por Felipe Moura Brasil (Pim) - Quarta-Feira, 19 de Dezembro de 2007, às 15:12
Juveninho tem um novo ídolo. É um ventríloquo americano. Seu nome é Jeff Dunham. Indicação de seu fisioterapeuta. Há fisioterapeutas que indicam alongamentos. Há fisioterapeutas que indicam ressonâncias. O fisioterapeuta de Juveninho indica ventríloquos. Deve achar que Juveninho sofre de múltipla personalidade. E que a múltipla personalidade, como tudo ultimamente, é psicossomática. Juveninho não teria machucado a virilha na cama, como ele diz. Mas na mente. É uma hipótese.
O fato é que Juveninho passou a semana inteira no YouTube assistindo a Dunham e seus bonecos. O terrorista morto Achmed, o super-herói Melvin e, sobretudo, o rabugento Walter, agora candidato a presidente. Os outros não eram legendados. Walter, na verdade, tampouco, mas a rabugice, explica Juveninho, é como o dinheiro: uma língua universal. Os rabugentos do mundo inteiro se entendem à menor arcada de sobrancelha. É quase um código Morse. Não há americano algum que ria de Walter antes de Juveninho. Ele teme se tornar um completo idiota. Mas continua.
Desde que foi entrevistado por Johnny Carson em seu mundialmente plagiado Tonight show, Jeff Dunham virou uma febre nos Estados Unidos. Participou de todos os programas de TV. Saiu dos pequenos clubes de stand-up comedy para os maiores teatros do país. Ganhou uma porção de prêmios de humor. Seus bordões, como o “I kill you!”, de Achmed, são tão repetidos por lá quanto os do Capitão Nascimento por aqui. Seu primeiro DVD, Arguing with myself, vendeu mais de 500 mil cópias não-piratas só em 2006. Outros estão a caminho. Juveninho conta tudo isso para quem chega perto dele. Em casa, foi direto ao ponto: “Mãe, quero ser ventríloquo”. Sua mãe achou que era carnaval. Perguntou quem ia ser a aurícula.
Foi mais um teste de Juveninho para saber a reação dos mortais diante de carreiras incertas. Ele não quer ser ventríloquo coisa nenhuma. Quer ser escritor. Publicar A repugnância pós-cópula pela fêmea não amada, e procurar um grande amor entre as fãs. Pretende, como Jeff Dunham, trabalhar a vida inteira para fazer sucesso da noite para o dia. Mas enquanto trabalha a vida inteira ninguém o entende. Um médico não entende Juveninho. Um engenheiro não entende Juveninho. Um economista não entende Juveninho. Nem uma dona de casa entende Juveninho. Na idade de Juveninho, ele diz, todos já podiam freqüentar festas de Réveillon com 11 DJs. Ninguém vai entendê-lo enquanto não falar a língua universal. Jeff Dunham fala. Hoje, além de ingressos, vende camisetas, ímãs, chaveiros, bonecos e tudo isso que os americanos compram dos ídolos. Juveninho chega lá. Já tem os contatos de todas as sex shops. Só faltam os livros.
Sabe, Juveninho, que, na arte, só existem duas coisas importantes: dominar a técnica (de ser cativante) e ter algo a dizer. As menininhas, infelizmente, só vêm depois. (Quando vêm antes, ele diz, o artista se acomoda. Insiste que não é o seu caso). Todas as manhãs Juveninho abre os jornais e lê uma porção de sujeitos entendidos de uma porção de assuntos. Alguns até têm algo a dizer, mas não dominam a técnica. São chatos. Todas as noites Juveninho passa por Copacabana e dá uma olhadela nas exclusivas. Elas dominam a técnica, mas não têm nada a dizer. São ótimas. Não é isso, contudo, que Juveninho quer comprovar. Se não há ventríloquo no mundo tão bem-sucedido quanto Jeff Dunham, isto sim, é porque ele não só domina a técnica como também tem algo a dizer. É bom comediante. Como Seinfeld. Michael Winslow. Pedro Cardoso. Todos encontraram suas vozes. Por isso Juveninho investe em si mesmo. Técnica e conteúdo. Se não tiver os dois, terá menos menininhas.
Aprendeu, Juveninho, com Schopenhauer, que nem a leitura nem a experiência podem substituir o pensamento. Não há um dia sequer que Juveninho não vá pensar no Coqueirão. Teme ficar defasado em relação a todos os grandes pensadores de lá. É duro manter o ritmo deles. Sua virilha segue com sinais de fadiga. Está cada dia mais caro o protetor solar. Mas Juveninho não desiste. Trabalha a mente e o corpo do jeito que pode. Precisa de uma aurícula morena para pular junto o carnaval.


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