar minhas flores para Yemanjá logo depois de acender uma vela na igreja. Estranha foi a reação da mocinha que comprava roupa branca na liquidação quando questionada sobre o que tem feito para ajudar a tal sorte. Que decisões têm bancado frente ao mundo. Quais discussões têm promovido. Qual outro caminho tem aberto enquanto reclama por seguir a boiada. Reclama? Se não reclama, ufa, uma a menos com enxaqueca.
Mais outro 31 de dezembro chega e você se vê s vésperas do começo do resto da sua vida. Não do resto todo porque aprendeu que ela é subdividida em fases que se complementam e talvez até tenham um objetivo único, mas são independentes ou até interdependentes ou alguma coisa que signifique que funcionam juntas, porém têm bastante autonomia. Descobre-se muito enrolada, mal consegue explicar que daqui a pouco começará o dia que será seguido por muitos outros e o que isso gera dentro do seu coraçãozinho. Não consegue cometer a falta de educação de escrever a expressão chula que bombardeia sua mente ao imaginar o céu de Copacabana lindamente iluminado enquanto multidões se abraçam desesperadas por um pouco de alento e força.
Dane-se é mais bonitinho. Não poderão acusá-la de amarga, comunista, separatista, cínica. Não poderão acusá-la de louca, deprimida, perturbada. Só poderão acusar-se de não serem capazes de compreendê-la, e para suportar o peso da superficialidade transferirão para você a culpa de incomodar. Enquanto isso você vai tomar seu vinho tinto num calor sufocante sob o incensado suvaco do Cristo porque prefere. Vai tentar traduzir a mocinha boba do filme no diálogo com o artista cheio de auto-piedade: “faça-os se perguntar por que diabos você continua sorrindo”. Vai deixar o texto sem final e o leitor com raiva do título. Ele vai descobrir sozinho.


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