por Bruna Demaison - Terca-Feira, 11 de Dezembro de 2007, às 15:29
Magrinha, cabelo preto preso atrás da orelha para não cair nos olhos enormes que só olham para baixo. As mãos tremem um pouco como a voz. “Errei em tudo. Para consertar um problema criei outro, mais outro, até não sobrar força para enfrentar nem desculpa para seguir. Não preciso estragar mais nada”. Ninguém disse uma palavra, falar o quê? Calma, tenta outra forma, tem jeito. Falar é fácil.
Capa da revista do Globo de domingo: palestras motivacionais nas empresas. Fui a várias. Já vi gente chorar, cantar o Xote da Alegria e bater nas pernas de tanto rir. Já vi gente abraçar o chefe. Gente velha e gente nova, gente com salário de cinco dígitos e de três. Os palestrantes estão ricos. Já escrevi que se guardássemos menos roupas novas para uma noite que ainda vai vir, se tomássemos logo o vinho que não abrimos esperando pelo momento especial e se nos dedicássemos com toda a nossa força tanto no começo quanto no fim, teríamos que ouvir menos vezes os clichês entusiastas de carpe diem. Escrever é fácil.
“Continuar para quê?”, ela murmurou. Baixinho, alguém ao meu lado pensou alto: para comer brigadeiro de colher.
Quem bebe chopp na calçada do Jobi depois do show do The Police não é porque está com sede, é porque tem algum objetivo ali. Uma conversa, uma pessoa, um programa para amanhã ou depois. Sem motivo, vai beber água em casa. Ninguém levanta da cama se não tiver vontade nenhuma, nem que seja vontade de ir ao banheiro. É um motivo. Porque queremos viajar no fim do ano ou pagar nossas contas, trabalhamos todos os dias. Porque queremos ser reconhecidos, conquistar nosso espaço, realizar sonhos, ficar longe de casa, alguma coisa queremos para abrir a porta e ir.
O que você quer? Não em 2008, o que você quer agora? Agora que está um calor senegalesco, que você está cheio de pendências para resolver, que não está satisfeito com seu corpo nem rodeado por pessoas sensacionais. Agora em curto prazo, agora que é até possível fazer algo simples. Quer uma pizza de pepperoni? Um banho de cachoeira?
Um pôr-do-sol na praia. Cheiro de terra molhada. Piada interna com as amigas. Dor na barriga da gargalhada. Risoto. Aquele abraço. Barulho de chuva. Ver criança aprender a ler. Entregar o projeto. Ouvir o elogio. Pão saído do forno. Tentar só mais uma vez. Qualquer motivo. Basta um. Você quer viver para quê?
Ela levantou a cabeça e arriscou: eu quero viver para pular o muro.


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